Da música e de outros temas – Parte II

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Antes de continuar a indicar nomes de artistas de peso presentes nos cartazes dos festivais de música de 2019, reforço a necessidade de trazer mais mulheres para a indústria musical. 

Poderá parecer-vos uma questão menor. Talvez seja por isso mesmo que as questões ditas maiores estão dominadas por gente envelhecida, tecnocrata, bafienta, sem poder de interacção com as pessoas. 

Veja-se o poder político, por exemplo. Talvez a crónica incapacidade que o poder político tem de se relacionar com os cidadãos venha, precisamente, desta cisão ficcionada entre assuntos maiores e menores. Talvez a formalidade, o sufoco das decisões de “fundo” e o peso político de líderes que admitem não se lembrar da última vez que foram ao cinema sejam responsáveis pelo estado da nação. Talvez os que não nomeiam livros, não ouvem música e se recusam a partilhar um pouco daquilo que os distingue de meras máquinas políticas – talvez esses – sejam responsáveis pelo desinteresse da população em relação a eleições, à vida política, ao futuro. Talvez estes interesses, quando forçados ou inventados para mero ganho político já não passem como verdadeiros. Talvez as dancinhas, os senhores das feiras e os oportunismos das campanhas políticas tenham tido o seu tempo. Talvez – só talvez – os comuns mortais precisem de novos líderes, sinceramente ecléticos em vez de artificialmente interessados em outra coisa qualquer que não apenas a capitalização de votos à custa do disfarçar de vidas sombrias, sem sal, sem interesse, sem graça. 

Talvez!

Talvez possamos acabar com o mito de que a classe política não pode ser culta ou capaz de conciliar interesses pessoais com mérito profissional/político/ético. Não só podemos como não temos outra alternativa. Sob pena de perpetuarmos este sistema de gente cinzenta de mão dada com gente boçal. Dos Berardos da vida que chegam com basófia aos meandros da política e da alta finança por perceberem que gente cinzentona não resiste a um fanfarrão. Que gente cinzentona é descendente de Dâmaso Salcede: dá couro e cabelo para ser chique a valer: aprovando empréstimos de Berardo super star, pagando o que se tem e não tem pela retrete de Duchamp, o quadrinho para expor no escritório ou o Algarve inteiro para ter um campo de gólfe para jogar com os amigos. 

No fundo, continuamos personagens de uma qualquer novela Queirosiana. No fundo, um país que não percebe o valor da cultura e o poder da mobilidade social pelo mérito perpetua gerações dicotómicas. Por um lado, uma elite aborrecida de tão habituada ao poder sem prestação de contas; por outro, um ou dois pavões com operações de charme baseadas numa lata sem fim. Um país sem classe média, sem instituições pensantes, anda assim. Um país sem diversidade no poder nunca será nada mais do que isto. 

O mesmo se passa na música. Um país que não tem panorama musical – excepção feita ao fado – idolatra a sátira de Conan Osiris, não percebendo que é só triste não ter nada mais do que Conan Osiris. Que a sátira só tem graça quando não é o todo. Que é triste andar pelo mundo e só poder nomear, como ídolos musicais nacionais, Carminho e pouco mais. 

Triste, mas mesmo triste, é pensar que mais metade da população está completamente arredada de tudo isto: dos meandros do poder, da finança, da indústria musical. E seria tão fácil trazer mais diversidade e mais pertinência aos assuntos suscitados na vida política, social, musical deste país. Bastaria apenas dar oportunidades à maioria da população. Que está pronta, qualificada e que tem direito a ter representatividade no espaço público. 

Chamem as mulheres! Recrutem mais mulheres, dêem mais oportunidades a mulheres. É fácil, é rentável, promove a equitativa distribuição de renda e contribui para o progresso cultural, social e político deste país à beira-mar plantado. 

Adiante. Enquanto inspiração, e para aligeirar o tema deprimente do estado da nação, deixo-vos com algumas das artistas que irão passar pelo nosso país. Fica o desejo de que aprendamos alguma coisa com elas. Que não sejamos apenas o país que vê passar as modas, Que passemos a ser o país que se inspira no que passa para criar uma cultura de valorização das artes e da diversidade. 

Super Bock Super Rock. 

Lana Del Rey – “as aparências iludem” é um hipotético título para a história da vida de Lana Del Rey. Na verdade, que olha para a cantora não adivinha estar perante uma ex-estudante de filosofia, vertente metafísica, nascida em Nova Iorque mas toda a vida habitante de Laker Placid, lugar sufocante de tão pacato, verdadeira incubadora de melancolia  . 

