Recomendação para 2019: take to the bottle.

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Imagem de Patrícia Sequeira

Lamento dizer isto ainda antes do ano começar, mas a minha recomendação mais adequada para sobreviver a 2019 é abusar de substâncias psicotrópicas (legais ou, se for mais arrojado, ilegais) que tornem a sua visão da realidade mais rósea. Deixo-lhe aqui algumas lembranças para o deprimir suficientemente para ir a correr para a secção de vinhos do supermercado mais próximo e sair de lá (com o saco de pano reutilizável, que lá por estar em vias de se tornar alcoólico tal não desculpa que seja ambientalmente irresponsável) com mais garrafas do que as asas do dito saco conseguem suportar.

1. Vamos continuar a ter Donald Trump e os tuits de Donald Trump. As atoardas, as férias (nunca um presidente teve tantas férias), as demissões, os cargos que não conseguem convencer ninguém a ocupar, os ataques a todos os grupos mais fracos. Só este primeiro ponto convence qualquer abstémio a beber uma garrafeira inteira.

2. Os nossos políticos são supimpa e vão continuar a ser, mesmo depois das eleições legislativas de outubro de 2019. Vejamos. Inúmeros deputados passam as passwords uns aos outros para ‘votarem’ quando na realidade faltaram. (Assim como os alunos cábulas que faltam às aulas e pedem aos colegas para assinarem por eles; ou os caixas de supermercado que usam os códigos dos colegas para irem às caixas alheias fazerem manigâncias com os trocos). Mas não há problema, porque no PSD e no PS já nos fizeram saber que está tudo bem. O inigualável Rui Rio considera estas histórias todas as provas provadas da maldade reiterada e impenitente dos jornalistas que estão a dizer mal desses pobres senhores que são os deputados seus amigos. Carlos César é ainda melhor. Assim ao estilo de Stalin, acha que, se o deputado socialista que ‘votou’ quando estava noutro lado, apagar as fotografias do facebook que mostravam que estava noutro lado, a muitos quilómetros, quando ocorreu a votação onde também (não) esteve em Lisboa, então não há indício nenhum de irregularidade nem motivo para punição.

E os deputados que pediram para receber dinheiro de viagens para as ilhas sem terem pago ditas de que insistiram ser ressarcidos? Estão todos em funções. Um deles é líder do grupo parlamentar do PS. E os outros ainda mais imaginativos, que vivendo em Lisboa declaram residência a centenas (ok, ok, alguns foi só dezenas) de quilómetros para receberem as indevidas ajudas de custo? Claro: farão todos parte das listas eleitorais das eleições de 2019.

E, para os partidos nos mostrarem mesmo como estão na reinação connosco, a JS vota esmagadoramente numa candidata que aldrabou CV, ‘enganou-se’ sobre a sua própria idade (coisa que, a mim, só me começou a acontecer depois de fazer quarenta anos; Maria Begonha é, pobrezinha, precoce nesta maleita), revelou já ser exímia a receber dinheiro dos contribuintes através de ajustes aqui e ali onde manda o seu partido. Hein, que bom, certo? Quem lhe mandou não se alcoolizar e pretender que se deve aumentar o escrutínio e a exigência com os políticos que gerem o dinheiro dos nosso impostos?! Ficam a saber que continuarão a existir estas Maria Begonhas.

Ok, neste momento o querid@ leitor@ já está a nada num lagar onde se acabaram de pisar uvas e até se dispõe a fazer um festim com o mosto.

(Atenção, atenção! Não, os políticos não são todos iguais. Já passaram aqui na Capital Mag – e passarão mais – que têm um tremendo espírito de serviço e de missão. Cada vez mais tenho pouca vontade de embarcar nesta conversa fácil de lançar fel sobre os políticos, porque a generalização é inevitável. Também concordo que se fazem muitas críticas injustas, que os políticos ganham muito mal e muitos deles trabalham imenso e com grande sacrifício pessoal. Os abusos repetidos obrigam a que às tantas este tema seja obrigatório. Mas que fique feita a ressalva.)

3. Se os políticos nos fazem revirar os olhos (e voltar a encher o copo ou enrolar novo charro), os juízes, então, põem-nos a almejar o coma alcoólico. (Nem todos – mais uma vez! E dizem-me que a qualidade é bastante melhor na primeira instância e nos mais novos.) Mas a qualidade das sentenças e acórdão produzidos nos casos de crimes violentos (exceto homicídio), entre eles violações e abusos sexuais e violência doméstica são de exasperar e transformar em junkie o mais puro santo de altar. Sem surpresas – porque sem penas efetivas ou condenações – este tipo de crimes tem aumentado. Bem como a insegurança de todas as mulheres.

4. Os impostos continuarão excessivamente altos, os constrangimentos orçamentais (não há dinheiro, nada a fazer) ditarão que os serviços públicos se continuem a degradar.

5. Haverá imenso folclore para as legislativas. O PSD, a continuar o estado atual, estará em negação até à noite eleitoral quando perceber a derrota. O PS vai tentar conquistar outra vez o centro – o rigor orçamental, o ter amestrado completamente o PCP e o Bloco, a tal descrispação (que sim, ocorreu, mesmo com as greves faz de conta). E vai tentar que nos esqueçamos de como comprou a paz com o PCP (dando-lhe para sempre o reino dos transportes públicos e a capacidade de transtornar seriamente a vida nas cidades) ou com o BE (as tontices criminosas do fim dos contratos de associação, o fim das PPP na saúde com ótimos indicadores, o atentado do imposto adicional do IMI, as alucinações na lei do arrendamento). Ah, e os mortos dos fogos de 2017. O BE e o PCP esforçar-se-ão para apagar da consciência dos eleitores como foram coniventes com a austeridade do PS que causou caos no SNS e noutros lados. O CDS continuará no seu equilíbrio periclitante entre a fação citadina e desempoeirada e a fação de sacristia hiperconservadora. (Dos novos partidos, espero saber mais para poder falar.)

6. Continuará a ser ilegal usar tasers sobre os trolls das redes sociais (e da vida).

Tudo isto serão realidades que 2019 não alterará. É certo que vai estrear a nova temporada de The Crown, bem como o filme sobre Snu Abecassis, e que teremos novidades literárias apetecíveis, mas não é suficiente, Pelo que para sobreviver, já sabe: vinho.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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