Vamos unir-nos?

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Imagem de Isabel Santiago

Não sei o que o caminho nos reserva, mas se formos juntas tudo será mais fácil.

Sororidade provém do latim “sor”, significa irmã e expressa todas as relações de solidariedade entre as mulheres. A irmandade feminina existe – devia existir mais, digo eu –  em relação ao patriarcado. Este termo surgiu em oposição à ideia de patriarcado. A sororidade contraria o domínio masculino. A ideia de sororidade baseia-se na criação de laços entre as mulheres para (tentar) erradicar o modelo patriarcal da sociedade e para promover a solidariedade e a confiança entre as mulheres.

Dizem-nos histéricas. Dizem-nos com problemas psicológicos. Dizem-nos com traumas. Óbvio! Uma vida inteira dominadas pelo machismo, como querem que isto não cause mossa?! Uma vida inteira a pensar no que vestir para não chamar a atenção dos homens, uma vida inteira a ouvir dizer que as meninas têm de se dar ao respeito. Uma vida inteira a dizer para descer a bainha da saia se não quero ser importunada. A ouvir dizer que se não quero mensagens de homens no Facebook então que tire a fotografia em calções do meu perfil!

À medida que vamos avançando nos nossos direitos, vimos várias portas a fechar, e quem as fecha são os homens. Os homens – a maioria – não querem igualdade, equidade. Porque para nós termos mais poder, retiramos o deles. As mulheres têm menos oportunidades que os homens, isto é factual. Há estudos, estatísticas, e nem era preciso. Basta fazer contas de cabeça.

 Criou-se a Lei da Paridade para tentar resolver este problema da ausência das mulheres do mundo da politica. É das coisas mais ridículas: em 2019 ser preciso uma lei que nos obrigue a seguir a Constituição da República Portuguesa! Com o estabelecimento das quotas obrigatórias para a composição – por exemplo, de todos os órgãos políticos, vai finalmente haver justiça. Agora existe outro problema: onde irão arranjar mulheres para cumprir a lei. Porque durante estes anos todos as mulheres foram arredadas da vida politica.

Dizem-me que isto não é bem assim, que se eu quisesse ser politica, eu era politica. Verdade. Era mesmo, se assim o quisesse. Mas e as outras? Bem sei que existem mulheres na politica, poucas, mas e se uma mulher que vive num bairro social quiser ir para a politica? Será que é capaz? Com todos os constrangimentos que a sua vida tem? Não são todas! E como tudo na vida, é para todas, não é só para uma. As mulheres têm de conseguir escolher onde querem estar e o que querem ser.

Já Marx dizia: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades’

Vai haver uma revolução fomentada por nós. Assim que nos apercebermos da nossa força, do nosso poder, das nossas competências, da nossa luz! Aqui há dias ouvi: mas mãe é mãe. É verdade, mãe é mãe. Mas pai também é pai. Comentários destes vêm sempre de mulheres. Ainda há não muito tempo, alguém me citava a bíblia e dizia-me que eu não precisava de me meter na politica porque tenha um marido que ganha bem! A nossa briga vai ser tirar o machismo destas mulheres, vai ser começarem a ver mais mulheres na politica (ou onde elas quiserem!) e não se indignarem e até se identificarem.

A sociedade em que vivemos é patriarcal. Penso que restam poucas dúvidas disto. Talvez neste termo – patriarcal – ainda haja poucos que o reconheçam. Assim, a ideologia dominante também é patriarcal. Isso significa que as relações machistas estão na nossa vida, a todos os níveis. Estas relações estão intrinsecamente ligadas à nossa formação social, na construção dos indivíduos (que desde pequeninos estão a ser ensinados a reproduzir certas formas de ser). Tenho 3 miúdas pequenas lá em casa, e este facto nota-se a léguas: não importa a mãe ser feminista se o resto é machista! E não digo que, por exemplo, a família alargada delas as queira ver subordinadas a um homem, que como é óbvio uma pessoa emocionalmente estável não quererá, mas chegar a casa da bisavó e ver sempre o avô sentado no sofá, não ajuda!

Os homens têm poder sobre as mulheres, e isto pode ser muito inconsciente! Eu própria tenho vindo a fazer um trabalho no sentido de reconhecer em mim esta influencia masculina e mudar. Se querem alterar a violência doméstica vamos começar pelas mulheres: vamos empoderar as mulheres, vamos dizer-lhes que podem dizer basta, que têm condições para sair de uma relação assim, vamos dizer-lhes que se ponham em primeiro, vamos dizer-lhes que são lindas e cheias de força!

A ideologia vigente na sociedade é machista e não precisa da presença de um homem para ser disseminada. Vemos a discriminação de género ser reproduzida pela sociedade, mulheres incluídas. Mas como todos os fenómenos sociais, não podemos culpabilizar as mulheres. A mudança nunca se deu pela culpabilização. O que precisamos é alterar a forma de pensar da sociedade em favor da equidade. Há pouco tempo, quando surgiu o caso da alegada violação a uma mulher, por parte do Cristiano Ronaldo, percebeu-se bem o quão desagregadas estamos! Percebeu-se que ainda há muitas mulheres a culpar a vitima e, acima de tudo, não houve solidariedade com a vitima. Mulheres a dizer que a culpa era dela.

Já somos atacadas de diversas formas pela misoginia no espaço social, e até mesmo no espaço pessoal. A divisão não nos faz bem. Quanto mais separadas estivermos, mais difícil será fazer frente à violência de género, ir à conquista de mais direitos, espaços de poder e autonomia. Sororidade é isto. É a perceção que nós mulheres (todas) sofremos discriminações e violências que são determinadas pelo nosso sexo. Temos de nos unir. Temos de reivindicar todas juntas os direitos que sempre nos foram negados. A expressão máxima de sororidade é o movimento feminista, pedra de toque para avançarmos na conquista dos direitos femininos.

O patriarcado promoveu, desde sempre, a rivalidade feminina. Aprendemos que não há motivo para nos unirmos “ou ainda que mesmo se quisermos nos unir, isso não é possível, afinal, somos mulheres e apenas os homens são capazes de ter laços verdadeiros e intocáveis”. É por este motivo que se torna mais importante a sororidade. A partir do momento em que ocorre o esforço para unir as mulheres acontece o empoderamento feminino. A partir da sororidade e do empoderamento entre as mulheres, quebraremos as barreiras impostas pela criação desse mito. Será que as mulheres entendem a força que têm juntas?

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