Saia-lápis

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Imagem de Isabel Santiago.

[Eram 9 horas e ela entrou no local de trabalho. Vinha numa correria, com a mala no ombro e a marmita numa mão e o casaco pendurado no outro braço. Com uma saia lápis e uma blusa branca. Salto-alto. Assim que entrou reparou logo nos olhares. Constrangem um pouco, mas ela tem esperança que passem. Só que não passam. E dos olhares passa a comentários. Sente-se mal. Evita cruzar as pernas para nenhum colega olhar. Passa o dia todo com isto no pensamento: “não cruzes a perna, não cruzes a perna”.  Os colegas disseram-lhe que estava linda, elegante, um deles até se chegou mais perto para a ver melhor, tocando-lhe na perna. “Que bem que ficas vestida assim, dava umas voltas contigo”.

Ficou constrangida, sentiu-se humilhada, culpabilizou-se por não ter ido de calças, pensou que ia muito exposta, remeteu-se ao silêncio o resto do dia, só queria que o dia passasse. Não dormiu nessa noite. Ficou a pensar no que teria ela feito de errado para merecer ouvir um comentário assim. No dia a seguir levou uma roupa discreta. Se pudesse tinha-se metido num saco de batatas.]

Isto é uma história criada por mim. Mas retrata a realidade que muitas mulheres vivem. Ela não fez nada de errado. Ela é uma mulher. Ela é uma mulher a tentar sobreviver num mundo de homens. Homens esses que ficam escandalizados quando ouvem um anúncio a dizer que podem elevar-se, e tratar bem as mulheres.

“O assédio sexual é todo o comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não verbal ou física, com o objetivo ou efeito de perturbar ou constranger a pessoa, afetar a sua dignidade, ou de lhe criar um ambiente intimidativo, hostil, degradante, humilhante ou desestabilizador.” Esta é a definição dada pela Associação de Apoio à Vítima.

Vivemos numa cultura misógina. Não adianta tentar branquear a realidade. Dizer que isto é um problema das classes sociais baixas – que, claro, não é verdade – dizer para assobiarmos para o ar e esquecer. Apagar tudo da nossa memória, porque foi um ato isolado – raramente é. Temos de assumir um problema: a misoginia é social. A misoginia é aprendida. A misoginia é ensinada. E ensinada por quem? Sim, nós mulheres também ensinamos os nossos filhos a serem misóginos. Temos de assumir outro problema: o assédio sexual é uma forma de discriminação baseada no sexo e o assédio constitui um obstáculo à vida das mulheres.

Existe tanto para desconstruir neste assunto…existe tanto para debater…tanto para alterar. Da mesma maneira que as mulheres aceitam o assédio como algo normal, porque repetido até à exaustão, também os homens acham isto tudo normal. Até confundem com a dança da sedução! Não se esqueçam de que para dançar o tango são precisos dois!

“Não te vistas com calções, deves respeito ao teu marido”. Quantas mulheres terão ouvido isto? Quantas mulheres passarão pela humilhação de ver a sua roupa usada como “prova da sua irresponsabilidade feminina”? Quantas mulheres se culparão por gostarem de vestir da maneira como vestem? Quantas mulheres, por terem casado, passam a ouvir da sociedade que as coisas têm de mudar? Quantas mudarão mesmo o seu comportamento? Quantas se sentirão mal? Quantas condicionarão todo o seu dia-a-dia por medo? Quantas serão, na realidade, vitimas de assédio?

Numa sociedade maioritariamente católica, é preciso dizer ámen a estas regras sociais que estão subjacentes a um casamento e à presença das mulheres no espaço social. As mulheres não se querem assim. As mulheres não se querem assado. Toda a gente sabe que a responsabilidade é sempre da vitima. Se ela não se tivesse vestido com saia-lápis não tinha sido assediada! Não responsabilizam o agressor. Responsabilizam a vitima. O único crime onde isto acontece: violência sexual contra mulheres.

E a justiça, o que faz para alterar isto? Nada.

As mulheres querem-se como elas quiserem.

Que fique bem claro.

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