Christian Dior: a moda, o sonho e a história de uma revolução

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“Não há nenhum outro país no mundo – para além do meu – do qual eu goste tanto do estilo de vida.” Christian Dior sobre o Reino Unido

A exposição “Christian Dior: Designer of Dreams”, que abriu este sábado no Victoria and Albert Museum em Londres, é mais do que uma reinstalação da que, no ano passado, celebrou setenta anos da casa Dior no Musée des Arts Décoratifs em Paris. Designer of Dreams é uma verdadeira celebração de um dos génios incontestados da história da Moda, uma ode ao feminismo romântico de Dior e também uma janela nova sobre as afinidades profundas que o costureiro tinha pela cultura britânica (e que ia desde a comida, aos tartans escoceses, aos cruzeiros Cunard, à monarquia Windsor e até aos rapazes londrinos). É um verdadeiro coup para o V&A e a mais importante retrospectiva que este museu montou desde a Alexander McQueen: Savage Beauty em 2015 (que atraíu um recorde de mais de 500 mil visitantes).

Há vários momentos especiais na exposição começando pela cenografia desenhada por Nathalie Criere. Ao descerem as escadas da nova Sainsbury Gallery (desenhada por Amanda Levete, a mesma arquitecta do MAAT em Lisboa), os visitantes chegam a uma reconstrução impressionante da fachada da primeira loja Dior no número 30 da Avenue Montaine; passam por Blenheim Palace durante a Belle Époque, pelo jardim de família de Dior na Normandia (com era verdadeira a caír do teto), ao atelier do costureiro com tecidos de toda a espécie e mesmo a uma réplica do templo do Amor em Versalhes. O banquete visual e sensorial continua por mais de 500 peças, incluíndo duzentas obras de alta-costura raríssimas. Isto é o Victoria e Albert Museum no seu esplendor máximo, como uma colisão entre Hollywood e a monarquia por via do pós-guerra. Na noite de pré-abertura um jantar selecto juntou o demi monde londrino: Felicity Jones, Eddie Redmayne, Benedict Cumberbatch, Roland Mouret, os Beckhams, Vanessa Redgrave, figuras da política, jornalismo e artes.

A história de Christian Dior homem e da casa de moda que ele fundou é fascinante porque os seus ínicios não foram muito promissores. Durante os anos 30 e até ao fim da Segunda Guerra Mundial, Dior trabalhou em casas de costura antigas, basicamente a fazer os mesmos modelos de sempre com a agravante de que, durante a guerra, todo o vestuário feminino se tornou austero, rígido e cinzento, como o ambiente que se respirava na Europa. A indústria da moda parisiense definhava (em contraste com a nova-iorquina que começava a emergir) e a França chega a 1945 derrotada moralmente, depois de anos de ocupação nazi e na ruína financeira. Dior estava farto de desenhar para outros com ideias que não eram as suas e o golpe de sorte acontece quando, em 1946, Marcel Boussac, um empresário que à época era o homem mais rico de França, lhe oferece capital para fundar a sua própria marca. A Christian Dior nasce oficialmente a 8 de Dezembro de 1946 e o costureiro não perdeu tempo: a sua primeira coleção, apresentada em Fevereiro de 1947, representou uma verdadeira revolução na moda, daquelas que acontecem apenas uma vez numa geração.

A coleção chamava-se Corolle (inspirada por uma flor) mas ficou para sempre conhecida como o New Look, um termo inventado pela lendária editora chefe da Harper’s Bazaar, Carmel Snow. A revolução estava no volume: Dior literalmente mandou para o lixo toda a silhueta conservadora, rígida e racionada que tinha dominado os 1930s e todo o período da Guerra. Em vez disso apresentou uma silhueta volumosa, corpetes, cinturas de vespa, curvas atrás de curvas, numa orgia pura de feminilidade contra o cinzentismo. A coleção gerou uma vaga de reações que seriam impensáveis hoje em dia – em Chicago houve manifestações na rua, em Paris multiplicaram-se os ataques a clientes Dior que eram despidas por multidões enraivecidas em plena rua, tal era a fúria e choque. As acusações eram múltiplas: que aquele tipo de moda gastava tecido a mais numa época de crise, que as pernas estavam cobertas demais, que objectificava as mulheres. No entanto, passado um ano, com a crise a receder, meia Paris usava o New Look e o mesmo se passava por todas as principais capitais mundiais. O estilo Dior restaurou a indústria de moda francesa de um só desenho (na altura já consideravelmente lucrativa, agora colossalmente lucrativa como se sabe). A silhueta New Look dominou todos os anos 50, nos corpos de estrelas como Margot Fonteyn, Grace Kelley, Audrey Hepburn, Rita Hayworth e Ava Gardner, todas ávidas consumidoras da marca.

