Demagogia e eleitoralismo travestidos de ideologia

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Imagem de Isabel Santiago

Há demasiadas ideias demagógicas e eleitoralistas em circulação, benevolamente designadas como “ideológicas” ou “opções políticas”, um branqueamento muito pernicioso, que impede a sua denúncia.

Em Portugal, é muito frequente os partidos defenderem ideias erradas, ignorantes, pouco inteligentes (para ser meigo), etc., etc. A isto soma-se um grave problema: a maior parte das vezes a (ou alguma) comunicação social e largos estratos da população (mesmo da mais informada) descreve essas ideias como opções “ideológicas” ou “políticas”.

Esta descrição começa por ser extremamente preguiçosa, para se transformar no branqueamento das ideias mais erradas. Mesmo as propostas mais demagógicas, populistas e eleitoralistas são descritas como “políticas”. Em vez de serem analisadas e denunciadas pela sua verdadeira natureza, são desculpadas, como se aos partidos políticos fosse autorizada a defesa de qualquer ideia, por mais perniciosa que ela seja.

Muitos partidos defendem a gratuidade de certos bens e serviços, o que não passa de pura demagogia, vendendo uma ideia muito apelativa, escondendo que esta custará muitos milhões aos contribuintes. Como é que subsidiar todos, sobretudo os mais ricos, pode ser considerada uma opção “ideológica” ou “política”? Isto não passa de demagogia em estado puro, misturada com muita ignorância e má fé. Porque não se denuncia isto?

Vários partidos pretendem criar um apartheid entre sector privado e sector público, criando privilégios para os segundos a que os primeiros jamais poderão ter acesso. Pretendem também maximizar a dimensão do sector público, mesmo que isso se faça à custa dos serviços prestados à população. Neste caso, o que se pretende é satisfazer uma clientela eleitoral. Isto não pode sequer ser definido como “cegueira ideológica”, mas antes como puro eleitoralismo. Não estamos perante opções ideológicas, mas perante uma caça ao voto.

Uma das coisas que o debate público mais precisa em Portugal é de muito mais exigência. A oposição precisa de exigir mais ao governo: mais explicações pelas escolhas, mais fiscalização e maior escrutínio dos resultados.

Uma das coisas que mais me choca é que o meu mural no Facebook, devidamente seleccionado, bem entendido, tem uma oposição muito mais acutilante, exigente – e atempada – do que a realizada pelos partidos da oposição.

A comunicação social também precisa de fazer muito mais. Saúda-se a – relativamente recente – preocupação com a verificação de factos, mas é necessário que abranja muito mais temas e que seja mais consistente.

Mas são os eleitores em geral que precisam de ser muito mais exigentes. Não é aceitável que o investimento que tem sido feito na educação ao longo das últimas décadas não tenha resultado numa elevação da qualidade do debate público.

Se as coisas estivessem a correr bem, ainda se aceitava a actual situação. Mas é importante relembrar que Portugal está a caminho de se tornar na quinta economia mais pobre da UE, fruto do desastre das duas últimas décadas, pelo que não há qualquer tipo de justificação para a demissão cívica a que se tem assistido.

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