Os Windsors e o novo bébé real britânico

0

Se considerarmos unicamente as implicações para a sucessão ao trono britânico, a chegada do primeiro filho dos Duques de Sussex (também conhecidos como Harry e Meghan) não foi certamente o mais importante dos nascimentos monárquicos. O bébé Archie (um nome menos aristocrático que Meghan certamente foi buscar, com uma ponta de ironia americana, ao personagem Archie Bunker da deliciosa sitcom dos anos 70 All in The Family) é apenas o sétimo em linha de descendência ao trono e essa posição ainda vai caír mais quando os filhos do Príncipe William e de Kate começarem a casar-se e a reproduzir-se. Archie nunca vai ser rei e até pode nem vir a ter o título de Príncipe. No entanto, o nascimento deste bébé real mais uma vez atraiu atenção por todo o mundo, ocupou páginas e páginas de jornais, horas e horas de cobertura televisiva (até mais na América do que no Reino Unido) e suscitou interesse a pessoas que normalmente não se interessam por este tipo de eventos. Porquê?

Uma parte do fascínio tem a ver claro com os pais da criança. Pela primeira vez na História da monarquia britânica temos um bébé real que tem não só uma mãe que é americana como de herança afro-caribeana, mestiça em bom português. Mas outra parte tão ou mais significante do interesse tem a ver com o tumulto político que o Reino Unido atravessa desde 2016. Enquanto os partidos e deputados britânicos se degolam uns aos outros há três anos consecutivos sem parecerem chegar a lado nenhum no processo do Brexit, a estabilidade da nação e uma certa serenidade tradicionalmente britânica são representadas pela monarquia dos Windsor, que permanecem à parte de todo o ruído político. Isto seria impossível fosse a figura do Chefe de Estado um Presidente, escolhido por um partido, que teria inevitavelmente a tentação de meter o pé no charco do Brexit a cada semana que passasse (ou se fosse o caso do hiperactivo Presidente Marcelo, a cada hora do dia). Os políticos britânicos de momento representam agitação, caos, indefinição, pessimismo. Em contraste total a casa Windsor é uma imagem de serenidade, vigor, optimismo e juventude.

E no entanto nada disto era garantido: a génese, desenvolvimento e posteriores problemas da dinastia Windsor não anunciavam de todo uma construção permanente. Os Windsors são na realidade tudo menos britânicos ou ingleses – até há cem anos eram parte da muito alemã Casa Real de Saxe-Coburg e Gotha, que tinha sucedido no trono britânico à Casa de Hanover na sequência da morte da Rainha Vitória (o marido de Vitória, Albert, era um Saxe-Coburg e Gotha). Ninguém se preocupou muito com isto até 1917, quando o sentimento anti-alemão inundou o Reino Unido que, à altura, perdia milhares de jovens por dia na Grande Guerra. A gota de água veio em Março de 1917 quando um aviao alemão, curiosamente chamado Gotha G.IV, bombardeou Londres intensamente. No mesmo mês, o primo do rei britânico George V, o czar Nicolau II da Rússia, foi obrigado a abdicar na sequência da revolução bolshevik, o que trouxe uma possibilidade muito real do fim de todas as casas monárquicas europeias. George V decidiu imediatamente abandonar qualquer ligação ou conotação germânica e a 17 de Julho de 1917 proclama Windsor como o novo nome da casa real britânica. Windsor foi a escolha porque tinha uma conotação inglesa, quase doméstica e porque era fundamentalmente um nome inofensivo. George V também retirou rapidamente os títulos reais britânicos a todos os seus parentes alemães.

A partir daí a Casa de Windsor embarcou, por força da necessidade de sobrevivência e de uma série de circunstâncias externas, num dos mais complexos exercícios de reposicionamento estratégico e de rebranding (como se diz hoje em dia) do século XX. Em 1945 a Inglaterra tinha vencido a guerra contra os alemães, mas, na prática, a grande vitória tinha ido para os americanos: a Europa estava física e materialmente de rastos e eram os americanos que iam agora (e pelos próximos setenta anos) pôr e dispor do mundo. A Rainha Isabel II ia ser parte crucial nesse vasto exercício de rebranding. Em 1947 ela casa-se com Philip Mountbatten, o agora nonagenário Príncipe Filipe. Acontece que Filipe (que tinha nascido com o título de Príncipe da Grécia e Dinamarca) tinha um passado demasiado colorido para a Inglaterra da austeridade do pós-guerra. Ele era um membro da muito alemã Casa de Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. Meses antes do casamento com Isabel, Filipe teve de abandonar todos os seus nomes alemães e adoptar o apelido Mountbatten do seu tio e mentor o Barão Mountbatten da Birmânia (o último vice-rei da Índia, que em muitos círculos reais é referido como o verdadeiro pai do Príncipe Carlos). Também apagadas rapidamente da História foram as quatro irmãs de Filipe que tinham casado com príncipes alemães e desenvolvido fortes simpatias e elos com os Nazis; tal como a mãe dele, uma esquizofrénica hospitalizada na Suiça e o pai, um playboy que se tinha mudado para o Mónaco. A primeira regra da Casa Windsor para o novo pós-guerra britânico era retratar uma imagem familiar, estável, frugal. Toda a bagagem familiar colorida que Filipe trazia tinha, por isso, de ir pela janela fora.

