África Minha: viagem pela África do Sul, em tempo de transição

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“I went to South Africa on safari and came eye to eye with a beautiful leopard. We were so close; I was staring at him for a long time and I felt a recognition with my own nature.” John Lennon

A estação de comboio da cidade de Pietermaritzburg, na África do Sul, ficou inscrita na História por uma razão sinistra. A 7 de Junho de 1893, enquanto Mahatma Gandhi ia a caminho de Pretória, um homem branco protestou contra a presença de Gandhi na carruagem de primeira classe. Apesar de Gandhi ter um bilhete para essa secção do comboio, o motorista tentou mudá-lo para um contentor imundo e quando Ghandi recusou foi despejado pelo comboio fora em Pietermaritzburg. Foi aí que Ghandi tomou a decisão seminal de ficar na África do Sul e lutar contra a discriminação racial existente contra os indianos e promovida activamente pelos Boers (os descendentes dos iniciais colonizadores holandeses). Essa decisão foi tão mais importante quanto mais tarde levou Ghandi a lutar contra a ocupação britânica na Índia e a levar o sub-continente asiático à independência em 1947. Ghandi não foi um acidente isolado nessa linha de comboio entre Durban e Pretória: durante todo o século XX até ao fim do apartheid era prática regular ver passageiros brancos atirarem negros fora das carruagens, o que dada as altas velocidades naquela linha, causou milhares de mortos.

A História da África do Sul é uma de luta e essa luta assumiu várias formas, não só raciais: desde competição por terra e recursos nos anos iniciais do país até ao conflito armado de tempos recentes. O simples conceito de África do Sul como país é muito novo. Antes de 1910 o sul de África consistia numa série de colónias britânicas (como a Cidade do Cabo e Natal), repúblicas Afrikaner (o Estado Livre Laranja e o Transvaal, estabelecidas por descendentes dos colonos holandeses e britânicos) e regiões populadas por negros (Zulu, Xhosa, Sotho e muitas outras). Em 1910 todas estas colónias, repúblicas e regiões díspares foram juntas na União da África do Sul, debaixo da Coroa Britânica e o conceito de África do Sul nasceu. Um governo minoritário branco foi creado para governar as quatro províncias da nova União: o Transvaal, a província do Cabo, Natal e o Estado Livre Laranja. Duas áreas pequenas que agora são o Lesotho e a Swazilandia permaneceram independentes como colónias da Coroa Britânica até aos anos 60.

São três as coisas fundamentais que se notam mal se chega à África do Sul: a imensidão (o país é maior geograficamente do que a França, Alemanha e Reino Unido juntos) e beleza geográfica; a complexa mistura étnica e a sombra do passado projectada no futuro emergente. Pouco prepara o viajante, mesmo o muito rodado, para o espetáculo cénico da Cidade do Cabo, uma cidade anfiteatro, entre a Table Mountain e o mar, entre as praias californianas (com casas milionárias e águas frias) de Camps Bay, o verde imenso dos jardins (o mais significante sendo o deslumbrante Jardim Botânico Nacional de Kirstenbosch, um dos maiores de África), entre o sol intenso e o nevoeiro matinal. A Cidade do Cabo é um daqueles locais únicos e irmão quase siamês de Sydney e do Rio de Janeiro: a geografia por si só é tão irresistível e sexy que a eleva àquela categoria rarificada de cidade espectáculo.

Camps Bay e os Twelve Apostles, Cidade do Cabo

Essa noção do espaço e da natureza só se torna mais profunda à medida que se desbrava por este imenso país dentro (a Cidade do Cabo é só uma entrada de gosto mais mediterrânico). Os campos cobertos com cereais, fruta, vinha, por centenas de quilómetros fora (passando pela fabulosa Constantia, qual Beverly Hills de África, até Paarl, Franschhoek and Tulbagh e por aí fora) – não é por acaso que a África do Sul é o oitavo maior produtor mundial de vinho (Portugal é o décimo primeiro). A qualidade do vinho e a manutenção impecável dos terrenos são tão mais notáveis quando se considera que a África do Sul passou por uma seca terrível (a maior em quarenta anos) entre 2015 e 2018, com algumas áreas do país não tendo uma gota de chuva durante mais de três anos.

Kirstenboch

Mas este é um país que tem actuado rapidamente em questões ambientais – não há um único espaço público onde não se vejam mensagens de como usar a água propriamente em tempos de seca e o governo implementou em 2015 um vasto programa de desenvolvimento sustentável tanto a nível da agricultura como da indústria e serviços, com um foco particular em energias renováveis. E depois há um movimento, mais ou menos recente, de criação de uma série de reservas naturais, empenhadas em proteger e desenvolver espécies em risco de extinção, como o rinoceronte africano. Tive a experiência única de passar dois dias e noites numa dessas reservas, a Sambona Wildlife Reserve: aprende-se a respeitar a vastidão e riqueza da Natureza e a respeitar o facto de ser ter um rinoceronte ou um leão a apenas um metro da carrinha. No fundo aprende-se que não somos assim tão importantes como pensamos, na vasta dimensão do universo.

