2019 – as máquinas, a natureza do trabalho e as mulheres: foi você que pediu um robô?

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“More human than human but still a machine is our motto”, Blade Runner

No segundo dia deste ano de 2019 abriu um novo tipo de supermercado na sede da Amazon em Seattle, nos Estados Unidos, chamado Amazon Go. Nele os clientes entram usando os smartphones, escolhem o que querem das várias prateleiras e saem sem passar uma única vez por um empregado humano. Isto porque no Amazon Go não há empregados de carne e osso. Em vez disso este tipo de acto de compra é o que a Amazon chama de “just walk out shopping”, onde uma nova geração de robôs e sensores estabelece de que cliente se trata, o que estão a escolher e manda a conta dos items comprados directamente para o smartphone. Há um ar a Big Brother no conceito: a loja só está aberta a consumidores que têm a app, o que de imediato nega a entrada àqueles que, por exemplo, dependem de vouchers alimentares (como é o caso de milhões de pobres na América). Nem por um único segundo se troca um “olá bom dia, como está?” ou um “posso recomendar-lhe este pargo?” com um empregado humano. Tudo é automatizado. Bem vindos ao presente, estilo Blade Runner.

Este é o futuro no comércio, na indústria, nos serviços, não só nos Estados Unidos mas pelo mundo fora. A mudança tecnológica rumo à digitalizacão e robotização quase total está a avançar a passo galopante e se, por um lado, vai permitir imensas poupanças às empresas e aos consumidores, por outro vai ter consequências económicas, sociais e éticas profundas.

Carros em modo automático sem condutor (adeus a todos os que trabalham como motorista?) já circulam numa série de projectos pela Alemanha, Coreia e Reino Unido. Trabalhadores fabris estão a ser substituídos por todo o mundo, tal é a facilidade de programar máquinas para a execução de tarefas repetitivas (e ainda por cima essas máquinas não fazem greves de semanas à la Autoeuropa). Por exemplo, na China, fábricas com menos de cinco anos de funcionamento já usam em média robôs para 75% de todas as tarefas. Vendedores de bilhetes em estações de comboio, projectores de cinema, trabalhadores agrícolas, operadores telefónicos, empregadas de limpeza, a lista de empregos que estão a ser substituídos por máquinas é infindável. E os que pensam que as chamadas profissões liberais estão seguras, estão muito enganados: no Reino Unido corre desde 2017 um vasto projecto que está a digitalizar (na prática eliminar) grande parte dos notários e advogados envolvidos em casos judiciais mais corriqueiros. Na Índia, em vastíssimas áreas cirúrgicas, os médicos já foram substituídos por robôs. Nem falar no Japão, o país que foi pioneiro na robotização já há mais de trinta anos, e onde quase tudo, desde o jornalismo até às cerimónias religiosas já tem um elemento robótico de uma forma ou outra.

A experiência de revoluções industriais passadas (e esta é globalmente a quinta grande revolução industrial desde o fim do século XVIII) sugere que resistir ou ignorar mudanças tecnológicas deste calibre é fútil e inútil. A automatização tem benefícios muito tangíveis: por exemplo, em mobilidade para os idosos (crucial em sociedades cada vez mais velhas), em eficiência nos sistemas de saúde, e na possibilidade de aumentar o crescimento económico e o bem estar geral (estimativas da PWC indicam que as economias americana e britânica serão maiores em 20% e 15% em 2030 respectivamente, como resultado do uso da inteligência artificial).

A questão é o que fazer com os trabalhadores que vão ficar para trás: se a mudança de empregos para países asiáticos ou da Europa de Leste já criou os populismos que todos conhecemos (basicamente porque não se investiu o necessário para re-treinar trabalhadores que pertenciam a actividades económicas não competitivas), o que vai acontecer quando essa deslocalização se passa não para países concorrentes mas para um mundo virtual, não humano? Como se vai reeducar esta massa humana para competir com máquinas? Máquinas não exigem pensões, semanas de trabalho de 35 horas, subsídios de alimentação, um mês de férias, subsídio de Natal e por aí fora.

Curiosamente, e para complicar o problema para todos os que ainda aspiram a sociedades com um centro democrático liberal vigoroso, todos os estudos apontam para que a vaga corrente de automatização vá afectar sobretudo os estratos sociais que já sofreram mais em mudanças estruturais anteriores, ou seja aqueles que, por desespero, se voltaram para o populismo fácil de Trump, Bolsonaro, Orban, Salvini, Erdogan, Le Pen e por aí fora. O Centre for Cities britânico sugere, num estudo recente, que as áreas que mais foram atingidas pelo colapso industrial ocidental (de educação mais baixa) vão ser também as que vão ser mais atingidas pela próxima vaga de automatização. Isto porque as fábricas e minas foram na sua vasta maioria substituídas por call centres e armazéns, onde o potencial para os humanos serem substituídos por máquinas é maior. Mas há outra classe que tambem já está a ser substancialmente atingida por esta mudança e o vai ser ainda mais: as mulheres.

