Porque faz sentido o Dia Internacional da Mulher

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Imagem de Isabel Santiago

Helena Tender

Porque vivemos em patriarcado. Porque somos a maioria das vítimas de violação, abuso sexual de menores, violência doméstica e homicídio conjugal. Porque somos a maioria nas universidades, mestrados e doutoramentos, mas continuamos a ser uma infíma minoria nas estrutruras do poder. Porque continuamos a ser discriminadas por ter o poder reprodutivo. Porque fazemos quase todo o trabalho emocional, sem remuneração. Porque fomos apagadas da história. Porque somos criticadas, ridicularizadas e ignoradas todos os dias. Porque não existe meritocracia. Porque estamos fartas. Porque chega. Porque sabemos o nosso poder, o nosso mérito e o real valor do nosso trabalho. Porque queremos destruir o patriarcado. E porque vamos conseguir.

 

Isabel Santiago

Estive antes de ontem no Espaço Júlia, que acolhe vítimas de violência doméstica. No hall de entrada, do outro lado da porta estava uma vítima de violência doméstica a ser atendida. As histórias de violência são de encolher o coração. Ontem estive num colóquio sobre violência em contexto familiar – porque as vítimas de violência doméstica são também crianças e idosos. Ouvi uma senhora, claramente de um meio social favorecido, onde reconhecer isto é muito complicado, assumir pela primeira vez que foi vítima de violência doméstica. Enquanto estes casos se repetirem, e os números que temos são alarmantes e ainda só estamos em março, precisamos de um Dia da Mulher. Porque a mudança não se faz com dias de luto, mas com alteração das leis. E com a mudança da forma como se olha para as vítimas e como se olha para o agressor.

 

Maria João Marques

Já fazia sentido marcar o Dia Internacional da Mulher. Afinal o gender wage gap não se esfumou (e sempre existiram os deniers deste problema, querendo-nos garantir que o mercado remunera justamente – com menos – o nosso trabalho), a violência sexual e a violência doméstica não deixaram de existir, continuávamos sub representadas politicamente (apesar de sermos metade da população e responsáveis por boa parte da colheita de impostos), pelo que os nossos assuntos e problemas e vicissitudes sempre foram desconsiderados em termos de discussão pública e política face aos interesses da maioria dos representantes (homens), as elites culturais e económicas permanecem masculinas (porque nunca interessa evidenciar e promover os contributos femininos). Se metade da humanidade está a ser violentada ou excluída, temos um problema. Ora o problema agravou-se nos últimos anos, com a emergência dos populismos, que têm na sua génese uma ideologia machista de supremacia do homem branco. Inevitavelmente com isto veio o reforço dos estereótipos sobre o papel tradicional das mulheres, a defesa da impunidade para a violência sexual (via apoio aos agressores sexuais, insulto e perseguição mediática das vítimas ou alterações legislativas que dificultam as queixas e a prova dos crimes), bullying concertado às feministas, políticas que restringem a liberdade sexual das mulheres (dificultar o acesso a contracetivos, por exemplo), exclusão de mulheres dos cargos de poder político (vejam-se as equipas governativas de Trump e Bolsonaro), até entraves à liberdade de movimentos das mulheres (desde criarem mais insegurança com leis de liberalização das armas, até críticas, como fizeram Nigel Farage e Boris Johnson, à amamentação em público). A lista é quase interminável. Pelo que além dos assuntos que já tínhamos por resolver – e que estão em carteira para as nossas decisões de votos – o Dia Internacional da Mulher ganha agora maior importância para dizermos aos populistas machistas: não passarão.

 

Maria João Faustino

Todos os dias perdemos irmãs.
Todos os dias nos matam. Continuam a matar-nos por amor, dizem. Por ciúmes, por excesso, por conflito.
Todos os dias. Mudamos de passeio, aceleramos o passo, calculamos as distâncias e o regresso a casa. Evitamos as ruas mais vazias. As nossas rotinas têm código de segurança, numa geografia do medo a que há muito nos habituámos.
Ao dinheiro que nos devem soma-se o espaço que nos tiram, todos os dias. O espaço público ainda não é inteiramente nosso e a casa continua o sítio mais mortal.
Todos os dias não chegam para terminar a luta.
O dia que hoje se assinala não é uma celebração. Sabemos que a luta nao será ganha no nosso tempo. Mas continuamos, todos os dias.
São tempos de resistência e tempos de retrocesso.
Recomecemos. Hoje é o dia.

 

Pedro Braz Teixeira

Na próxima semana, vou fazer uma apresentação num Seminário sobre a economia portuguesa, com onze oradores, apenas um dos quais é mulher, que irá participar numa mesa redonda e não nas intervenções principais. Isto é só mais um exemplo dum padrão que se repete, de subrepresentação das mulheres, não só em lugares de chefia, mas também nos mais variados encontros de debate.

 

Rodrigo Ferrão

Ao longo da história a sociedade convencionou:

– que o lugar da mulher é em casa a cuidar dos filhos;
– que a mulher ganha menos porque é mãe e isso interrompe a produtividade;
– há profissões que são de homens e outras de mulheres;
– que as mulheres falam de roupa e os homens de política;
– as meninas sonham em ser princesas e os meninos super heróis;
– os rapazes não fazem ballet e as raparigas não são boas a jogar futebol;
– a mulher é adúltera e culpada, o homem é ilibado de responsabilidade por bater-lhe;
– que é estatística haver mais uma mulher morta por levar pancada do marido.
Ainda acha que não é necessário haver um dia onde estes temas se discutem? Não é motivo para uma manifestação de solidariedade e homenagem? Pensa que deve ficar calado porque é homem e não tem nada a ver com o assunto? Que a sua voz não vai fazer qualquer diferença?
Então este discurso é para si: continue a convencionar e em silêncio. Vai ver que muitos seguirão o seu pensamento e nos bastidores lhe darão os parabéns por fazer exactamente isso: nada.

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