O sismo de 22 de fevereiro de 2019

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Imagem de Isabel Santiago.

Ontem fez cinquenta anos o sismo de 28 de fevereiro de 1969 e os jornais contaram histórias ocorridas nesse dia. Esta vossa amiga não era nascida, pelo que não posso dar o meu testemunho do evento. Em vez disso, venho contar-vos o sismo que me ocorreu há uma semana num parque de estacionamento das Avenidas Novas, ali mesmo no meio de Lisboa.

O parque de estacionamento, é conveniente dizer, não me é desconhecido. Trabalhei vários anos uns quarteirões mais abaixo e era naquele parque que estacionava o carro, com avença mensal e tudo. Portanto conheço as saídas, os lugares mais largos, onde estão os pilares mais gordos que me dificultam a vida (o meu carro é um familiar mais novo de um autocarro), as zonas de onde fugir. Além disso, guardo memórias daquele parque. Foi o parque onde um dia, estacionando de marcha atrás e olhando só para os sensores de estacionamento (modernice que havia adquirido há pouco tempo quando o carro era novo) desenhados à minha frente, que estilhacei o vidro traseiro. É que os sensores estavam ao nível do pára-choques mas, mais acima, à altura do vidro, havia uma senhora reentrância na parede que fez questão de me explodir o vidro. (Em boa verdade, agora que penso nisso, quando o vidro se estilhaçou, como numa explosão, sem que de imediato percebesse por que diabo, também me questionei se havia algures um atentado terrorista – que era o tempo deles; o parque é reincidente). Outra vez, também a estacionar, espatifei um retrovisor (já disse que o meu carro é muito grande, não já?) E como toda a gente sabe, ganhamos alguma intimidade com os locais onde espatifamos coisas. Quase se pode dizer que aquele parque é a minha 187ª casa.

Bom, continuando. Acabava eu de estacionar o carro, para levar o meu filho mais novo a uma consulta, quando durante uns bons segundos o carro tremeu bem e um barulho desconhecido se ouviu. Saímos do carro a correr, assustados. Nesse momento um senhor falando ao telemóvel sai do bloco de escadas em frente ao nosso lugar, com um ar insultuosamente normal e descontraído. Muito suspeito. Perguntei-lhe ‘desculpe, não sentiu nada?’ O meu provável ar alucinado – mais o facto de estar com uma criança, o que me tornava numa adorável mãe inofensiva – fê-lo parar e desligar o telefone. Perguntou o que tinha acontecido, eu expliquei e o senhor caridosamente, sem se rir, explicou-me que acontecia muitas vezes quando passavam caros pesados na rua em cima do parque.

Eu fiz por manter o ar digno de pessoa respeitável que é capaz de cuidar sem sobressaltos da criança que me acompanhava, agradeci e rapidamente caminheir para a saída do parque em direção à consulta. Já na rua, ninguém diria que eu e a minha criança éramos sobreviventes de um sismo, tal a nossa placidez. Evidentemente não acreditámos na explicação do nosso benemérito. Pareceu-nos a ambos muito mais credível que tivesse sido uma operação a mando de Donald Trump, dirigida à minha pessoa, para que eu pare de escrever tantas coisas mean sobre a sua presidência.

Esta é, então, a história do misterioso sismo da semana passada. Quanto ao de há cinquenta anos não sei muito. Lembro-me de uma vez ouvir a minha mãe contar que se levantou da cama, pegou no meu irmão (que era então bebé e dormia ao lado) e pôs uma fralda de pano (não ficou registado para a posteridade se monogramada) a proteger-lhe a cabeça. Fralda de pano – objeto que, como se sabe, é bastante eficaz a proteger de vigas a caírem ou partes de tetos. Como vêem, as mulheres da minha família são ótimas a responderem a crises sísmicas.

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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