Sacristia da Igreja de Sto Antão-o-Novo: de Lisboa para o mundo.

0
Imagem de Isabel Santiago.

Mostramo-vos mais outra preciosidade sobrevivente da Lisboa anterior ao terramoto de 1755: a Sacristia da Igreja de Santo Antão-o-Novo. A Igreja – em tempos a mais imponente igreja de Lisboa – desabou, mas a fabulosa sacristia monumental resistiu. É barroca – como são os melhores exemplares arquitetónicos da arquitetura jesuítica – do séc. XVII, desenhada por João Antunes.

DSC_7511
Imagem de Isabel Santiago
DSC_7542
Imagem de Isabel Santiago
DSC_7518
Imagem de Isabel Santiago
DSC_7556
Imagem de Isabel Santiago

Esta sacristia fica dentro do Hospital de São José, do tempo em que era o jesuítico Colégio de Santo Antão-o-Novo (e depois, por necessidade de agradar ao Marquês de Pombal, Colégio de São José). Este colégio de jesuítas tem uma história curiosa que mostra como as trocas interculturais sempre existiram e sempre foram enriquecedoras.

De forma ininterrupta entre 1590 e 1759 foi dada no colégio a Aula da Esfera, sobre temas matemático-científicos, aberta a não-alunos (marinheiros portugueses passavam por lá, desde logo porque era dada em línguas vernáculas). Ora os jesuítas na China ganharam influência junto dos imperadores Ming: o Tribunal das Matemáticas, com a importante tarefa de estabelecer o calendário (donde, o tempo para as sementeiras e colheitas) foi presidido por vários portugueses como Tomás Pereira, Félix da Rocha ou André Rodrigues. E, fazendo as zonas de missão como a China parte da província portuguesa da Companhia de Jesus que para lá enviava os missionários, em Roma decidiram que era necessário mandar professores mais capazes para a Aula da Esfera. Assim, por Lisboa passaram matemáticos notáveis: Christoph Griemberger, Cristoforo Borri, Jan Cierman, Valentin Stansel – e G. Paolo Lembo.

Lembo chegou a Lisboa em 1614 e foi professor da Aula da Esfera entre 1615 e 1617. Havia trabalhado com Galileu e era um exímio construtor de telescópios. Resultado: a primeira vez que as fases de Vénus foram observadas em Portugal com um telescópio foi no Colégio de Sto. Antão em 1614 (apenas três anos depois do primeiro telescópio). Em 1615, Lembo já estava a colocar os seus alunos de Lisboa a construírem telescópios. O primeiro livro onde se descreve como se constrói um telescópio é de Lembo, escrito durante a sua estada em Lisboa.

Numa curiosa história de veios comunicantes internacionais, pelo que Lembo ensinava em Lisboa na Aula da Esfera, vindo de Itália e prosseguindo até à corte Ming, o jesuíta Manuel Dias está a escrever na China de 1614 um texto (guardado em todas as bibliotecas imperiais até ao século XIX) sobre as descobertas e a geringonça de Galileu. E em 1618 é construído o primeiro telescópio na China.

 

 

Texto de Maria João Marques (a partir das notas da conferência, de Henrique Leitão, A Ciência da Europa no Japão e na China do séc. XVIII, a 11 de janeiro de 2012).

 

 

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.