Do estigma (da mulher solteira).

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Herdei dos meus pais o gosto pela boa comida. Luto contra o “almocinho rápido a caminho”, a sanduíche de bomba de gasolina ou a refeição a más horas. Posto isto, não há viagem na A1 que não tenha uma pausa num  conhecido restaurante, famoso pelo arroz de tomate. 

Assim o fiz, num qualquer dia de Abril, de um ano qualquer. O talento para esquecer datas, não o herdei de ninguém! 

Estava sozinha e feliz, verdadeiramente feliz, como só uma pessoa que gosta de conduzir com música aos altos berros sabe estar. 

A fila do costume, os empregados do costume. Um deles com tal da panela do arroz, a abrir o apetite a toda a gente. 

“Quantos são menina?” 

“Sou eu” 

“É UMA MESA PARA ESTES SENHORES, SE FAZ FAVOR”. 

Olhei para o lado, e o rapaz que estava ao meu lado devolveu o olhar, entre o tímido e o divertido. 

“Desculpe, é uma mesa para uma pessoa, não duas” 

“Podem vir por aqui, jovens (nota: um dia vou escrever um artigo sobre a irritação com a palavra jovem)” 

“O Senhor não percebeu… eu estou sozinha.” 

(Pausa dramática, olhar de pena) 

“Ah, então não está com este senhor?” 

“Não, estou sozinha, eu e eu, me myself and I. A mesa é para umA, se faz favor.”

O rapaz que me foi impingido sorriu. Sentei-me, divertida, ansiosamente à espera do senhor da panela do arroz de tomate.  

Como esta história, tenho várias. Que têm piada para quem não quer saber de estigmas nem de preconceitos, mas que podem ser terríveis para quem não sabe lidar com a solidão. 

Gostar de estar sozinha é, em Portugal, ser muitas vezes a única mulher sem par em restaurantes, cinemas, casamentos, encontros com amigos. No entanto, e voltando ao estudo sobre as mulheres portuguesas elaborado por ocasião dos 10 anos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a estatística diz-nos que o número de mulheres sozinhas (não necessariamente solitárias) aumenta de dia para dia. De referir que esta constatação não tem valoração nem positiva nem negativa. Que, ao contrário do que alguns ainda pensam, na questão do estado civil não há certos nem errados. Também não quer este artigo glamourizar um estado civil face a qualquer outro. Visa apenas levantar algumas questões com base no resultado do referido estudo combinado com a percepção de que o estigma em relação às mulheres solteiras está infelizmente vivo e teimosamente desactualizado. 

No episódio do podcast da FFMS dedicado à análise do tema, a autora Isabel Stilwell revela uma preocupação pertinente com as mulheres que combinam filhos, trabalho e a esmagadora maioria do trabalho doméstico. É realmente preocupante. São demasiadas mulheres esgotadas, acomodadas a uma divisão de tarefas injusta, resignadas com a ajuda pontual dos parceiros, as insuficientes horas de sono e as enormes responsabilidades financeiras. Mas, para além da constatação do estado de quase-esgotamento destas mulheres, o estudo aponta também para altos índices de infelicidade conjugal. Não é de estranhar que em Portugal, no ano de 2017, persista o número altíssimo de divórcios – 64 para 100 casamentos. Mais preocupante é concluir que, mesmo com o elevado número de divórcios, o quadro das mulheres que têm parceiro também não é muito mais feliz. 

Na verdade, 7% dessas mulheres arrependem-se da sua relação de casal e 20% sentem-se enganadas com a sua relação. Claro que não há relações perfeitas. Toda a gente desilude toda a gente. Cedências, arrufos, exageros e dificuldades – que também acompanham o amor – à parte, constatam os autores do estudo que: 

A pessoa parceira é a faceta da vida das mulheres mais associada à felicidade ou infelicidade por elas sentida. As mulheres que acertaram com a pessoa com quem partilham a vida costumam sentir-se felizes não só com o(a) companheiro(a), mas também com a vida em geral, enquanto as que se sentem infelizes com a pessoa parceira costumam sentir-se infelizes com a vida em geral. Por outro lado, ter uma pessoa parceira com quem a mulher se sente infeliz afecta de forma mais negativa as restantes facetas da sua vida do que não ter pessoa parceira. Por isso, é possível afirmar que esta investigação confirma o ditado popular: <<mais vale só que mal acompanhada>>”. 

Mariana Canto e Castro, no episódio do podcast já mencionado, suscita a questão: “Porque é que a felicidade das mulheres é tão dependente de um só factor e de uma outra pessoa?”. É uma pergunta mais do que pertinente, que daria para todo um outro artigo. A pergunta que aqui deixo, que se relaciona com a primeira, é a seguinte: 

“Sabendo da infelicidade que pode ocorrer nos relacionamentos, porque é que o estigma sobre a mulher solteira teima em permanecer?”. 

Outra história que me assalta a memória: num jantar, uma amiga minha diz para a outra: “tão querida, és a única desta mesa sem namorado e mesmo assim estás super animada.” 

Na altura defendi a solteira como soube e pude. Hoje, sei que a pessoa que proferiu a frase não o fez por mal. Que era um elogio sincero vindo de uma pessoa que conhecia muitas mulheres infelizes por estarem solteiras. O que só conseguimos ver a posteriori é que naquela mesa estavam mulheres profundamente sozinhas em relações. Que a amiga que fez o comentário viria a terminar o namoro e passar, também ela, por um período de vida solteira para, mais tarde, encontrar um homem muito melhor, com quem está casada e de quem tem filhas maravilhosas. Que a solteira está hoje apaixonada.

Desta história podemos tirar várias conclusões. Que muitas mulheres sofrem em silêncio enquanto estão em relações. Que uma relação pode ser o melhor mas também o pior que nos acontece. Que ninguém está livre de um ou outro luto relacional na vida. Que as mulheres solteiras precisam aparecer mais: sozinhas, com amigos, aproveitando a liberdade, o convívio próprio ou as amizades. Devem aparecer como elas quiserem. Conheço muitas que têm, em certas situações, vergonha de o fazer. Porque o estigma, muitas vezes, não é só dos outros, é nosso também. Muitas mulheres têm vergonha de aparecer sozinhas quando não há que ter vergonha de nada. Estar sozinha não é erro nem acerto. É oportunidade de trabalhar o amor-próprio e a independência, como estar numa relação é oportunidade de aprofundar o amor pelo outro e a partilha. 

A Bíblia ensina-nos que há tempo para tudo. Ensina-nos, também, que Deus não dá as mesmas bençãos a todos, muito menos dá as bençãos todas ao mesmo tempo. Ter fé é, como nos ensina São Paulo, ser paciente, aceitar, dar e receber Amor de todas as formas e em todas as situações. Sonhar com mais e melhor, com certeza, mas, acima de tudo, fazer o melhor com o muito que todos temos. E pensando nas minhas amigas que não estão em relações (solteiras + divorciadas) encontro tanta independência, tanta amizade, tanta inteligência e determinação que SEI que, transitório ou não, o estado de solteira já não tem idade ou situação-padrão. Já deixou, há muito, de ser sinónimo de desamor ou de tristeza. Que exige muitas vezes um caminho de auto-conhecimento. Um caminho bonito, mais ou menos espiritual. Que enriquece. Que fortalece. Que é essencial para quem quer relações maduras com pessoas melhores. 

A todas elas, dedico este artigo. 

Viva nós! 

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