Maria, Rainha dos Escoceses. Um filme para o fim de semana.

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Quer ir ao cinema este fim de semana? A Capital Mag esteve na antestreia de Maria, Rainha dos Escoceses na semana passada e recomenda o filme. Dramas históricos e biopics continuam em voga. Este, não sendo um filme fenomenal ou que marque a vida de ninguém – exceto, talvez, a do adolescente viciado em história dos Tudor e dos Stuart que também esteve presente na antestreia a acompanhar a enviada especialíssimoa da Capital Mag -, tem o seus méritos. Saoirse Ronan é sempre aconselhável. Os figurinos e os cenários – sobretudo os ambientes inóspitos dos castelos e palácios escoceses destes tempos renascentistas – estão apelativos. As cenas militares e as conspirações competentemente contadas – para obra ficcionada, claro está. A fidelidade à História, essa, não impressiona. O que não desmerece nenhum filme ou livro que não é documental ou de divulgação histórica, contudo torna-se a parte mais fraca da narrativa por ser bastante postiça na relação de Maria com os seus dois maridos escoceses. A realidade provavelmente foi bem mais curiosa e com nuances mais acentuados.

Em todo o caso é um filme sobre duas mulheres – Maria e Elizabeth I – e o poder, numa época em que ser mulher e deter poder político era contranatura, e o preço (diferente) que ambas pagaram. Não deixa de ser curioso que à época se considerava que as mulheres, por serem diferentes dos homens, não gostavam do exercício da política e não lhes eram biologicamente adaptadas. E que, séculos depois, na segunda década do século XXI, quando se fala de representação política das mulheres, permanecem ainda ignoramus que utilizam exatamente o mesmo argumento.

E, em mais um exemplo de como a maldade e estupidez humana perpassam os tempos,  as cenas da pregação de John Knox – o líder religioso protestante fanático, puritano e de um moralismo castrador – em que acusa Maria de todos os males e de todos os pecados (por ser mulher), bem como a reação massiva e de ódio da assistência, são reminiscentes das acusações insubstanciadas da atualidade e das reações violentas das redes sociais.

Por fim, os filmes sobre o passado geralmente revelam mais sobre o presente que sobre o passado. Porque a forma como olhamos para o passado é sempre feita partindo do ponto de vista do presente. Há uns anos, este filme teria sido todo sobre as tensões religiosas e os embates entre católicos e protestantes do século XVI porventura enquadrando-as nas guerras religiosas que brotaram por quase toda a Europa. Mas, num filme de 2018, o ponto de vista à volta do qual se construiu a narrativa foi o binómio as mulheres e o poder. Inevitavelmente, porque é este o debate de hoje. Ainda, mas mais lateralmente, o debate da diversidade – várias personagens eram representadas por atores não europeus. Uma opção que eu aplaudo. Afinal nunca ninguém protestou porque os chineses de 55 Dias em Pequim foram muitos deles representados por ocidentais. Por isto também o filme é interessante: é um documento. Da atualidade.

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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