Mas Dior não se deixou ficar pelo New Look. Ele trouxe, pela primeira vez, um modelo de negócio global para a indústria de moda: abrindo lojas de Caracas a Sydney, de Tóquio a Nova Iorque e sobretudo pela prática pioneira do franchising e de licenças de produtos. Para Dior a alta costura era apenas a montra artística da casa, o topo de uma pirâmide que ia desde o simples cinto ou lenço, à mala, ao perfume, ao pronto-a-vestir. Para a época isto era completamente revolucionário (e foi um modelo que depois Yves Saint Laurent iria levar à perfeição máxima com a sua linha Rive Gouche). A relação de Dior com a cultura britânica (que esta exposição tão bem traz à cena pela primeira vez) é fascinante: o costureiro via Inglaterra como um lugar de liberdade e ele adorava a forma como as mulheres inglesas se vestiam. Uma dessas mulheres era claro a Princesa Margarida, outra alma livre que teve um impacto fundamental na carreira do mestre costureiro. Esse fascínio com tudo o que era anglo-saxónico levou-o mesmo a (mais uma vez à frente do tempo) a mostrar as suas coleções de alta costura não no seu atelier (como era hábito ate aí), mas, por exemplo, no hotel Savoy em Londres ou no esplendor do Blenheim Palace, no campo inglês. Um dos pontos altos da exposição no V&A é precisamente o vestido (fabuloso) que a Princesa Margarida usou para a sua festa de vinte e um anos, capturada para sempre pela lente do Cecil Beaton. Christian Dior morreu inesperadamente muito cedo, em 1957, mas a marca e a casa de moda continuou pela mão de sucessivos costureiros e designers (todos com peças também em exibição no V&A), o mais importante dos quais foi, sem qualquer dúvida, Yves Saint Laurent.

Saint Laurent faz parte, com Dior e Coco Chanel, da lendária tríade de revolucionários da moda francesa no século XX. Onde Chanel deu ao mundo o simples vestido preto que todas as mulheres adoram (e o lendário perfume Chanel número 5) e Dior deu o New Look, Yves Saint Laurent (apartir da criação da sua própria marca nos anos 60) transformou radicalmente o que eram peças do vestuário masculino como o smoking e o casaco safari em peças básicas do guarda-roupa feminino, desenvolvendo o conceito de pronto-a-vestir no modelo maciço de negócio que temos hoje. Pelo meio Yves Saint Laurent fez verdadeiras revoluções no uso da cor (em coleções lendárias como os Ballet Russes e Broadway), na publicidade e comercialização de acessórios e perfumes (o lançamento do perfume Opium em 1978 ainda é hoje o mais caro de sempre), e até pelo facto de ser o primeiro designer a usar modelos negras nos desfiles e campanhas publicitárias. Talvez o mais complexo legado de Yves Saint Laurent seja o do designer estrela: era famosa a sua entourage de mulheres supremamente elegantes (Loulou de la Falaise, Betty Catroux, Paloma Picasso, Catherine Deneuve), as noites no Palace e no Studio 54, o consumo excessivo de cocaína e tranquilizantes, o amor por Marrakech e as frequentes estadias hospitalares com esgotamentos nervosos. Saint Laurent inventou o frenesim mediático da celebridade muito antes de esse frenesim existir (com a diferença claro que ele era um génio, enquanto que 99% das celebridades contemporâneas nem sequer matéria cerebral têm).

A exposição no V&A não ignora claro os designers mais recentes da Christian Dior, como Gianfranco Ferré (o excesso dos 80s), John Galliano (o teatral), Raf Simmons (o minimal) e a designer recente Maria Grazia (de que não sou propriamente fã, devo confessar). Mas nenhum destes chega de modo algum ao alcance de Dior ou de Yves Saint Laurent em termos de total revolução de imagem, marca, negócio, atitudes. O que acaba por criar uma certa nostalgia ao caminhar de sala em sala nesta exposição. Onde estão os revolucionários da moda hoje em dia (quando até os designers mais novos, como Hedi Slimane, copiam os ícones – Slimane já “emprestou” vezes demais, como “inspiração”, o smoking ou o casaco Beat de Yves Saint Laurent)? Onde estão as novas silhuetas? Onde está um show de moda que deixe toda a audiência a chorar e em ovação como os de Yves Saint Laurent (sobretudo no seu período máximo de criatividade, entre 1976 e 1980)? Mesmo uma Prada (sempre trabalhando a um nível muito alto claro) deve quase tudo o que faz hoje em dia a estes percursores. Alexander McQueen era notável mas morreu cedo demais.

A realidade é que a indústria da moda contemporânea macificou-se de tal modo que o tipo de sonho e visão única que Christian Dior (e mais tarde Saint Laurent em França e Yamamoto no Japão) trouxeram é muito difícil de replicar. Por outro lado, o próprio consumidor já não é unidirecional – não há só uma tendência, designer ou estilo a que as mulheres (ou os homens) têm de obedecer em cada estação. Há milhares de influências, opções, caminhos que se podem tomar no meio do ruído geral. O designer já não dita, quando muito influencia. A moda em si já não é prioritária, o espectáculo que a rodeia é. No entanto, como em tudo nesta sociedade hiper-digitalizada, o lado de sonho, da fantasia de uma nova atitude, como aquela que Christian Dior tão brilhantemente lançou em 1947 está a perder-se. Sociedades sem sonho são pobres e tornam-se desorientadas (um pouco como as pessoas). Essa é mais outra razão para todos nos perdermos nos corredores desta exposição deslumbrante em Londres.

“Christian Dior: Designer of Dreams” de 2 de Fevereiro a 14 de Julho na Sainsbury Gallery, Victoria and Albert Museum, Londres

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