Pinheiro manso em ano bravo

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Agora que já deixaram de me desejar bom ano novo por todo o lado onde passo, posso baloiçar nas graças do ano velho sem sentir que o estou a trair. Em criança ganhei um trauma com a imagem do (hum)ano velho, tristonho, curvado, a cambalear para fora da televisão, após surgir na outra ponta do ecrã um jovem (hum)ano sorridente, airoso e saltitante. Mesmo com permissão parental para beber uma falangeta de champagne em flute, olhava-o como um filho ingrato, um pistoleiro de saloon.

Comecei a humanizar os anos, a evitar esta passagem, a carpir a curta vida de cada um. Quando me devia regozijar com as lantejoulas dos reinícios, lastimava o crepúsculo dos finais. Escrever pela primeira vez a data de ano novo depois das férias de Natal era como engolir em seco um nó na alma. São imagens que guardo na memória dos tempos de primária, curioso e inusitado o processamento central do Desconhecido. Adiante.

Ora quando baloiço no último ano velho – prefiro baloiçar a balançar – relembro com alegria desmedida ter plantado a minha primeira árvore. Dia 9 de Dezembro de 2018. Foi-me oferecida por uma amiga, Victoria de nome e de atitude, que partilha comigo a data de aniversário, caminhos menos percorridos, ideias e cocriações de felicidade. Bravas, plantámos pinheiros mansos para celebrar os nossos retornos solares, rodeadas de pessoas que fazem jus ao provérbio berbere “não somos seres humanos a viver uma experiência espiritual; somos seres espirituais a viver uma experiência humana”. Foi um momento carregado de simbolismo, solene na sua simplicidade.

Inevitavelmente fui transportada para o ditado popular que apregoa que na vida devemos escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Como estava o meu balanço, não, baloiço de vida?

Claro que esta é uma metáfora a apelar para a angústia de não ser esquecido, de deixar legado, de permanecer. A origem desta premissa é desconhecida e não vou descamá-la com considerações filosóficas, sociológicas, tão-pouco teológicas. A verdade é que a invocamos vezes demais e o ego de quem a cumpre fica mais aconchegado. Pois bem, parece-me que não será o meu caso. Sinto que não a irei cumprir. E sabem que mais? Está tudo bem e não me sinto meia pessoa, ou dois terços de gente para ser exacta por atingir dois destes achievements – que também o são. Ou talvez seja um pouco desconcertante, ego dixit. Que se lixe. Porque a verdade é que esta é uma disposição tremenda e injustamente redutora. Todos queremos semear algo, mas não é a árvore, o livro, o filho que nos preenchem e atestam de humanidade.

mansobravo

Mas, neste tribaloiço, que me ficará a faltar, perguntam vocês? E como sei, se “tudo muda”, como aclamava Heráclito na Antiga Grécia, logo ele que não conhecia computadores? Logo eu que adepta sou do “nem nunca, nem sempre”. O livro, senhores, o livro, será o livro que me ficará a faltar. Posso sempre condicionar a realidade e afirmar que o escrevi, ou os escrevi, por interposta pessoa que não é ninguém mais, ninguém menos, do que a minha filha, Beatriz. Aliás, a minha filha, 19 anos, vale pelos três feitos. Escreveu dois livros em inglês, o primeiro com 14 anos, passou quatro meses no Gana a fazer voluntariado, visitou a Europa sozinha de mochila às costas, saiu de casa do ano passado para estudar no Reino Unido. É bondade, liberdade e responsabilidade num ser só, outro trio, bem mais consistente. Pinheiro manso em ano bravo. Porque é bravo ter a filha única a sair de casa quando sempre fomos as únicas em casa.

Porque não o livro, se eu escrevo profissionalmente? Porque escrever um livro requer a imaginação, a disciplina, até o prazer que não tenho. Porque este ano, libertando-me da propriedade transitiva – e criativa – que utilizei no parágrafo anterior, frequentei o curso de Revisão I da Escrever Escrever, com o Manuel Matos Monteiro, e percebi que revisão é a minha montanha. Esta não é o parente pobre da criação ou da edição, como tão bem escreve o Manuel, “o revisor é o escritor da sombra, o duplo do actor de cinema que entra em cena quando este não está preparado para o salto (…) o bom revisor deve amar as palavras. Não ser apenas um engenheiro, ou um contabilista das mesmas. Só amando as palavras, as poderá lascar, aparar, envernizar, polir, perfumar. Seria interessante publicar-se um livro de um grande escritor em estado de pré-revisão, de modo que os leitores compreendessem a importância do revisor.”

Alto ergo o meu pinheiro manso em ano bravo. Onde me desapeguei do meu maior orgulho. E livrei-me do livro. Agora é baloiçar no ano novo, sem perder o equilíbrio e a lucidez desta revisão.

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