Maria Luísa Aldim e a vida como uma startup

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Maria Luísa Aldim. Imagem de Isabel Santiago

Foi num café junto ao Tejo – cenário que escolhemos pelo sol radiante de Lisboa e por ser ótimo material para fotografias – que encontrei Maria Luísa Aldim. A Isabel Santiago, fotógrafa, que nos iria apresentar, estava presa noutro trabalho, eu não conhecia pessoalmente a Maria Luísa e estava à espera de uma senhora sozinha aproveitando a vista fluvial ou lendo qualquer coisa num tablet (que um iphone desconfiei logo que seria demasiado amador para esta gestora e empresária de startups financeiras). Em vez disso, deparei-me com uma Maria Luísa Aldim com o seu fenomenal computador portátil em cima da mesa, terminando um almoço de negócios com outra pessoa.

Durante a nossa conversa percebi que esta abordagem eficiente da vida (mas não carrancuda – afinal nenhuma personalidade sisuda marca um almoço de trabalho numa esplanada em cima do rio) é uma característica de Maria Luísa. Não só por aquela mais valia que todas as mães têm (e é mãe de três crianças de sete anos para baixo): são exímias gestoras do tempo e das prioridades. Mas também porque resolver e concretizar as tarefas é a sua forma de ser. Pelo meio dir-me-ia que gosta de ter uma vida ativa. E: ‘vejo a vida quase como uma checklist’ onde coloca o visto no que já foi despachado. Também: ‘gosto muito de pensar em soluções, em alternativas’. Mais: ‘quando contrato alguém para trabalhar comigo, é a capacidade para encontrar respostas que mais valorizo’.

‘Getting things done’ poderia ser o moto de Maria Luísa. A sua abordagem à vida (e à política – já lá chego) faz lembrar as palavras de Margaret Thatcher: ‘if you want something said, ask a man. If you want something done, ask a woman’.

Comecemos pelo princípio. Ou pelo fim – é como quem diz: o presente. Maria Luísa Aldim fundou uma consultora, a Vírgula Decisiva, para a área dos produtos financeiros, dos pagamentos e dos produtos oferecidos pelas fintech (como diz o nome, empresas que usam as novas tecnologias para desenvolver novos produtos financeiros ou reinventar os antigos). Deseja que a empresa espelhe o seu fator diferenciador: acompanhar o processo do início até o fechar e, sobretudo, saber o que o mercado quer. Na verdade é ainda mais específica. Dá consultoria ‘no que as empresas no setor financeiro podem querer amanhã’. Refere ‘os mercados existentes e os mercados que aí vêm’.

O futuro é outro dos seus temas preferidos.

O princípio de uma mulher agora envolvida nos produtos financeiros que envolvem as mais recentes tecnologias não é surpreendente. Filha de um engenheiro eletrotécnico, sempre teve em casa acesso às inovações tecnológicas, às nintendos e às playstations. ‘Era vista como uma maria rapaz.’

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Porém para a universidade decidiu caminhos mais sociais e humanísticos e foi estudar Ciência Política. ‘Havia um conjuntos de coisas na sociedade que me incomodavam e que queria perceber.’ Escolheu a Universidade Lusíada, porque oferecia o curriculum com componente mais prática.

Gostava das saídas tradicionais deste curso para a banca. Mas licenciou-se em 2007/2008, em plena crise financeira, a banca estava péssima e acabou na área que sempre a divertira na infância e adolescência. Começou a trabalhar na Easypay, na parte das vendas – ‘mas em empresas pequenas tem que se experimentar todas as frentes’.

No ano passado surgiu-lhe o convite para mais uma vertente que agora também ocupa o tempo e o engenho de Maria Luísa. A European Women Payments Network, criada na Holanda em 2016, convidou-a para embaixadora em Portugal. Dias antes de nos encontrarmos tinha ocorrido em Lisboa o encontro europeu da EWPN, o maior até agora. Esta associação, que junta mulheres – e ‘men allies’ que Maria Luísa considera fulcrais – ligadas aos serviços de pagamentos e à banca, pretende tornar as mulheres que trabalham no setor mais visíveis. Atenta aos sinais dos tempos (e às necessidades do mercado), a EWPN tomou a decisão de se focar cada vez mais no tema da diversidade: de idade, de etnias, de questões educacionais. ‘Em fatores que em conjunto promovem riqueza’, constata Maria Luísa.

E é por via desta criação de riqueza que Maria Luísa Aldim defende uma maior participação das mulheres nas empresas. E com argumentos que parecia que estava a ler na minha própria cabeça. (Ainda que eu veja a necessidade de participação high profile de mulheres no mundo corporativo não apenas pelo efeito de eficiência económica; mas a minha veia de economista é muito parcial a esta fundamentação também.)

