As fantásticas notícias da banca e o argumento da propensão para o risco para excluir mulheres das empresas

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Imagem de Isabel Santiago.

Acabámos de ter a notícia de que a banca portuguesa perdoou uma dívida de 116 milhões de euros à SIVA para permitir a compra da companhia pela Porsche. Temos recebido nos últimos anos catástrofes atrás de catástrofes vindas da banca. Em Portugal tivemos na CGD, além de vários casos claros de compadrio político (se não mesmo corrupção), decisões de uma incompetência atroz, com grandes empréstimos a serem acordados com empresas e organizações que de modo nenhum deram garantiam de valor correspondente. Mas não se passou só na CGD. Praticamente todos os bancos tiveram grandes imparidades resultantes de negócios e créditos ruinosos – mais uma vez, houve uma tremenda casualidade na hora de emprestar dinheiro, não se cuidando de ter garantias, apoiando projetos excessivamente arriscados com poucas probabilidades de serem bem sucedidos. Chamemos à liça o caso Berardo, possuidor de apenas uma garagem no Funchal, mas com uma dívida de quase mil milhões de euros a três bancos – é como quem diz, várias pessoas nestes bancos decidiram emprestar dinheiro em condições aventureiras.

E depois, claro, temos a crise de 2008. Não a vou explicar ou comentar (recomendo ver The Big Short, que este filme é uma boa introdução). Mas na base de tudo esteve um gosto de arriscar sem medir as consequências, construindo-se produtos financeiros cada vez mais periclitantes e sem solidez – que, mais tarde ou mais cedo, desabariam.

Ora a banca, tal como toda a área financeira, é um setor muito masculino. Há menos de 2% de CEO mulheres em empresas financeiras, e menos de 20% de mulheres nos conselhos de administração. Se nos níveis inferiores a participação feminina é substancial, à medida que se sobe hierarquicamente as mulheres vão escasseando – como de resto é normal nos vários setores. Nas agências de supervisão bancária, as mulheres são geralmente menos de 20% em cargos sénior.

Fui buscar estes números a um estudo do Fundo Monetário Internacional (um resumo aqui), que apesar destes baixos números concluiu que os bancos que têm mais mulheres nos boards têm maiores reservas, menos empréstimos problemáticos e maior resistência ao stress. Segundo o estudo, tal deve-se sobretudo às discriminações a contratar, que levam a que as mulheres, quando contratadas, sejam extremamente qualificadas (em vez de apenas tão qualificadas como a média dos homens das instituições). E ao facto de, claro, a diversidade de sexos trazer também diversidade de opiniões, o que leva a melhores decisões. A hipótese colocada no estudo de as mulheres serem melhores gestoras de risco teve resultados mistos.

Não sei se as mulheres são melhores ou piores gestoras de risco que os homens – provavelmente não haverá uma divisão por sexos. No entanto é um traço de personalidade conhecido a maior propensão relativa para o risco dos homens e a menos propensão relativa das mulheres. E este traço é usado pelos machistas de serviço, desde o inevitável guru de auto ajuda idolatrado pela extrema direita aos espevitados das redes sociais, como explicação cabal para o facto de os topos e os cargos de gestão e decisão das empresas serem normalmente ocupados por homens.

Claro que a maioria destas pessoas pouco entendem de gestão de empresas. Como é evidente se numa empresa é necessário ter pessoas que arrisquem (em último caso, qualquer decisão é um risco), é por de mais óbvio que a propensão para o risco é apenas uma de muitas características que necessárias na gestão e na liderança. Empatia (capacidade de perceber os outros e os destinatários dos produtos da empresa), visão estratégica (perceber o que se passa e para onde vai o mundo), capacidade de comunicação, sentido das prioridades, gestão do tempo, organização, resiliência e mais umas tantas. Todas elas características em que as mulheres não se situam nada mal, pelo contrário.

Por outro lado, a propensão para arriscar pode ser perigosa se não moderada. Os homens tendem a ser excessivamente confiantes, a esperar que os seus planos tenham sucesso retumbante, a facilidade com que se endividam com poucos filtros foi por mim observada vezes sem conta, a dar muito por garantido. Se estas características são positivas para fazerem coisas acontecer, também são receita para o desastre se não tiverem moderação – ou dos próprios homens com uma mistura de prudência e de cautela, ou de terceiros, ou terceiras, que ponham água na fervura dos planos mais irresponsáveis. Uma empresa saudável sobrevive através do equilíbrio entre o arrojo, a perceção do que o mercado quer e a cautela. Pretender que a propensão para o risco é o motor de sucesso é apenas desconversa sexista.

Tendo tudo isto em atenção, não surpreende que um setor com uma proporção muito considerável de homens, sem contrapesos de elementos mais prudentes, tenha comportamentos arriscados além da conta e sofra crises sucessivas. Mas, sobretudo, os recentes desaires do tão masculino setor financeiro e bancário são um caso claro da necessidade das mulheres nas empresas, mesmo as de áreas tradicionalmente mais masculinas, e de como o excesso de propensão para o risco não dá saúde às empresas.

 

 

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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