Segundo o excelente Institute for Spatial Economic Analysis (ISEA), muito mais mulheres que homens trabalham em profissões que estão em alto risco de serem automatizadas nas próximas duas décadas, levando-os a prever que o número de mulheres que vai perder emprego devido à automatização é o dobro dos homens. Junte-se a correlação entre alta probabilidade de automatização, baixa escolaridade e origens étnicas e o quadro soa particularmente alarmante para mulheres solteiras ou divorciadas que têm formação abaixo do nível de mestrado e são de etnia não branca. Um exemplo específico: 97% dos empregados nos supermercados norte-americanos irão perder o seu emprego nos próximos dez anos para os robôs – 73% desses empregados são desempenhados actualmente por mulheres, 55% das quais afro-americanas e 47% das quais solteiras ou divorciadas.

Engane-se também quem pensa que esta mudança para a robotização é exclusiva de países capitalistas ou neo-liberais (escolham o cliché). Na muito social-democrata Europa (já nem tanto diga-se de passagem) o Bruegel Institute prevê que, nos próximos dez anos, 54% dos empregos estão em risco devido à automatização. Curiosamente Portugal é, a seguir à Roménia, o país da Europa com a taxa mais alta de empregos em risco: cerca de 60%. Isto deve-se claro à natureza pouco qualificada e especializada da vasta maioria da mão-de-obra portuguesa: um robô ou uma máquina pode facilmente substituír um empregado de supermercado, de caixa ou um recepcionista de hotel. Ouvem alguém do espectro partidário português tocar sequer neste desafio estrutural da próxima década? Não, não ouvem.

Claro que há os que olham para tudo isto com uma visão muito Alice no País das Maravilhas. No clássico livro de Edward Bellamy Looking Backward, o protagonista, Julian West, acorda de um sono de 113 anos e descobre que os Estados Unidos do ano 2000 são dramaticamente diferentes de 1887. No livro as pessoas páram de trabalhar aos quarenta e cinco anos e dedicam o resto da sua vida a serem tutores de outras pessoas e ao trabalho voluntário em prol da comunidade. Nesse universo de Bellamy há semanas de trabalho de dois dias apenas e todos os cidadãos recebem benefícios, comida e casa por inteiro do Estado.

A realidade é bastante mais complexa: numa era em que os Estados estão endividados até à ponta dos cabelos e as empresas preferem re-investir nas suas próprias acções do que na sociedade geral, esta visão conto de fadas do futuro não vai singrar. Mesmo que as estimativas do desemprego que a robotização vai provocar estejam erradas em metade as consequências vão ser muito severas, uma vez que bastam pequenos incrementos em desemprego ou sub-emprego para se ter um impacto político desmedido. Basta ver o que o pico de 10% de desemprego durante a Grande Recessão de 2008 gerou na América: o Tea Party, o intensificar do extremismo ideológico e por fim Donald Trump. Agora imaginem uma taxa de desemprego a 20 ou 30%. Já nem preciso falar da Europa que parte para este novo ciclo com uma série de países que ainda têm taxas de desemprego em excesso dos 10% e mesmo 20% (Grécia, Espanha, Itália e França só para nomear alguns casos).

É seguro prever que as sociedades e a política vão tornar-se mais caóticas e turbulentas na próxima década(s). À medida que a inovação e digitalização acelera e que a ansiedade pública aumenta, os populismos extremos de direita e de esquerda irão alternar-se repetidamente no poder, prometendo soluções milagrosas. O controlo dos governos oscilará entre líderes extremamemente conservadores ou extremamente revolucionários, com cada lado a culpar o outro por algo que os próprios governos deixarão de ser capazes de controlar: a marcha das máquinas. A política calma e previsível do período pós Segunda Guerra Mundial vai tornar-se uma memória distante à medida que diversas democracias evoluirão para um regime tipo Trump em esteróides.

O conceito do que é o trabalho vai ter de mudar totalmente e ideias que são pouco palatáveis para alguns como o rendimento universal básico (difícil para a direita) ou a criação de fundos soberanos e de uma política de dividendos universal (difícil para a esquerda) vão ter de ser admitidas ao debate. Vai ser precisa coragem e equilíbrio, sobretudo quando esta nova revolução eclode num momento em que o tecido social, um pouco por todo o mundo desenvolvido, já está consideravelmente fragilizado. No lado positivo a vingança para as mulheres pode estar no facto de que passam a ter um menu de escolha muito maior: os homens de carne e osso são agora desafiados por homens robóticos, com inteligência artificial, que podem ser treinados para todas as tarefas domésticas necessárias (incluindo a satisfação sexual) e desligados da bateria eléctrica quando se tornarem irritantes. Men made the machine but women get to enjoy it.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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