Segue-se, no cocktail intoxicante deste país, a mistura de DNA por todo o lado: os rapazes e raparigas esculturais e loiros nórdicos que parecem passar o dia inteiro ou no ginásio, ou a fazer surf ou a posar para a Vogue na praia (uma pessoa espirra e há uma sessão fotográfica a acontecer em Clifton); os negros, mil e uma matizes de negros, tanto os que ascenderam à classe média dos negócios como os que ficaram à berma da estrada (homens, mulheres e crianças às centenas pelas estradas e auto-estradas do país, esperando algum branco que páre o carro e lhes dê um trabalho por uma hora, um dia, uma semana); os judeus de Sea Point que gerem o comércio de diamantes e toda uma verdadeira indústria cultural associada (só em Nova Iorque é que vi tantos jornais judaicos nas lojas e supermercados); os asiáticos que vieram aos magotes ou para investir (há estradas, comboios, minas, cadeias de televisão chinesas) ou simplesmente para passear. A cidade do Cabo é um local onde tudo colide e onde ainda se veste de forma elegante para jantar fora na miríade de restaurantes e cozinhas disponíveis.

A sombra do passado ainda lá está, e esse é um dos aspectos mais notáveis: o passado que foi aqui feito a ferro e sangue não é enxotado para debaixo do tapete. Ele está, por exemplo, no fascinante bairro Bo-Kaap, mesmo no centro da Cidade do Cabo. O terreno onde o bairro existe foi (como tudo nesta cidade) comprado originalmente pelos holandeses que, confrontados com a resistência dos locais à escravatura, tiveram de importar escravos da Malásia, Indonésia e outras partes de África. O bairro tem por isso uma combinação particular de um número elevado de mesquitas islâmicas, casas de estilo holandês e casas de escravos, todas pintadas em cores vivas (uma sinfonia de amarelos, vermelhos, laranjas, azuis, cor-de-rosas, que se vêm até quando se sobrevoa a cidade). As cores não foram uma mera opção estética: pintavam-se as casas assim porque tanto os negros como os muçulmanos eram proíbidos de vestir outras cores que não fossem o preto ou o cinzento. A fachada das casas tornou-se por isso um manifesto de liberdade: a cor como sinal de protesto. A área está sob imensa pressão imobiliária (pela centralidade) e há uma campanha para proteger o que é um dos bairros coloniais mais relevantes no mundo. Por entre os turistas que ali vão ter uma verdadeira overdose de cores Instagram a vida continua: há avós negras sentadas à porta de casa a verem pacientemente a cacofonia reinante, há merceeiros, galerias de arte, bares, lojas de design. Tudo na Cidade do Cabo colide.

As cores do bairro Bo-Kaap

A mesma atitude honesta com o passado encontra-se em Robben Island, a ilha ao largo da Cidade do Cabo onde Nelson Mandela cumpriu 18 os seus 27 anos de prisão. Mais uma vez a origem do nome é holandesa (esta é uma cidade onde os nomes dos sítios são literais e ficam literais para sempre) e significa Ilha Das Focas, um nome inofensivo mas que nunca convenceu ninguém: a ilha foi usada para isolar presos políticos desde o fim do século XVII até 1996. Os guias da ilha são todos ex-prisioneiros e nada é embelezado para prazer turístico: tanto o museu do sítio como a prisão mostram de forma dura e crua o que o sítio era: um lugar de isolamento e tortura. Mas se o passado está por todo o lado na Cidade do Cabo tambem o está o futuro: desta mesma Robben Island saíram três Presidentes da África do Sul moderna: Nelson Mandela, Kgalema Motlanthe e o recentemente desgraçado Jacob Zuma (já voltarei ao personagem).

Mas onde está a África do Sul hoje, para lá dos estonteantes atributos físicos e geográficos? Está mais uma vez numa profunda fase de transição, a segunda deste regime, depois da implementação da democracia, que o icónico Nelson Mandela liderou. Durante o tempo em que Mandela esteve no poder (1994 a 1999) o seu modus operandi foi o de promover a reconciliação nacional, através de raças, classes, etnias e estratos sociais, para sarar as feridas imensas do apartheid. Ele foi o criador do conceito de rainbow nation, da nova África do Sul, onde todos podiam conviver e viver em paz finalmente. A face de Mandela está em todas as notas, murais, estátuas e até no nome de grandes ruas e estradas e, por uma vez, merecidamente – ele foi um dos estadistas máximos do século XX. A Mandela sucedeu-se Thabo Mbeki, entre 1999 e 2008. Foi um período de acelarada transformação: durante a Presidência de Mbeki a economia sul-africana cresceu a uma taxa média de 4.5% ao ano, assistiu-se ao levantar de uma classe média negra robusta (a famosa política de Black Economic Empowerment). No entanto, as sementes de problemas futuros estavam a aparecer em cena: Mbeki revelou-se socialmente retrógrado (por exemplo, negando o consenso científico em relação ao HIV e à SIDA o que resultou numa explosão de transmissão de infeções de mães para crianças, algo  absolutamente imperdoável) e de largo modo ignorou as classes mais baixas que tinham sido condenadas à miséria durante o apartheid. Mas talvez o legado mais pernicioso de Mbeki foi o seu vice-presidente: Jacob Zuma, que se tornou o terceiro Presidente sul-africano em 2009.