Tempos bons, estes, em que as aparências desafiam preconceitos em relação ao típico aspecto dos geniais. 

A melancolia de Lana salta à vista, mas também ninguém lhe adivinha a vida sofrida. Lana é uma precoce caixa de surpresas. Aos quinze anos já lutava com problemas de adição ao álcool. Enquanto recuperava, refugiou-se na literatura. Nos grandes autores. Promoveu-os a salvadores e a heróis. Fez-se discreta, introspectiva e misteriosa. Em cada mão uma tatuagem: “trust no one” diz-nos das desilusões do passado e do isolamento de quem escreve e canta coisas geniais. “Die Young” é um carpe dizem retorcido de quem promete não desistir, não se acomodar; de quem quer morrer de velhice mas, mesmo assim, vivendo intensamente. 

 

Janelle Monae – a mulher furacão vai passar por Portugal e promete não deixar pedra sobre pedra. Poupo-vos o resumo da biografia da Dorothy futurista. Janelle, nascida no Kansas, tem uma biografia que cansa só de ler. Aparece na cena musical sem modéstia, sem pedir desculpa, sem a mínima humildade. How dare she? A filha de um camionista e de uma empregada de limpeza, Janelle estreia-se orgulhosa das suas raízes, com um álbum que promete sequelas, assumindo o alter-ego de Cindy Maeweather, contando estórias de andróides em cenários futuristas, estórias de amor em tempos de guerra, ou seja, em tempos de distanciamentos cibernéticos e revoluções interiores. No segundo álbum, não recua um milímetro. Fala do outro, do renegado, do andróide enquanto entidade desconhecida e por isso suspeita. Faz-se o outro, e entre o outro e o eu constrói pontes com recurso a sonoridades funk, R&B e Soul. Que loucura!

Inventa diários gráficos, anuncia planos de musicais na Broadway. No intervalo de tudo isto, como se fosse fácil, ainda se estreia como actriz no filme Hidden Figures, e, assim, facilmente, arranca uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz Secundária. Parece fácil, mas não é. E não se fica por aqui. O terceiro álbum, Dirty Computer, é elogiado por todos e candidato ao Grammy. A performance na cerimónia é memorável. Afinal, estamos a falar de uma cantora-activista, sempre atenta aos direitos das mulheres, aos direitos da comunidade negra, aos direitos LGBTQ, à política anti-Trump. Com a garra de quem nunca pediu licença. Com o conhecimento musical nascido da intersecção de vários estilos. Com a certeza de quem nasceu para dar espectáculo. 

Paredes de Coura. 

 

Patti Smith – Deixei a melhor para o final. Patti dispensa apresentações, mas é muito mais do que qualquer biografia redutora disponível na internet. Patti é uma guerreira que nem sempre soube como mas que sempre soube que tinha de fazer arte. Florence Welch dedica-lhe uma música em que canta “she told me all doors are open, so I believed her, I believed her, I believed her”. A história de Patti começa assim, com um enorme salto de fé, descrito na sua auto-biografia Just Kids. Com a ida para Nova Iorque sem um tostão no bolso. Nela, apenas a vontade de ser mais, de viver para além das redutoras fronteiras de New Jersey, para lá dos horizontes da família ou, até, dos sonhos mais optimistas. 

A beleza de Patti está em nunca ter deixado de acreditar: no futuro, em Deus, no Amor. Apesar de tudo o que passou, olha para tudo com bondade. Para a sua relação com Robert Mapplethorpe, para os tempos felizes e tristes; para a época em que viveu na rua e para a época em que explodiu enquanto artista. Para os dias em que não sabia como canalizar toda a arte que tinha e para os tempos em que se encontrou. E durante todos estes tempos, nunca perdeu o norte porque nunca perdeu a fé. Rodeada das melhores e piores companhias, nunca se deslumbrou. Patti é árvore firme, com raízes assumidamente vulneráveis e por isso fortalecidas ao longo de toda a história da sua vida. Continua a ser como o bambu: assume o presente, adapta-se a tempos e ventos e nunca quebra. Poeta, música, cantora, Patti é, numa palavra, especial. 

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Teresa Morais tem 35 anos, é jurista, tradutora e activista. Depois de viver em São Paulo e em Londres, voltou, há dois anos, à Lisboa que a viu nascer. Gosta de biografias, boas revistas, boas séries, bons políticos e bons amigos. Ouve música de todos os estilos, a toda a hora, em qualquer lugar. Está no Capital Magazine por acreditar ser esta a hora de falar de causas e de fazer melhor política em Portugal.

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