As décadas seguintes trouxeram desafios gigantes aos Windsor. Por todos os anos 50 e 60, a Raínha Isabel II teve de proceder cautelosamente ao desmantelamento e à descolonização do maior império do século XIX e fazê-lo sem gerar conflito interno (milhões de retornados das ex-colónias britânicas chegaram a Inglaterra nessas duas décadas trazendo com eles culturas completamente diferentes, da Jamaica ao Gana, da Índia ao Paquistão). A era isabelina acelera no fim dos anos 60 para uma profunda mudança social: a estrutura clássica da família, o papel tradicional das mulheres, as relações entre patrões e trabalhadores, o próprio modelo económico, tudo isso sofreu uma alteração drástica no Reino Unido nos anos 70. A solução para os Windsor foi aumentar a acessibilidade da família real, tornar os Windsor numa família que na aparência era igual às outras, excepto que as outras famílias não tinham palácios com oitocentos quartos. Isabel II começa a tradição de mensagens ao público, primeiro pela rádio (já nos anos 50), depois pela televisão. Começam também os especiais televisivos em que se mostram os Windsor em casa levando vidas normais: o Príncipe Filipe a cozinhar salsichas nos piqueniques escoceses, o Príncipe Carlos a dançar no Rio de Janeiro, a Rainha e os cavalos, a Princesa Margarida e os Beatles e os Stones. Para sobreviverem os Windsors tiveram de eliminar a distância entre eles e essa sociedade radicalmente mudada. O véu de invisibilidade monárquica estava desfeito para sempre.

O período entre 1982 e 1997 foi o mais delicado neste vasto projecto de reposicionamento real britânico. Preocupada com a continuidade dos Windsors, Isabel II pressiona o Príncipe Carlos a um casamento que ele nunca quis. Entra em cena Diana, nova demais, impreparada, ingénua e com uma personalidade completamente diferente da de Carlos: volátil, urbana, insaciável. Diana gera dois herdeiros: Harry e William mas também gera um furacão sem precedentes na casa Windsor. Ao mesmo tempo que Isabel II se vê obrigada a um papel cada vez menor (o fecho do iate real Britannia e a devolução de Hong Kong aos chineses foram os exemplos máximos dessa deflação da centralidade da monarca), Diana e Carlos insultam-se um ao outro quase diariamente nos jornais, nas rádios e em entrevistas televisivas para lá do confrangedor. Há o primeiro grande divórcio real em 1992 mas as águas não acalmam e tudo caminha num vortex trágico até àquele 30 de Agosto de 1997 em que Diana morre, esmagada num acidente de carro brutal em Paris, com o seu novo amante, Dodi Fayed, ao lado. Durante uma semana Isabel II fica refugiada na Escócia sem saber o que fazer, não reage, não aparece em Londres. É o periodo mais perigoso de toda a história dos Windsors. Quando Isabel II volta a Londres com a família e decide baixar o mastro real e fazer um discurso à nação elogiando Diana, a humilhação desses anos estava completa. Mas também estava aberta a fase final da transformação dos Windsors: a redenção.

Essa fase mais recente viu os Windsors adoptarem a modernidade em velocidade cruzeiro, por vezes até mais rapidamente que o resto da sociedade britânica. O Príncipe Carlos casou-se com Camila, o verdadeiro amor da sua vida. Os principes William e Harry tiveram uma educação mais informal e sobretudo uma vivência social muito mais livre do que Carlos jamais teve: não só a liberdade de namorarem com raparigas de classe média (e no caso de Harry com uma americana divorciada) mas sobretudo a liberdade de decidirem o próprio rumo, envolverem-se nas próprias causas e até de controlarem a sua própria mensagem e imagem (os dois são os primeiros membros da monarquia em Inglaterra a falarem abertamente da sua luta contra a depressão ou o alcoolismo, por exemplo, e têm tido um papel central numa variedade de associações que apoiam jovens com problemas mentais). Os dois irmãos príncipes continuam a ser uma combinação genética que não é de todo a imagem da pureza nacionalista – uma mistura de ingleses, alemães e gregos e por via dos casamentos abriram ainda mais o espectro social e genético da monarquia britânica.

No fundo o que os Windsors conseguiram neste processo de renovação foi o criar a imagem de uma família acima da imagem monárquica (o que aliás é a única forma de uma monarquia ocidental sobreviver no século XXI). Por isso é que, apesar das vidas extraordinárias que levam, é para milhões de pessoas muito mais fácil identificarem-se com eles do que com os políticos eleitos. Os ritmos e etapas da família real britânica são os ritmos e etapas de todas as nossas vidas – nascimentos, casamentos, divórcios, morte e a passagem do testemunho de geração para geração. O próprio Archie é um bébé de raça mista-  exactamente a etnia que mais cresce no Reino Unido em 2019, outro sinal de modernidade e sobretudo uma concepção de mundo a um milhão de milhas do espectro isolacionista e nacionalista de um UKIP, por exemplo. A família real britânica sobreviveu a um século que a podia ter, pura e simplesmente, dizimado. E naquela maravilhosa primeira foto do bébé Archie a conhecer os bisavós (a Rainha Isabel II e o Príncipe Felipe) está todo um arco da História do Reino Unido: dos descendente de alemães e gregos que sobreviveram a duas guerras mundiais até ao filho de uma americana mulata, em apenas cem anos. Só por isso vale a pena ser monárquico.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.