Sofia Vala Rocha: finca pé na paridade e no eleitorado urbano

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Imagem de Isabel Santiago

Sofia Vala Rocha tem declaradamente uma predileção pela gestão autárquica da cidade de Lisboa. Mas, num almoço n’O Talho, ali às Avenidas Novas, no centro de Lisboa, a conversa girou à volta de outros temas. Ambos no estilo a que Sofia nos acostumou: vivo, assertivo, provocador, arguto, bem humorado, afiado, a agitar as águas, implacável. Bem ilustrado pelo statement dress que escolheu para a sessão fotográfica. O estampado leopardo, os sapatos de salto dourado, o cinto largo: tal como a escolha sartorial, as ideias de Sofia são sofisticadas, incontornáveis e modernas.

Regressemos aos temas de conversa. Primeiro calhou (ou não) um assunto que nos move a ambas: a paridade na representação no poder político. Em segundo – e não fazíamos ideia que quando esta peça saísse o PSD estaria em polvorosa com o desafio à liderança de Rui Rio por Luís Montenegro – vieram as atribulações em que o PSD se colocou. Mas já lá chegamos. Vamos por agora ao mais importante.

Sofia Vala Rocha é muito crítica da Lei da Paridade – não por existir nem por estabelecer quotas, mas pelas distorções que permite e pela forma como os partidos a aplicam. Sobretudo o PSD. Dá logo o exemplo: ‘a nível de eleições legislativas escolhe-se praticamente só homens cabeças de lista. Como em muitos distritos só se elegem 1 ou 2 deputados, se tivermos a mulher em terceiro lugar, com homem, homem, mulher, necessariamente só homens é que são eleitos’.

Sofia defende que as listas deviam ser paritárias em termos de homem/mulher alternados, mas também paritárias no tocante aos cabeças de lista – metade deviam ser mulheres. Mas são geralmente homens. Donde, se só se elege o cabeça de lista, elege-se só um homem. ‘Se tiver homens cabeça de lista em sítios como Portalegre ou Beja, eu sei que só vou eleger um homem’, exemplifica. ‘Se colocarmos sempre um homem em primeiro lugar nas listas, já sabemos que a eleição vai acabar entortada’ no que à paridade diz respeito.

Nas autárquicas a situação está quase em réplica: ‘nunca há mulheres cabeça de lista e, acima de tudo, nunca há mulheres cabeça de lista nos locais ganháveis. Isso acontece para as câmaras e acontece para as juntas de freguesia.’ No PSD em Lisboa, por exemplo, não existe nenhuma mulher líder de junta de freguesia. As poucas presidentes de junta de freguesia em Lisboa foram ganhas pelo PS. ‘A lei da paridade é uma lei que se tenta cumprir o pior possível.’

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Sofia Vala Rocha em frente aos Paços do Concelho, o local que escolheu, o centro da autarquia de Lisboa. Imagem de Isabel Santiago.

Para Sofia Vala Rocha, a paridade nas listas eleitorais deve ser vista mais em função dos resultados – ter uma distribuição efetiva equitativa e paritária de cargos políticos entre homens e mulheres. ‘Tem de haver uma mudança mais pelo lado do resultado do que da regra enunciada. Se a ideia não for suficientemente incorporada, as pessoas encontram sempre maneira de a evitar’. Gostaria que existisse uma preocupação genuína para que o resultado final fosse de paridade, ‘uma obrigação de resultado, para que, no fim da história, o resultado da eleição seja bastante paritário’. Não existe, evidentemente. Pelo contrário: a tentativa é de ‘torpedear a lei’ em benefício de mais homens eleitos. Nota-se inclusive nas substituições, em que se desistiu da substituição pelo próximo da lista do mesmo sexo. ‘A prova de que não há paridade nem vontade para a paridade é que olhamos para o parlamento, para todas as forças políticas, não estão lá metade mulheres nem nada que se pareça.’

‘A lei da paridade é uma lei que se tenta cumprir o pior possível.’

A displicência com que o PSD encara a paridade e a representação feminina desagradam a Sofia, que vê este assunto como fundamental para as eleições de 2019, sobretudo as europeias e as legislativas (também há eleições na Região Autónoma da Madeira). A resposta exige-se rapidamente. Desde logo porque o eleitorado e o voto feminino vão ser fundamentais.

O que nos levou ao segundo tema da conversa: o eleitorado urbano.

Sofia Vala Rocha desgosta daquilo que descreve como a ‘dissolução da base sociológica de apoio ao PSD em Lisboa e Porto, sobretudo’. Não foi erosão súbita. Lembra que, já com Pedro Passos Coelho em 2017, o PSD teve em Lisboa e Porto cerca de 10%, 11%. Segundo sondagens recentes, na área metropolitana de Lisboa conseguiria 16% das preferências dos eleitores e na cidade de Lisboa 12%.

