Venezuela: a hora dos militares no país dos mil e um generais

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Numa reportagem chocante da BBC esta quarta-feira passada, a fantástica repórter Orla Guerin conversava com mães venezuelanas que percorriam os caixotes de lixo de Caracas para ver se encontravam alguma comida para as respectivas famílias, no meio do colapso total em que aquele país se encontra. Contavam estas mulheres que a maior parte das famílias locais segue agora uma dieta mais do que restrita (a já infame dieta venezuelana) que consiste em apenas comer dia sim dia não. Quando se pode comer o mais a que se pode aspirar é uma fatia de pão e três batatas por mês. Confrontando com estas imagens (numa entrevista exclusiva e muito corajosa) o Presidente Maduro limitou-se a responder à repórter britânica que estas histórias eram “pura fabricação da BBC e dos Estados Unidos da América”. Ou seja, não há no pilar central do regime venezuelano, o mínimo reconhecer da realidade catastrófica que o país enfrenta, pelo contrário, está-se em plena fase de negação brutal da realidade (como nos últimos dias de Hitler no bunker de Berlim).

Do lado da oposição ao regime de Maduro tem-se feito basicamente o que se pode fazer, num contexto de um país que está inteiramente bloqueado ao exterior pelo Exército central. No sábado passado organizou-se uma excursão de quatro camiões, cada um com quinhentas toneladas de comida e medicamentos, nas pontes de Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander, que ligam a fronteira da Colômbia com a Venezuela, com a intenção de entregar essa ajuda humanitária aos venezuelanos. A excursão foi orquestrada por Juan Guaidó , que é reconhecido como Presidente interino pela Assembleia Legislativa venezuelana (controlada pela oposição) e pela maior parte das democracias ocidentais e latino-americanas. Cantando “liberdade”, caminharam contra a barricada que a polícia e exército venezuelano tinham erguido: seguiu-se gás lacrimogéneo, balas de borracha, balas reais, uma série de feridos, numa cena de venezuelanos contra venezuelanos. No caos da guerra civil emergente a iniciativa pode ter envergonhado Nicolas Maduro mas falhou nos seus objectivos mais importantes: entregar a comida e medicamentos (aliviando a crise no país) e derrubar o regime, criando uma fissura entre as forças armadas e a Presidencia. No fim do dia, só trinta soldados tinham passado para o lado da oposição.

É importante perceber por detrás de toda a euforia com que o Ocidente rodeou o senhor Guaidó (o “novo Obama” chegou a ser a descrição usada por comentadores ocidentais, que desde a perestroika até à Primavera Árabe nunca aprendem que o resto do mundo não é igual a Londres, Nova Iorque ou Paris), está um país muito específico, que nunca foi bem uma democracia, nem sequer um Estado funcional, mesmo nos tempos do pré-chavismo. Para começar a Venezuela foi, durante imenso tempo (até ao início do século XIX), não só uma colónia espanhola, mas uma sub-província primeiro da República Dominicana e depois da Colômbia (basicamente porque os espanhóis nunca consideraram a Venezuela um sitio importante para investir e desenvolver). Não tinha política económica, diplomática, científica própria, na essência só tinha reservas de ouro e essa fraqueza institucional notou-se logo desde o começo da Venezuela moderna.

A declaração de independência veio em 1811 mas só em 1830 é que a Venezuela se tornou oficialmente independente. Durante todo o resto do século XIX e até meados do século XX a Venezuela independente foi dominada por caudillos, homens fortes do Exército, que rotineiramente competiam pelo poder numa sucessão estonteante de golpes de Estado (só entre 1880 e 1958 houve seis golpes de Estado sangrentos, sempre guiados pelos militares). A Constituição de 1961 tentou trazer alguma estabilidade e instituir três partidos civis mas os anos que se seguiram trouxeram mais dois golpes de Estado organizados pelo Exército, repressão militar de grupos estudantis e civis, ao mesmo tempo que se combatia uma multitude de grupos rebeldes e mini-mílicias militares, espalhados por toda a fronteira com a Colômbia. A riqueza do petróleo começou a fazer sentir-se apartir dos anos 60 mas foi logo desde o início uma riqueza nacionalizada e os seus lucros dirigidos para uma pequena elite governamental e militar (o contraste entre o luxo absoluto das elites do regime de Caracas e os restantes estratos sociais foi sempre gritante). O único período de pequena abertura ao exterior e ao capitalismo que a Venezuela teve em mais de dois séculos ocorreu entre 1988 e 1992 e foi terminado imediatamente por mais três tentativas golpes de Estado, em 1992, 1993, 1994 (todas orquestradas novamente pelo Exército, Marinha ou Forças Aéreas).

Mesmo quando Hugo Chávez chegou a Presidencia em 1999, todo o seu poder estava basicamente nas mãos do Exército. Ele era um homem que se tinha feito no Exército e claro todos os camaradas que tinham servido com ele preencheram uma série de posições no governo, ocuparam a Assembleia Nacional e tomaram conta da gigante petrolífera nacional, a Petróleos de Venezuela, S.A. (PDVSA). A PDVSA por sua vez canalizava os lucros do petróleo diretamente para o governo re-investir no Exército e no controlo do aparelho estatal (cerca de 95 mil milhões de dólares foram transferidos directamente da PDVSA para o governo venezuelano entre 2003 e 2017). Este Exército ditava quem votava em quem: por exemplo, em 2006, tornou-se notória uma campanha gerida simultaneamente pelos militares e pela Presidência ameaçando com despedimento sumários todos os empregados da PDVSA que não votassem em Chávez. Pelo caminho criou-se um Exército monstruoso com o maior número de generais e de escalões no mundo inteiro e (até à crise económica venezuelana agudizar-se em 2015) com um orçamento gigantesco que absorvia anualmente quase 10% de toda a riqueza nacional. O resto do capital para alimentar este Exército e Estado tentaculares veio dos aliados tradicionais da Venezuela: Rússia, Cuba, Irão e China.

