O Retorno, Dulce Maria Cardoso

0
imagem: ritadanova.blogs.sapo.pt/os-livros-da-rita-o-retorno-dulce-65795
Acho justo apelidar Dulce Maria Cardoso como uma das mais talentosas da sua geração e um nome já consagrado em Portugal.

Não há que enganar: Dulce tem um estilo de escrita corrida, bem caracterizada e é muito documentada – neste caso tanto historicamente como nas emoções e especificidades de cada personagem do livro.

A trama trata de um assunto muito sério entre dois países – Portugal e Angola. Confesso que tenho a sensação que esta época era saltada nas aulas de História, obviamente sabia muito pouco sobre o tema ao pormenor. Sabia o que eram Os Retornados, mas estava longe de imaginar a maneira como foram conduzidos de volta a Portugal. E muitos deles – como o personagem Rui e a sua irmã – nem podem ser incluídos neste retorno, porque já nasceram lá.

Pura ignorância minha não saber que foram instalados em Hotéis, aos montes. Ou mesmo perceber que os seus bens ficaram parados em contentores, sem se deslumbrar de quem eram ou para quem iam. Não foi um assunto bonito, não foi não! É, de facto, um marco histórico de extrema importância, não pode ser um problema simplesmente ignorado. Tarefa que este romance parece fazer melhor que a mesma matéria explicada num manual de História.

Isto porque carrega de emoções e sentimentos todo este conflito infeliz que conduziu à fuga de imensas pessoas – que por culpa da guerra perderam tudo o que tinham e vieram parar a uma terra que já não sentiam sua. E pensar que Portugal os acolheu da forma mais desprestigiante possível, transformando-os num grupo à parte. Um carregamento de vidas humanas, despejadas à pressa.

Rui é a personagem central. Um jovem adolescente que começa a descobrir a idade adulta com a dureza desta viagem, com a incerteza (temporária) de saber se o seu pai está vivo, “arrumado” num quarto de Hotel que partilha com a irmã e a Mãe. Educado com a clássica premissa de “um homem não chora”, Rui vê-se na posição de homem da casa; mesmo sendo ainda um típico adolescente. Facilmente nos encantamos com as suas peripécias, medos, experiências e sonhos. E é ele que nos vai contar a história toda, ele traz o olhar atento sobre este êxodo.
Artigo anteriorGovernar contra o interesse nacional (3)
Próximo artigo1946
Avatar
Rodrigo Ferrão nasceu em 1983, é natural do Porto e frequentou o curso de Direito, mas virou a página e foi livreiro alguns anos. Rodeado de livros, dedicou-se à discussão literária através do mundo digital. Não totalmente realizado com o debate, decidiu escrever a sua própria poesia, seguindo-se de outras grafias. Gosta de ler, passear no campo e na cidade, escrever e viajar – não perde uma oportunidade para contar aquilo que vê. Sonha um dia largar o trabalho e ir por aí, divagando como pensa.

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.