As lições das eleições espanholas

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O mais surpreendente e provavelmente o mais importante nos resultados das eleições legislativas espanholas da semana passada foi o que não aconteceu. Ao contrário de muitas previsões não houve um crescimento exponencial do populismo ou dos extremos, quer da direita, quer da esquerda ou sequer das regiões (nesta caso a Catalunha, o calcanhar de Aquiles do regime democrático espanhol).

Em vez disso o vencedor claro (se bem que não absoluto) no campo partidário cada vez mais complexo, fragmentado e caótico da Espanha contemporânea foi um dos dois partidos que tradicionalmente dominaram o país desde o seu regresso à democracia em 1975: os socialistas do PSOE e do comeback kid Pedro Sánchez, com mais dois milhões de votos e a primeira vitória numas eleições legislativas desde 2008. Se bem que este ainda não tenha sido o acto final capaz de assentar as águas políticas espanholas numa muito necessitada estabilidade (o país já teve três eleições gerais desde 2015), a esquerda ganhou e tem toda a legitimidade para governar. Há algumas notas-chave e licões a reter, não só para Espanha mas para todo o espectro político europeu:

O eleitor prefere sempre o original à cópia: os socialistas espanhóis devem o sucesso em grande parte ao colapso espectacular do outro grande partido tradicional espanhol – o centro-direita do Partido Popular (PP).  A dimensão do colapso está nos números: em 2011 o PP teve 45% dos votos e ainda recentemente, nas eleições de Junho de 2016 uns respeitáveis 33%. No domingo passado caiu para 16%, ou seja uma perda de mais de metade e o pior resultado do partido desde 1979. A razão deste colapso tem sido atribuída por muitos analistas (de uma forma básica) ao extenso caso de corupção Gürtel que destruíu o governo do PP em 2018 e trouxe inicialmente o senhor Sánchez ao poder. Mas os socialistas espanhóis tambem têm imensos esqueletos no vasto armário da corrupção espanhola. A causa real desta derrota estrondosa esteve na mensagem: o PP passou os últimos três meses a tentar ser uma cópia da nova extrema-direita espanhola, o Vox. Guinou exageradamente para a direita e no processo alienou tanto o seu eleitorado mais moderado (que se virou para os Ciudadanos) como o mais radical que preferiu ir com o Vox. Os eleitores nunca gostam de cópias abruptas e coladas à força, para isso preferem os originais.

Sem liderança clara o arco da História volta sempre ao início: o ultra-nacionalista e ultra-conservador partido Vox capturou 10% do eleitorado na sua primeira ida às urnas. O líder do Vox, Santiago Abascal, fala constatemente da “Reconquista”, um termo provocador com conotações anti-muçulmanas e anti-semíticas. Esta é a Espanha reacionária, profundamente católica, socialmente conservadora e castelhana que sempre existiu, mesmo durante a época dourada da movida dos costumes nos anos 80 e 90 (é a Espanha da personagem da mãe de António Banderas no La Ley del Deseo, por exemplo). Tal como noutros países europeus (o AfD na Alemanha, a Liga italiana) chega a palco cortesia da instabilidade (três eleições legislativas em três anos) e da falta de uma liderença clara do centro (quando até o Ciudanos achou “normal” se coligar ao Vox na Andaluzia por puro oportunismo eleitoral o resultado não espanta minimamente). No entanto, ao contrário de Itália, esta foi mais uma redistribuição do voto de direita e não um aumento do mesmo. O eleitorado do Vox é razoavelmente abastado e não corresponde de todo à vasta coligação de desfavorecidos que, por exemplo, levou Trump ou Salvini ao poder. Para além do mais a Espanha tem no seu DNA pós-1975 um forte no pasaran à extrema-direita e o Vox dificilmente irá ultrapassar este patamar. A não ser claro que a direita moderada espanhola não tenha aprendido a lição destas eleições, hoje em dia toda a falta de racionalidade é expectável.

A política é também a arte de adaptar a mensagem: outra das razões do sucesso do senhor Sánchez foi a sua flexibilidade de mensagem (para lá de uma invulgar capacidade de resistência política). Pode não se gostar da mensagem (eu pessoalmente penso que ela representa graves riscos para a Espanha a nível orçamental) mas o PSOE aproveitou a pouca margem que tinha (os espanhóis ainda têm um déficit público de 3% e uma dívida perto de 100% do PIB) para investir em programas sociais e acima de tudo para tomar as decisões emblemáticas de aumentar o salário mínimo nacional em 22% e de dar novos subsídios para desempregados com mais de 52 anos de idade. Tudo isto sem mover um centímetro no compromisso espanhol com a UE e a NATO. O resultado foi um colapso (menos notado) na votação da extrema-esquerda do Podemos que só atingiu os 14%. Lembram-se do vasto albergue de votantes que Cavaco Silva contruíu apartir de 1985 destruíndo toda a oposição à volta dele? Veio também desta maleabilidade de ideias quase asséptica mas brutalmente efectiva.

