Burnout em português.

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Se morressem nove pessoas num qualquer fenómeno natural, o país parava. Se morressem nove pessoas num festival de música, as flores iriam encher o recinto. O choro correria livre, assim como as declarações de pesar da classe política. Se nove comentadores de programas desportivos abandonassem os estúdios, os jornais tinham vendas recorde, a internet não falava de outra coisa. 

Em vez disso, morreram nove mulheres assassinadas pelas mãos daqueles em quem confiavam e muito pouca gente reagiu. 

Estas prioridades são uma vergonha nacional. O maior sinal de que o machismo está, infelizmente, a latejar no coração e quotidiano dos portugueses e portuguesas. 

Domingo lá fomos, debaixo de chuva,  prestar homenagem às vítimas e exigir aquilo que nunca deveria estar em causa: a básica receita para um país minimamente feliz: justiça e respeito. 

Comoveu-me, o número de pessoas. Ver a Rua de São Bento cheia é uma memória inesquecível, ajudar a logística das amigas que fazem questão de levar aos filhos, também. 

Mas muita gente continua a ser pouca gente face à tragédia do mês passado. É tudo muito pouco e muito tímido. Somos cada vez mais, mas se uma morte já pede indignação, nove mortes obrigariam a uma unanimidade que não se verificou. Em vez disso, a impunidade teima em desaparecer.

Chegados à Assembleia, o silêncio foi ensurdecedor. As lágrimas de muitos misturaram-se com a chuva, os cartazes com as histórias das mulheres assassinadas perfilaram-se nas grades, empunhados por mulheres tristes, revoltadas, sofridas. De repente, os apelos ao (verdadeiro) amor; as reivindicações de justiça. As histórias partilhadas entre manifestantes: a mulher que foi abusada durante dez anos, a mulher que fez repetidas e inúteis queixas à polícia. Os casos sucediam-se, uns sussurrados, outros gritados, todos desesperados. Mais lágrimas; minhas, pelo menos, por presenciar a angústia e o trauma postos, literalmente, na rua. 

Passados uns dias vejo-me na conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a assistir, petrificada, à apresentação de um estudo que confirma os meus piores receios. Não tenhamos medo das palavras. Portugal está a experienciar um burnout feminino. As conclusões, podem encontrá-las aqui. As mulheres portuguesas trabalham mais, trabalham mais em casa, contribuem financeiramente para o orçamento familiar em igual proporção aos homens e invadiram as Faculdades e o mercado de trabalho. A dedicação das mulheres ao trabalho e a chamada revolução silenciosa operada na academia não são, por enquanto, sinónimo de empoderamento feminino. O nível de instrução aumentou, mas a violência doméstica continua transversal a todas as idades e todos os níveis de instrução. Os níveis de felicidade são baixos quando comparados com outros países e, quando analisados em conjunto com o Relatório de Saúde Mental da OCDE, traçam a  assustadora dimensão do burnout feminino. 

Chocou-me, em particular, este quadro: 

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Mede-se, aqui, muito mais do que o título sugere. Afere-se a fasquia das mulheres em relação ao que valorizam no parceiro. Dizer que nos contentamos com “serviços mínimos” é pouco. Pergunto-me como funciona um casamento em que as mulheres suplicam a divisão de tarefas e o serem ouvidas. Num país esmagadoramente conservador, Católico e com residuais taxas de casamentos e/ou relações ditas “abertas”, como é que a fidelidade ocupa o 12º Lugar? Ou o sexo o 8º lugar? Não deveriam o 1º e 2º lugares ser dados adquiridos em vez de metas relacionais?  Que consequências é que tudo isto tem para a vida de casal, o que é que isto diz e faz à auto-estima de mulheres (e homens) portugueses? 

O analfabetismo das mulheres portuguesas foi praticamente eliminado, o nível  de escolaridade aumentou dramaticamente. Pouca gente valoriza estas gigantes vitórias, conseguidas em tão pouco tempo, com tanto sacrifício e brilhantismo. Somos hoje mais qualificadas, temos resultados académicos brilhantes, ocupámos o mercado de trabalho por mérito e, como mostra o estudo, sem ajuda. Trabalhando mais e melhor, derrotando, em parte, com grande esforço das pioneiras, alguns dos preconceitos reinantes. A nossa experiência pessoal pode, deve estar na excepção de quem tem uma relação saudável de amor, respeito e partilha. Os homens bons andam aí, Graças a Deus. É também evidente, social e empiricamente, que os homens são hoje mais presentes na educação dos filhos e “ajudam mais”. Mas o estudo é claro. Para a maioria das mulheres, a “ajuda” – que deveria ser partilha – é residual. 

Para mudar tudo isto, falta trabalhar o ego, mudar mentalidades. Essa mudança só se opera reforçando o diálogo honesto entre mulheres. Falta falar daquilo que as convidadas seguintes falaram. Faltam referências de sucesso não só profissional, mas também emocional. Falta o oversharing referido pela incrível Samantha Power. Falta um novo tipo de partilha entre mulheres, muitas vezes acalorada, mas obrigatoriamente sincera e focada no que realmente importa. Falta o too much information. Faz falta, num país em que toda a gente se trata por Doutor(a) e distribui jargões à velocidade da luz, esta forma de se ser complexo, mas simples, a capacidade que Samantha Power tem de falar para públicos diferentes, de simplificar a mensagem sem perder conteúdo; de se ser, ao mesmo tempo, acessível e pragmático. Inspirador. Falta convocar o brio feminino agora finalmente aplicado à defesa dos direitos das mulheres. Falta, não só ler, mas transmitir o que se aprende. Ter os números da desigualdade na ponta da língua e, no coração, a certeza de que as mulheres podem mudar e mudar o mundo.

Freida Pinto, que me comoveu, resumiu tudo isto numa palavra: vulnerabilidade. É “só” isto que falta, no fundo. Só a vulnerabilidade permite um diálogo sincero, focado em dinâmicas (ainda) mais resolvidas e (ainda) mais determinadas. E quem subestima o valor da partilha no feminino, ponha os olhos no testemunho de Samantha Power. Que, sem tempo, entre marido, filhos pequenos e todo um país para representar no Conselho de Segurança da ONU, sentiu a urgência do debate e do encontro com outras mulheres.

Tudo isto pode parecer muito, mas já fizemos o mais difícil. Mudámos o país sem termos mudado mentalidades. Agora é viver de acordo com aquilo que somos: mulheres cheias de vida; cansadas, é certo, mas mais independentes financeiramente, capazes de diálogo, de viver com a pertinência de quem quer melhorar país e mundo, independentemente do número de pessoas presentes no respectivo raio de ação. Do micro ao macro, capazes de mudar mentalidades, não só através da educação das novas gerações, mas, sobretudo, através da exigência de respeito e da acção consciente enquanto exemplo e inspiração para as todos – mulheres, homens e crianças – os que nos rodeiam. 

Shrink the changes; Keep the rigour, diz Samantha Power.

Comecemos pelo essencial. Actualizando o célebre anúncio dos anos noventa para “Se não puxarmos umas pelas outras, quem puxará? 

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Teresa Morais tem 35 anos, é jurista, tradutora e activista. Depois de viver em São Paulo e em Londres, voltou, há dois anos, à Lisboa que a viu nascer. Gosta de biografias, boas revistas, boas séries, bons políticos e bons amigos. Ouve música de todos os estilos, a toda a hora, em qualquer lugar. Está no Capital Magazine por acreditar ser esta a hora de falar de causas e de fazer melhor política em Portugal.

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