Ora, constata Sofia, metade do eleitorado é urbano, vive na Grande Lisboa e no Grande Porto. Cerca de cinco milhões de pessoas. ‘O país real é Lisboa e Porto, vive metade da população nestas áreas urbanas.’ E o eleitorado urbano é diferente do rural. ‘Os poucos jornais que se vendem, vendem-se em Lisboa e no Porto’. Estas duas cidades têm populações que ‘consomem bens culturais, consomem cinema, circulam, vão a festivais, têm problemas comuns de habitação e de transportes. O gosto destas populações sofisticou.’

‘Para agarrar o eleitorado urbano têm de ter lá urbanos, têm de ter pessoas que sejam profundamente urbanas.’

Os partidos têm de incorporar estes problemas e dar soluções a estas pessoas. ‘Não adianta ao PSD querer ser rural quando o eleitorado quer ser urbano.’ Se os líderes dos partidos não são vistos a viver como as pessoas das cidades, não fazem parte do tecido urbano, não estão a par da vida das pessoas, não têm uma existência que diga algo às pessoas das grandes cidades e das grandes urbes, temos um problema’.

O PSD tem ‘muita dificuldade a assumir isto mesmo ao nível do discurso. Há quase que um preconceito.’ Para Sofia, ‘os números mostram que as pessoas que vivem nas cidades vivem de outra maneira e pensam de outra maneira, e o PSD tem contra si o tempo e os números. Gostava que a mudança de discurso acontecesse, porque, se não, o que irá acontecer é o aparecimento de outras forças políticas que são urbanas por definição. As pessoas das cidades estão sub representadas. Se aparecer alguém que se apresente como urbano e que veja os assuntos da mesma forma, seja a paridade, seja questões de orientação sexual, as pessoas já cá estão a andar mais rápidos que os partidos.’

Sofia Vala Rocha sabe que não é fácil. ‘Um grande partido tem sempre um grande problema. Um partido de nicho que ambiciona ter oito, nove ou dez por cento pode querer fazê-lo pela pureza ideológica. Partidos como o PS ou PSD, partidos catch all, têm outro problema: que mensagem é que adotam? Para agarrar o eleitorado urbano têm de ter lá urbanos, têm de ter pessoas que sejam profundamente urbanas.’

 

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Imagem de Isabel Santiago

Sofia, lisboeta de coração mas que cresceu e viveu uns tantos anos em Peniche, rebela-se conta a idealização da ruralidade. ‘Quando oiço falar no “país real” lembro-me da expressão ‘pobretes mas alegretes’. O Portugal dos Pequeninos. É uma ideia um bocadinho fascista. O campo é um horror. A vida das populações é francamente má. Faltam infraestruturas, falta emprego, falta possibilidade dos jovens progredirem, faltam escolas de referência, falta mobilidade social. A visão mitificadora do campo é sempre uma visão das elites que acham piada a um certo subdesenvolvimento.’

‘As pessoas criativas e inovadoras procuram outras pessoas criativas e inovadoras, pelo que o fluxo para as cidades é profundamente humano. Foi sempre assim na História. As cidades têm de estar preparadas para esse fenómenos de atração, que de resto nem é só português e cá nem tem a dimensão de outros lados.’

O PSD tem, para Sofia, que entender que se as pessoas passaram a viver de maneira diferente e têm anseios e problemas diferentes, tem de as representar e lhes responder. As questões femininas são mais umas que pedem resposta e que são fundamentais para decidir o voto das mulheres urbanas. Tanto assim que ‘as mulheres portuguesas são das que mais trabalham fora de casa e das que mais sustentam e suportam agregados familiares. Mas o discurso político ainda não chegou lá.’

‘O país real é Lisboa e Porto. Vive metade da população nestas áreas urbanas.’

‘E a escolha das pessoas é também aqui determinante. Se o PSD escolher para ter no conselho nacional estratégico pessoas de Lisboa ou do Porto, sem ninguém lhes encomendar o serviço vão sempre lembrar a questão da habitação e a questão dos transportes’, constata Sofia.

Por fim, Lisboa. Descreve: é uma cidade cosmopolita desde que começaram a chegar especiarias, ouro, e – agora – o número recorde de 29 milhões de passageiros do aeroporto Humberto Delgado. ‘Recebemos gente de toda a parte. É impossível ser uma cidade fechada se a realidade a obriga a ser uma cidade aberta. Os nossos jovens percebem que para ter emprego têm de procurar em toda a parte.’

Também é para este eleitorado que Sofia Vala Rocha gostava que o PSD falasse. Porque, pragmática, reconhece, ‘as pessoas não estão muito interessadas que lhes falem de outras coisas que não dos seus problemas.’

 

Texto de Maria João Marques. Fotografias de Isabel Santiago.

 

 

 

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