A reacção suscita sempre uma contra-reacção: o discurso mais à direita, ou a reacção como se chamava nos tempos do PREC, pode ter beneficiado ligeiramente o Ciudadanos (já lá vamos) mas a verdade é que o espectro do Vox com as suas ideias neo-franquistas de “mulheres e gays trancados em casa” mobilizou uma contra-reacção do centro socialista. A taxa de participação eleitoral subiu em quase 10% e do milhão de novos votos, 900 mil foram para o PSOE, particularmente no voto feminino (que como se compreende não estava para tolerar em 2019 o cheiro neo-franquista trazido pelo Vox e também pelo PP por associação). O mesmo fenómeno passou-se nos grandes centros urbanos: nem um único colocou a direita em primeira opção.

O factor catalão ou de como o nacionalismo nem sempre paga: os três partidos da direita (PP, Ciudadanos e Vox) tentaram durante meses retratar Sánchez como o traidor que se tinha rendido aos separatistas catalães. Os três gastaram todo o tempo e capital político a competir entre si próprios sobre quem tinha a melhor solução para a eterna crise territorial catalã: as soluções milagrosas iam desde impor governo directo na região até abolir os governos regionais ou banir por completo os partidos independentistas. Os eleitores espanhóis negaram tout court este mandato para uma confrontação nacionalista. Por outro lado, os resultados na Catalunha também trouxeram duas boas notícias para os Socialistas. Primeiro, a Esquerda Republicana Catalã tornou-se o partido mais forte na região – embora pró-independência eles são substancialmente menos fanáticos que o Junts per Catalunya do anterior Presidente catalão Carles Puigdemont. E segundo, os Socialistas catalães ficaram em segundo lugar (e muito próximos da Esquerda Repubicana). Tudo isto significa que Sánchez vai depender menos para governar dos caprichos e mudanças de humor dos partidos independentistas.

Demasiados zig zagues ideológicos não são uma estratégia de longo prazo: o Ciudadanos (anteriormente um partido do centro liberal, anti-velho sistema, mas agora, pelo menos nestas eleições, mais virado à direita clássica) conseguiram subir a votação e ficar muito próximo do Partido Popular, os tradicionais capitães da direita espanhola. Claro que a intenção do Ciudanos agora vai ser a de desalojar o PP do pódio da oposição e liderar o centro-direita. No dia 26 de Maio há eleições europeias, regionais e locais em Espanha o que representa essa oportunidade dourada de afirmação. No entanto, têm de ter cuidado com tamanho zig zag ideológico: desde diálogo com o PSOE até a uma coligação com o Vox na Andaluzia, o Ciudadanos está a revelar-se mais camaleónico que o David Bowie no auge da carreira. Mas ao contrário de Bowie há os primeiros sinais de saturação com este comportamento errático: o Ciudadanos subiu de votação globalmente, mas, curiosamente, perderam, pela primeira vez desde a fundação, votos urbanos – e foi nessa urbanidade liberal e desprendida que o partido de Rivera se fez e se tornou um actor importante.

Um país não precisa necessariamente, por um tempo, de um governo para funcionar mas precisa sempre de estabilidade institucional: na aparência, a ausência de um governo contínuo desde Dezembro de 2015 não tem afectado a Espanha. A economia continua a ser a que, dos cinco maiores países europeus, mais cresce (agora acompanha a desacelaração que o continente atravessa desde meados de 2018, mas, mesmo assim, registou um muito respeitável crescimento de 2.8% no primeiro trimestre deste ano). O desemprego continua a descer, as exportações crescem substancialmente, os turistas continuam a inundar as cidades, vilas e praias espanholas. No entanto, nenhum país funciona eternamente sem o mínimo de estabilidade institucional, basta recordar que a Espanha nem conseguiu aprovar o último Orçamento de Estado, ou seja está efectivamente a regime de duodécimos. Que opções tem então Pedro Sanchez agora?

Tanto ele como a Espanha ganharam por um lado espaço e tempo de manobra. Espaço no Parlamento e tempo de manobra para várias possíveis coligações (com o Podemos e os moderados bascos por exemplo e o consentimento dos mais moderados catalães, se bem que para isso o Podemos tivesse de deixar caír a exigência de um referendo à independência na Catalunha; ou, numa hipótese muito mais remota, com o Ciudadanos se o partido de Rivera não tiver resultados tão famosos a 26 de Maio, no que seria o cenário preferido pelos investidores e sector empresarial). Para já a linha oficial dos socialistas é que vão tentar governar sozinhos, até porque a direita clássica do PP está desfeita em cacos e sem capacidade de organizar uma Oposição coerente (o seu líder Pablo Casado está a semanas de ser demitido pelo próprio partido). Os Socialistas têm também uma maioria comfortável no Senado. Qualquer decisão vai ter de esperar até às eleições europeias e locais de 26 de Maio que poderão ser mais um passo para clarificar as águas políticas espanholas.

Por outro lado, os desafios a Sanchèz e à Espanha no geral continuam a ser profundos. São na essência três: um, concretizar o sonho de maior investimento em programas sociais quando a economia vai abrandar; dois, extraír o país da crise separatista catalã, possivelmente com um novo acordo constitucional e três criar uma maioria democrática estável e moderada, ao mesmo tempo que entra pela primeira vez no Parlamento espanhol um partido histriónico de extrema-direita.

Não é uma agenda leve ou fácil. Estará o comeback kid Sanchèz à altura? Veremos.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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