Os nove anos debaixo do comando de Jacob Zuma foram absolutamente ruínosos para a África do Sul. A economia estagnou, o desemprego e o crime dispararam, houve constantes problemas severos de fornecimento de energia a sectores cruciais de actividade, a dívida do país foi baixada à categoria de “lixo” por todas as agências menos a Moody’s. Mas sobretudo houve corrupção extrema: vários membros da Presidência Zuma foram apanhados em todo o tipo de esquemas e o próprio Zuma montou uma rede de Polícia Secreta paralela com fundos públicos para espiar no próprio partido e na oposição. Zuma está correntemente em julgamento por corrupção. Houve optimismo no país quando Cyril Ramaphosa se tornou Presidente em Janeiro de 2018 anunciando um extenso programa de recuperação nacional – um novo começo, uma nova transição para a África do Sul.

Nesta nova transição as soluções não são fáceis nem abundantes dado que não há dinheiro para um grande estímulo económico. Cerca de 3% do orçamento nacional está a ser reorientado para criar empregos e para vários apoios económicos, nomeadamente aos agricultores negros e aos pequenos e médios empresários, os sectores mais castigados nos últimos anos. Está também em marcha um novo fundo de cerca de 400 mil milhões de rands dedicado unicamente à reabilitação da infrastrutura do país, fundo esse aberto a investimento privado; uma revisão extensa das tarifas de electricidade, dos portos e comboios para reduzir os custos dos negócios; uma mudança nas leis dos vistos para permitir mais imigrantes qualificados e novas leis para flexibilizar o sector mineiro. O grande debate do momento é a prometida reforma agrária: o governo quer expropriar terra que os brancos tiraram aos negros durante o tempo do apartheid mas quer fazê-lo sem compensação aos brancos – o tópico domina todas os debates na televisão sul-africana de momento. Ainda é cedo para dizer como esta nova “transição” vai terminar: para já tem havido um aumento exponencial de emigração do país para outras partes, tanto da comunidade branca (basta ver o número de sul-africanos a viver de momento em Londres ou Nova Iorque, por exemplo) como da negra. Até a população sentir de novo alguma estabilidade e futuro económico, é previsível que este movimento migratório continue.

Surfistas em Clifton

No entanto, apesar deste panorama frágil e complexo, há sinais encorajadores do nascer de uma cultura democrática e social mais madura e sofisticada na África do Sul. A Justiça tem sido implacável com todo o tipo de corrupção. A sociedade aprendeu a questionar mais os políticos – em associações, em fórums, nos media. Há muito mais mulheres em lugares de poder – em 1985 apenas 4% de deputados à Assembleia Nacional eram mulheres, esse número é agora um muito considerável 45%. Mas há sobretudo uma corrente nova de humor (nada demonstra melhor a maturidade de uma sociedade) que é muito interessante. Por toda a Cidade do Cabo ou em Joanesburgo há espectáculos ironicamente entitulados “Comédia só para Negros” ou “Primeiro os Brancos Lixaram-nos, Agora é a Nossa Vez”, numa mistura entre humor local, influências de Richard Pryor e Robin Williams e millenialismo, se isso existe. Trevor Noah, que começou como comediante em Joanesburgo, é agora o rei de audiências nos Estados Unidos como apresentador do The Daily Show.

Tudo esta lá presente neste país mágico para funcionar e resultar: a juventude, os recursos, os negócios, o espaço, o tempo, até a própria experiência histórica. É fácil compreender porque muitos europeus retornados de África nunca se adaptaram bem ao velho Continente – como se pode passar desta vastidão para a claustrofobia social e geográfica europeia sem se ter uma profunda tristeza? Mas sobretudo a África do Sul ainda tem uma qualidade insuperável, base para qualquer progresso: apesar de todos os horrores do apartheid e da decepção dos anos recentes, não há ressentimento individual ou social. Há um enorme apetite pelo futuro, por novas soluções e novas escolhas. Essa ausência total de niilismo é a condição base para esse futuro chegar e triunfar no país das mil e uma cores.

Ruas de Joanesburgo
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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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