Pedagogias sobre coligações

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Imagem de Isabel Santiago.

Portugal tem várias características irritantes. Uma das maiores – e sintoma de atraso, pouca experiência, pouca informação, pouco pensamento, pouco… – é o purismo de nariz empinado com que encaramos tudo, como se nada fosse suficientemente bom para satisfazer este país de vestais. Adoramos punir com um excesso absurdo qualquer pecadilho que alguém tenha o azar de fazer, mesmo se inócuo e justificável. Não toleramos qualquer inovação ou excentricidade ou saída da norma. Adoramos botar julgamento e moralismo sobre o vizinho, mesmo quando o nosso telhado já é de papel vegetal em vez de de vidro. E por aí adiante. É mal que atinge todos, penitenciemo-nos.

Inevitavelmente também transportamos este espírito de vestal incomodada para a política. Um caso exemplar é a opinião mais ou menos generalizada sobre coligações entre partidos. E aqui acresce, claro, sermos uma democracia verde. Nem refiro a baixa instrução de muitos eleitores, porque em boa verdade este argumento que vos apresentarei vem de todos os níveis de escolaridade.

Ora então reza assim: as coligações pós eleitorais são horríveis, um engano aos eleitores. Se os partidos têm pontos e compromissos em comum, que se coliguem antes das eleições.

Bom, tonteria. E cada vez mais tonteria com a maior segmentação do eleitorado que está a ocorrer, fazendo cada vez menos sentido para menos gente os partidos catch all. Os eleitorados urbanos estão a diferenciar-se dos rurais. Há vários eleitores que elegem um pequeno grupo de assuntos como determinante para o seu voto. O que faz sentido é haver mais resposta partidária para essa procura variada. As coligações pré eleitorais desvirtuam tudo isto.

Fui, desde sempre, defensora de não coligação pré-eleitoral entre PSD e CDS para eleições legislativas. Os partidos, sozinhos, conseguem ir buscar geralmente mais votos que em conjunto. Exceto, porventura, os muito pequenos (para conseguirem, juntos, elegerem alguém). Para mim, nem faz sentido coligação eleitoral quando há coligação no governo. É assim em todo o lado, só por cá é que temos esta excentricidade anti acordos a seguir às eleições – mais uma vez, brotando da nossa incapacidade de viver com a existência de muitos pontos de vista diversificados, que o estilo União Nacional fez escola e não apenas nos saudosistas do Estado Novo.

Depois dos resultados apurados, na ausência de uma maioria absoluta, os partidos juntam-se e fazem compromissos para formar maiorias de governo. Havendo vontades comuns, é quase sempre possível a conciliação. Donde, uma coligação pós eleitoral não só não é nenhum engano aos eleitores como é uma forma de vida normal em democracia. Habituemo-nos.

Ah, mas isto significa que esta vossa amiga defende que vale tudo? Ora, claro que não. Os partidos, indo sozinhos a eleições, têm de informar os eleitores do que estão dispostos no futuro – tanto quanto têm de explicar o passado, as ações e as omissões, e o que os motivou e porquê.

Com que tipo de partidos aceitariam coligar-se? À direita? À esquerda? Com a extrema esquerda? Com os populismos de direita? E pleeeeease, não ao ar martirizado ‘estou a ser vítima de uma cabala e de uma pressão intolerável’ que os dirigentes partidários portugueses adquirem quando lhes pedem a informação que deveriam espontaneamente disponibilizar.

Intenções, valores, ideologia, propostas políticas, pessoas que vão buscar para colaborarem. Informação e transparência – yupi. Porque, nos tempos políticos periclitantes que vivemos, os eleitores não querem mesmo ser desrespeitados – em se tratando de Portugal, podemos acrescentar ‘outra vez’.

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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