A argumentação de Maria Luísa Aldim é simples e carregada de lógica. Não muito diferente do que consultoras como a McKinsey vêm dizendo há anos sobre os benefícios da diversidade e do aproveitamento da participação feminina. ‘O ser diferente, do ponto de vista económico, é uma vantagem porque acrescenta valor’, constata. ‘Se queres vender, tens de saber o que o mercado quer’, continua. ‘As empresas em geral têm de se focar no que o seu mercado quer. E para saber o que o mercado quer tens de o conhecer. As empresas têm de refletir isso nas suas equipas e nas suas estruturas’. Dá o exemplo do filme What Women Want, em que um executivo só passou a perceber o que as mulheres procuravam como consumidoras quando passou a conseguir ouvir os pensamentos das mulheres com que se cruzava.

No entanto, Maria Luísa não isenta as mulheres de culpa no status quo atual. Curiosamente faz lembrar uma outra executiva das tecnologias, Sheryl Sandberg com o seu Lean In, aconselhando as mulheres a forçarem a sua posição. ‘As mulheres têm tendência para não se colocarem na linha da frente. Uma mulher é convidada para alguma coisa e pensa duas vezes, porque é perfecionista.’ E aconselha às mulheres ‘dare yourself’.

Também critica a visão ainda prevalecente de que é a mulher que tem a obrigação das tarefas domésticas. Que considera estar muito mais enraizada nas mulheres que nos homens. A própria Maria Luísa confessa que só acordou para esta causa quando nasceu o terceiro filho e sentiu que, literalmente, lhe faltava uma mão quando saía com os três. A solução é-lhe evidente: ‘assumes que, se tens determinados objetivos, tens de delegar, inclusive na família’.

Outro conselho às mulheres relaciona-se com a base do mundo em que vivemos: a programação. Há pouco tempo havia feito um workshop informático só para mulheres. ‘Se tudo na vida tem como base a programação, então a programação é uma forma de poder. Se as mulheres se excluem, mais uma vez ficam fora dos círculos de poder.’ Lá eu novamente concordei enfaticamente, dando também exemplos de produtos tecnológicos que deveriam ser feitos a pensar nas mulheres consumidoras mas são só desenhados para os homens; e o mesmo acontece com a linguagem informática, que reflete a intuição masculina em vez da feminina, apesar de sermos grande parte dos utilizadores. Maria Luísa sintetiza: ‘a programação é uma forma de escrita, que reflete uma forma de pensar e reflete uma estrutura’. Forma de pensar e estrutura que atualmente são quase somente no masculino.

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Disse que Maria Luísa é ativa e gosta de solucionar problemas, não disse? Uma outra vertente da sua vida é a política autárquica. Foi candidata pelo CDS à junta de freguesia do Areeiro e é deputada municipal eleita pelo mesmo partido. ‘A parte política é completamente uma paixão. Durante a campanha para o Areeiro diziam-me que tinha um brilho nos olhos. Gosto de estar junto às pessoas, ouvi-las. Se gostava de fazer vida política? Não, de todo.’ Lembra os perigos de quem está dependente da atividade política: perde autonomia. Alude também os valores baixos que se pagam aos políticos, reconhecendo que há vergonha em falar do tema. Resultado? ‘Quem tem competência vai para o privado, tirando os casmurros’.

Na Assembleia Municipal de Lisboa, participa nas Comissões de Habitação e de Economia e Inovação – esta última é o ‘habitat natural’. Mas não deixa de desesperar com a falta de entendimento dos temas tecnológicos pela classe política e, sobretudo, do alcance do que está para vir. Dá como exemplo o RGPD: as empresas provavelmente não estão a cumprir, a fiscalização diz que não tem capacidade de fiscalizar e ‘o estado ele próprio se isentou de cumprir o RGPD; quando o estado devia ser o primeiro a cumprir, recusa-se’.

Mais exemplos. Os sistemas informáticos adquiridos pelo estado são regra geral maus, porque se compra apenas pelo preço. Na Assembleia de Freguesia do Areeiro, não conseguiram entender por que deveriam substituir a assinatura dos intervenientes pela assinatura digital nos documentos disponibilizados na net.

E o ritmo glaciar do que se passa no estado também exaspera a solucionadora Maria Luísa. ‘As pessoas estão sempre à espera de um OK de cima. Sobretudo nos organismos públicos. E isto tem um custo de tempo associado.’ E remata, ‘aqui as mulheres são muito mais decididas que os homens.’ De facto. Só sendo decidida, eficiente, empática e arguta para perceber o que o mercado quer e confiante nas suas capacidades se pode ter uma vida com tantas frentes. Mas como pensou Maria Luísa quando criou a Vírgula Decisiva, ‘se eu posso e quero mais, não há motivo para não dar esse passo’.

 

Texto de Maria João Marques. Imagens de Isabel Santiago.

 

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