É graças à importância crucial do Exército em qualquer solução futura para o regime venezuelano que Nicolas Maduro se dá ao luxo de não mostrar nenhum arrependimento ou contrição pela situação caótica em que o país se encontra. Ao mesmo tempo que Guaidó e mais outros ilustres (entre os quais o neo-hippie Richard Branson, fundador do Virgin Group, que encontrou aqui uma cause célèbre) organisavam a sua marcha na fronteira, Maduro dançou em Caracas (com a sua camisa vermelha meio bolivariana meio feira pirosa) em frente a centenas de milhares de apoiantes com a sua milher, Cillia Flores, e insistiu mais de vinte vezes que ele continua a ser o Presidente “legítimo”. Ele sabe que, por enquanto, o Exército, a Marinha e as Forças Aéreas venezuelanas (que no conjunto empregam mais de 400 mil pessoas) lhe continuam fiéis, com o apoio implícito da Rússia por detrás. O Exército foi devidamente mimado pelo regime de Chávez e Maduro para não deitar tudo a perder: só entre 1999 e 2015 as forças armadas venezuelanas tiveram um aumento salarial médio de 535%.

A lealdade a Maduro é mais pronunciada e mais cega sobretudo nos colectivos, um produto unicamente venezuelano.  Os colectivos são um tipo de organização comunitária, existente em practicamente cada bairro venezuelano, que nos últimos quinze anos foram completamente infiltrados pelos socialistas e pelos militares. Foram os colectivos que na demonstração da semana passada na fronteira com a Colômbia começaram a disparar gás lacrimogéneo e balas verdadeiras contra os seus próprios compatriotas. Em várias cidades ao longo da fronteira com o Brasil e a Colômbia estes colectivos têm vindo a actuar nos últimos seis meses como verdadeiras milícias, entrando em apartamentos, casas, e tomando como prisioneiros famílias inteiras de críticos do regime. Para os colectivos só conta a lealdade ao regime, à ideologia cega, independentemente de toda a catástrofe social e económica que paira em qualquer rua ou bairro do país.

Apesar deste aparato militar maciço e da fachada de desafio, o governo de Maduro acumula sinais de desespero. Relações diplomáticas com a Colômbia, o parceiro natural de séculos da Venezuela, foram cortadas. Tanto as fronteiras terrestres com o Brasil e a Colômbia como as marítimas (com as ilhas das Caraíbas como Curuçao) foram encerradas para evitar qualquer entrada de ajuda dos “poderes imperialistas ocidentais”. O dinheiro das reservas petrolíferas está a esgotar-se rapidamente e para conseguir financiamento as autoridades do regime Maduro têm tentado vender tanto as reservas públicas de ouro como as privadas, através de compras a mineiros que operam nos parques nacionais do país. No entanto, o regime não está a conseguir vender esse ouro em troca de divisas no mercado internacional: no mês passado uma venda de várias toneladas aos Emiratos árabes foi bloqueada sob pressão dos Estados Unidos e há duas semanas o Banco de Inglaterra também negou às autoridades venezuelanas um pedido para retirar o ouro venezuelano depositado em Londres, no valor de 12 mil milhões de dólares. O regime de Maduro sabe muito bem que no momento em que esgotar as reservas de capital e tiver de deixar de pagar aos militares terá os dias contados.

No entanto, o equilíbrio de forças também é muito delicado para Guaidó e todas as forças de oposição. Guaidó apoia as sanções impostas à Venezuela pelos Estados Unidos mas tanto ele como os americanos sabem bem que estas sanções podem tornar uma situação já de si desesperada em algo muito pior. Não há nada que um regime ditatorial e despotista como o de Maduro goste mais do que pretender que os problemas nacionais são causados pela interferência americana ou ocidental. Num país em que a população tem tendência a adorar regimes militares e a ser orgulhosamente anti-americana essa retórica fácil tem efeitos poderosos. Há também especulação cada vez mais intensa, tanto na Venezuela como em Washington, de uma possível opção radical, isto é, uma intervenção militar, presumivelmente coordenada pelos Estados Unidos, para depor Maduro. Como em tudo hoje em dia já corre no Twitter uma hashtag bastante popular: “Military Intervention Now”.

Qualquer intervenção militar seria profundamente arriscada. Todos sabemos o historial absolutamente desastroso que as intervenções militares ou governamentais americanas têm tido um pouco por todo o lado (Vietname, Afeganistão, Iraque, Irão só para nomear algumas) mas se há uma zona do mundo em que não faz sentido absolutamente nenhum haver mais outra intervenção americana é a América Latina (depois de Cuba, Chile, El Salvador, Honduras e outros desastres equivalentes). Junta-se a isto o facto claro de que a operação seria agora coordenada ao mais alto nível por alguém tão volátil e amador como Trump (mesmo com a força moderadora do Pentágono por detrás) e o cenário parece ainda mais assustador. Finalmente se é verdade que muitos venezuelanos veriam os soldados estrangeiros como libertadores (sobretudo se eles trouxessem ajuda alimentar, económica e a promessa de restauração democrática) a verdade é que muitos outros, cerebralmente lavados pela campanha de Maduro, veriam isso como um golpe imperialista contra o país. Ou seja, haveria o potencial para uma guerra civil ainda mais violenta. Por tudo isto a crise venezuelana está ainda muito longe de ser resolvida. E não vai ser resolvida nem pelo sorriso publicitário de Guaidó nem pela sala de combate da Casa Branca, mas sim pelo momento em que os militares venezuelanos se cansarem de vez de Maduro.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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