Governar contra o interesse nacional (1)

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Imagem de Isabel Santiago

Portugal tem sido muito mal governado, sobretudo nas duas últimas décadas, em que muitas das medidas tomadas foram contra o interesse nacional. Abro uma excepção para o período em que fomos governados pela “troika”, que não foi tão contrário aos nossos interesses de longo prazo.

Para não entrar na discussão inquinada das claques partidárias, vou, em geral, evitar falar de exemplos muito concretos, mas tipificar alguns dos tipos de decisões contra o interesse nacional, deixando ao leitor o desafio de identificar situações concretas, o que, nalguns casos, será muito fácil de fazer.

Não se alegue que só estou a dar exemplos de patologias raríssimas, porque tudo isto parece ser o quotidiano da governação das últimas décadas, ou não estaríamos na miserável situação em que estamos, a ser ultrapassados pela generalidade dos países de Leste, que entraram na UE quase duas décadas depois de nós.

Aliás, usando uma definição recente de “boys”, por Pacheco Pereira: “Observam-se os curricula e todos têm um traço comum: quase nenhuma experiência profissional genuína, no Estado ou em empresas, percursos académicos medíocres ou inacabados, na maioria das vezes em escolas privadas cujo grau de exigência é pequeno, contrastando com uma sucessão de cargos políticos.” Não será exagero presumir que os “boys” (e “girls”, para ser muito inclusivo) são pessoas pouco inteligentes, muito ignorantes, sem experiência e, acrescento eu, com padrões éticos muito baixos. Podemos ficar verdadeiramente surpreendidos por esta gente se especializar em tomar más decisões?

É verdade que é urgente expulsar os “boys” das administrações públicas, mas parece que é ainda mais importante expulsá-los dos partidos políticos.

Passemos então a elencar os tipos de más decisões (sem grandes preocupações de estrutura) mais frequentes dos últimos governos portugueses.

1. Curto prazo versus longo prazo. Um dos casos mais frequentes é a escolha de benefícios de curto prazo, com prejuízo dos resultados a longo prazo. Cabem aqui todas as ocasiões em que se escolheu fazer despesa excessiva no curto prazo, aumentando a dívida pública, que nos colocou à beira da bancarrota, pelo nível excessivo de dívida, em particular externa, que levou os investidores externos a cortarem-nos a financiamento e nos forçou a pedir ajuda à “troika”. Repito o que já devia ser óbvio: foram os erros dos nossos governos que nos colocaram na necessidade de austeridade, não foi a “troika”, que, por pura maldade, inventou esta necessidade.

Mas os exemplos deste tipo não se esgotam aqui: adjudicar uma obra pública (ou equipamento, ou etc.) por quem oferece preço mais baixo, mas sem garantias de qualidade, o que no longo prazo sai mais caro.

2. Ignorância. Quando o ministro, os secretários de Estado, os assessores e o director-geral são um bando de “boys” ignorantes, que nem sequer quer ouvir quem sabe, não se pode dizer que as suas opções o são por escolha ideológica, mas por pura ignorância. Aliás, o efeito Dunning-Kruger explica muito bem isto: “fenómeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos”. É a sua incompetência que restringe a sua capacidade de reconhecer os próprios erros.

3. Erro consciente, por cobardia. Quando um ministro está totalmente consciente de que uma medida que vai tomar está completamente errada, que vai produzir como resultados o exacto oposto do anunciado, mas o faz por cobardia, por temer afrontar a opinião pública (e sobretudo a opinião publicada) não estamos perante um caso de ideologia, mas de mera falta de coragem. Um ministro, que mereça sê-lo, tem a obrigação (moral quanto mais não seja) de adoptar uma atitude de pedagogia serena, de explicar porque a medida correcta é o oposto do que é “pedido”.

(continua)

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