Davos Man: a farsa da elite no topo da montanha

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Por estes dias a nata da elite política, económica, empresarial , científica e jornalística mundial (e mais umas quantas celebridades na linha Angelina Jolie e Bono, sempre com uma causa qualquer para promover) congrega-se em Davos, uma estância de montanha em Graubünden, na região leste dos Alpes suiços. Sucedem-se entrevistas, apresentações, colóquios, mesas de trabalho, sessões de networking, aterragens de helicópteros privados (esta estância é das mais difíceis de aceder em toda a Europa, o que só ajuda ao ar geral de exclusividade), festas patrocinadas por companhias, marcas e coisas tão exóticas como um Investment Heat Map, um Mapa dos Investimentos Quentes (quem deixou o radiador aberto?). E claro infinitos posts no Twitter ou no Instagram com todo o tipo de generalidades dadas à profundidade intelectual ou simplesmente puro exibicionismo, desde o bilionário até àquelas criaturas que em inglês se chamam de social climbers, gente desesperada e pronta a fazer tudo por estatuto social.

Tudo começou de forma muito mais simples. Era 1971, comia-se fondue nas montanhas, cantava-se Gainsbourg, quando um professor da Universidade de Genebra, o senhor Klaus Schwab, decidiu criar um Fórum Europeu de Gestão, inicialmente com o propósito apenas de introduzir firmas europeias a práticas de gestão americanas. Tudo muito respeitável e sóbrio, muito Harvard Business Review. Em 1987 o nome da congregação é mudado para World Economic Forum (WEF) e, crucialmente, a visão inicial é alargada para tornar o encontro numa “platforma para resolver conflitos internacionais”. É algo que os suiços adoram, a ideia da superioridade neutral e de arbitrarem conflitos entre um round de ski, muito rösti e uma quantidade assinalável de dinheiro e obras de arte de origens duvidosas depositadas em cofres bancários ao pé da Bahnhofstrasse em Zurique, para continuar a mover a coisa toda harmoniosamente.

O encontro tornou-se então numa platforma neutral para líderes políticos. E, pondo de parte o meu cepticismo (já lá fui um ano e a coisa bate a Web Summit aos pontos em termos de vacuidade, lugares comuns e inutilidade), houve alguns acontecimentos assinaláveis em Davos. Por exemplo, em 1988, a Grécia e a Turquia assinaram a Declaração de Davos que lhes impediu de entrarem em guerra. Em 1992 foi lá que o Presidente sul-africano F.W. de Klerk se encontrou pela primeira vez com Nelson Mandela fora da África do Sul. Em 1994 foi na esplendida paz e isolamento daquela montanha suiça que o Ministro dos Negócios Estrangeiros israelita Shimon Peres e o líder palestiniano Yasser Arafat chegaram a um acordo sobre a faixa de Gaza (que uns meses depois já estava arquivado, como todos os acordos assinados nos últimos cinquenta anos entre Israel e a Palestina).

Apartir de meados dos anos 90 dá-se a grande transformação do evento numa autêntica feira de vaidades da mega-elite global. Já não era suficiente uns dez debates – havia que espalhar pelos cinco dias centenas de eventos e em cada ano Davos proclamava que ia ter um grande objectivo global: resolver a pobreza, acabar com o aquecimento global, acabar com as doenças, acabar com a dívida,  por aí fora. Como que por providência divina aquela elite entendia e ainda entende que basta umas horas de conversa, uns slides bonitos de PowerPoint ou Prezzi, e de repente toda uma cadeia de problemas, insuficiências, causas e consequências de décadas ou séculos estava resolvida. Tive o prazer ou desprazer de ir um ano (creio que 2003 ou isso e porque o meu Chefe Executivo estava doente) e que a coisa já estava fora de qualquer controlo racional foi-me evidente quando vi uma apresentação do CEO da Starbucks em que a criatura anunciou que a abertura da Starbucks no Afeganistão iria resolver décadas de problemas lá porque os jovens hoje eram todos globais e não queriam armas. Como é que ninguém se tinha lembrado disto antes? Nunca teríamos tido o 11 de Setembro, duas guerras inúteis, talibãs ou Al-Qaeda se os terroristas tivessem acesso a um bom latte macchiato com canela e cubos de gelo no topo. Na mente daquela gente tudo se resolve com marketing e branding. Mas esta é a mesma tribo que, em Janeiro de 2008, com todos os sinais da economia mundial já no vermelho, dedicou todo o encontro desse ano ao tema The Power of Collaborative Innovation. Nem inventado!

A verdade é que Davos nunca resolveu nada de nada nos grandes problemas globais. Simplesmente funciona como uma forma de deflectir a solução desses problemas dos governos (em larga medida) e das empresas (de forma também substancial) para os indivíduos (reduzidos a meros consumidores na idade global digital). O consumidor verde, o consumidor consciente da saúde, o consumidor que tem literacia financeira. Um exemplo claro disto é Al Gore: por mais meritórios que sejam os vários discursos e aparições que ele fez em Davos, a verdade é que ele deliberadamente desviou muito do foco do problema do aquecimento global das actividades das empresas (e as empresas americanas têm um grau altíssimo de responsabilidade no estado a que o planeta chegou, para além de ligações mais que íntimas à Casa Branca onde Gore foi vice-presidente) para o indivíduo, como se se tornasse apenas de uma questão de patologias morais ou comportamentos individuais. Entre esse falso discurso santificado e o Greed is Good do Gordon Gekko desculpem mas prefiro de longe o último. Ao menos sabemos claramente ao que vimos.

