‘O Processo Violeta’: um romance sobre o país real

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Inês Pedrosa conhece muito bem o país real. Não dá para ter o conhecimento dos esgotos a céu aberto dos bairros de barracas, nem escrever tão bem sobre uma escola que é provisória durante 30 anos se não se tiver passado por lá ou, pelo menos, ouvido em primeira mão os relatos de como são as casas e as vidas daqueles que não aparecem nos jornais, na ficção televisiva, nem nos romances. Mentira, estes lugares acabaram de aparecer com a história do Bairro da Jamaica e ficámos todos chocados com a existência de grandes favelas a poucos quilómetros da capital – vieram as reportagens esmiuçar a vida desgraçada dos habitantes locais, entre eles uma ex-empregada das limpezas do ex-ministro Catroga. Mas também é mentira dizer que há, em algum suporte mainstream, o relato deste tempo em que vivemos com aqueles lugares de exclusão. Aquelas imagens de casas a cair ainda antes de serem levantadas foram passageiras.

Esta é uma das coisas que mais aprecio nos últimos romances de Inês Pedrosa: a realidade dura e crua, como ela é, e como ela raramente chega à literatura portuguesa. Felizmente, são cada vez mais os casos de escritores que fotografam o país contemporâneo – a sua grandeza e a sua miséria. Num rol muito breve, poria também Isabella Figueiredo e Dulce Garcia como gente que escreve sobre o tempo total em que habitamos e não apenas romances de entreter. Haverá mais, seguramente, desde já as minhas desculpas por não referir mais nomes.

No livro ‘Desamparo’ (2015), Inês Pedrosa fala das velhas abandonadas a morrerem sozinhas nos pátios das casas das aldeias e da geração engolida e cuspida pela crise financeira que se abateu sobre o país em 2011. Reconhecemo-nos nas personagens que nasceram nos anos 70, que foram à faculdade nos 90 e que foram mandadas embora do país com as suas qualificações inúteis…

Em ‘O Processo Violeta’ o mais recente livro da escritora, Inês Pedrosa vai mais atrás e pega numa personagem que será crucial em ‘Desamparo’ nos anos 90, justamente. Mas o livro está tão bem escrito que dispensa a leitura do anterior romance, vive por si, pelo enredo e pelas demais personagens, mais importantes até do que Clarisse.

Spoiler alert: Violeta é uma mulher casada com dois filhos, professora do ensino secundário, que se envolve sentimental e sexualmente com um aluno, um rapazinho, portanto. O pano de fundo é este, aquele nos romances de entreter aparece sempre como fio condutor do livro. A ação é só, em ‘O Processo Violeta’, uma forma de contar como é a realidade. E a realidade, daqueles anos em que se inicia a história é reconhecível: uma escola secundária de pré-fabricados como aquela que houve em Belém-Algés e em tantas outras zonas suburbanas do país, um amontoado de barracas como a favela que existiu em torno dos prédios chiques de Linda-a-Velha ou no vale da ribeira da Lage ou em tantos outros lugares. Há a fundação de jornais independentes na forma e na função. Há socialites e miseráveis, há professores desrespeitados e depauperados, toureiros, tias muito betas e insensíveis, surubas, mulheres dedicadas aos filhos, mulheres que desprezam os filhos, uma doida, quase como Luisinha do ‘Primo Basílio’ que é obsessiva pelo amor mas que, vá lá, não morre, embora acabe por não ficar bem na fotografia: torna-se fútil e obcecada com a própria imagem, o que também pode ser visto como uma espécie de morte.

O extraordinário do ‘O Processo Violeta’ é que o livro expõe estas realidades: a extrema pobreza desprezada pelas elites, a instrumentalização dos jornalistas, o extremo cansaço dos professores. Coloca no palco os negros que nunca são retratados como agentes principais: demonstra as baixas espectativas intelectuais que se colocam aos rapazes pretos (sic) e a sexualização do corpo das mulheres negras e a sua redução a fator produtivo de trabalho.

Ninguém fica bem, nesta história, para dizer a verdade. Uma história composta por personagens que arredam estereótipos. O contraste é um recurso narrativo fundamental para demonstrar que não há mulheres, homens, pretos, brancos, vítimas de crimes ou jornalistas perfeitos: todos falham em alguma parte do que é escrito e, às vezes, o que acontece em simultâneo também serve para desconstruir o que imaginário coletivo nos faz assumias as mais das vezes. Por exemplo, enquanto Violeta e Ildo se encontram para o sexo – ela a professora branca adulta e ele o aluno negro menor – um rapaz menor e aluno viola outra professora da mesma escola a poucos metros de distância.

Sim, ‘O Processo Violeta’ é chocante. Cheio de maus exemplos para a estabilidade familiar e social do país. E é por que vale muito a pena esta leitura. Porque retrata a vida portuguesa como ela é, sem folclore, nem floreados.

 

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Porto Editora, €15,93.

 

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Carla Macedo nasceu em 1979 e nem acredita que já passou tanto tempo. É jornalista desde 2001, feminista desde os 8 anos, quando teve uma epifania na missa. Esteve envolvida na criação do site Delas.pt, do qual foi editora executiva até ao verão de 2018. Conduziu entrevistas na rádio TSF a mulheres que se destacam em diferentes áreas, no programa Conversas Delas. Na LuxWoman, foi chefe de redação, na Máxima Interiores, também. Colaborou com a Evasões, a Volta ao Mundo (sim, sim, adora viajar!), a Notícias Magazine, a Sábado e muitas mais. Fez televisão para uma produtora, mas os programas nunca foram para ar – danos colaterais da crise! Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, começou no jornalismo numa revista de carros, a Frota, ainda antes de acabar o curso, fez o CENJOR e depois um curso de Jornalismo Multimédia. É casada. Tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Igualdade em casa é coisa que não falta.

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