O outro lado sinistro e muito camuflado de Davos (e de eventos semelhantes) é a total misogenia da congregação. Em 2005, de todos os participantes no evento, apenas 9% eram mulheres. O assunto caiu mal quando saíu para os media, sobretudo acontecendo numa tribo que pretende passar uma imagem tão aberta e liberal para o universo. Prometeram-se mudanças, mas, em 2017, o número de mulheres participantes ainda só correspondia a 20% do total. O facto de que nos últimos trinta anos, só duas vezes houve uma mulher a dar o discurso central em Davos revela tudo. Junta-se a isto uma proclamação quase fanática da rejeição de qualquer origem ou identidade nacional que, pelo seu extremismo e grau de politicamente correcto, acabou por gerar fenómenos como Trump na América ou Le Pen na França.

O encontro gerou o neologismo agora famoso do Davos Man como definição de uma elite global, rica, predominantemente masculina, cujos membros se vêm como completamente globais.  Numa das sessões de Davos há uns anos o cientista político Samuel P. Huntington defendeu que os participantes em Davos “têm pouca necessidade de lealdades nacionais e vêm as fronteiras e os governos nacionais como resíduos e obstáculos”. Até eu que sou liberal e mais globalista do que nacionalista me sinto chocado com este tipo de arrogância e Up Yours aos milhões de cidadãos que não têm o luxo de dizer estas palermices. O carácter extraordinariamente elitista do evento infiltra-se até nos passes de entrada: há um verdadeiro sistema de castas de acordo com a cor da bolinha nos passes de Davos. Vermelho, pouco acesso. Laranja, algum acesso. Branco para os deuses do evento: um Presidente ou um chefe executivo de uma multinacional. Todos juntos para alegremente promoverem e servirem interesses comuns: os próprios, a preços milionários.

O que nos trouxe então o Davos de 2019? De um lado o mesmo do costume: o chefe executivo da maior companhia online chinesa, Alibaba, revelou as suas regras para uma vida e trabalho felizes (incluíndo pérolas como “Não há peritos do ontem, apenas do amanhã”); o primeiro-ministro japonês defendeu que o “Japão derrotou o derrotismo”; o vice-presidente chinês proclamou que “todos devem beneficiar da Globalização 4.0” (mas não magoa muito que a China seja quem mais beneficia); Al Gore teve mais uma epifania: os oceanos estão cheios de plástico e cabe a cada um de nós mudar isto (esquecendo-se que se as fábricas continuarem a produzir plástico nada muda) e finalmente Angela Merkel continua muito preocupada com a erosão dos valores liberais no mundo, mas, comprometeu-se a dar o exemplo de abertura (talvez acolhendo completamente ad-hoc mais um milhão de refugiados, assim se lhe der na cabeça de repente, só para ajudar a AfD um pouco mais).

Mas o mais interessante é a entrada em cena em Davos desde há dois anos das vozes inconvenientes e populistas que estão a perturbar este fórum tão confortável da tão auto-elogiosa elite global. Trump não apareceu este ano (com o shutdown tem mais que fazer) mas houve um vídeo de Mike Pompeo tão ou mais bombástico, onde defendeu que os “pilares do globalismo devem morrer se não se adaptarem ao novo mundo do Estado Nação”. Dizer isto em Davos é o equivalente a uma freira entrar num bordel com um cruxifixo gigante. Para não ficar atrás, o primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte, tratou todos a um discurso anti-União Europeia e anti-globalização e acabou, com uma grande dose de modéstia latina, por afirmar que a “Itália vai mudar completamente em dois anos”. Finalmente o palco e discurso central (e só isso mostra como entrou uma corrente de ar novo e fétido por Davos dentro) foi para o recém eleito Presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Felizmente poupou a audiência (que já estava por esta altura a sacar os Valiums das malas Hermès) ao seu tradicional Deus é brasileiro e em vez disso apresentou-se como o homem que vai liberalizar a economia brasileira, assegurando a todos que a floresta amazónica vai continuar protegida. A galera ficou toda mais descansada Jair!

Este contraste entre uma elite que só olha para o umbigo, num niilismo disfarçado pelos tons pessêgo do Snapchat, e os novos miúdos rufias que vieram destruir o recreio em pedaços, revela muito sobre Davos, mas, sobretudo revela onde estamos em 2019. Estamos a preto e branco. A extremo isto ou extremo aquilo. No total vazio de ação concreta, prática e na ausência de uma elite política e empresarial que entenda o valor da moderação, do pragmatismo e da honestidade para com o povo consumidor. O futuro vai ser bonito para os 99.99% que não têm o direito e o privilégio de subir até ao topo daquela montanha suiça para debitar umas nulidades e beber champagne Krug.  

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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