O prazer crepitante de dar

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Eu confesso, eu confesso: sou daquelas pessoas que adora dar presentes. (E receber também, mas já lá vou.) Adoro pensar no que devo comprar para a pessoa a presentear, deleito-me a planear e a ponderar qual o melhor presente (porque há que ser adequado a quem recebe, não àquilo que nós temos a mania que a outra pessoa devia querer), juntar-lhe o elemento do sonho (algo corriqueiro que o nosso alvo precisa, ou nós julgamos que precisa, pode não ser um bom presente; o desnecessário mas delicioso provavelmente agrada mais), tenho enorme prazer em comprar e, por fim, em entregar o objeto que escolhi (ou algo que simbolize o presente, se este for pouco materializável).

Há quem aconselhe a dar experiências (e memórias) em vez de objetos. Não vejo mal nisso. O bilhete para um concerto, um fim de semana algures, uma pequena viagem, um jantar romântico, uma massagem num spa, um curso de reiki, umas aulas de culinária para vegans (ou de doçaria ou whatever), uma sessão de enchimento com ácido hialurónico (ou botox, nos casos mais prementes) – tudo ótimos presentes. Não ofereci já todos, mas poderia. Num mundo cheio de objetos, a ponto de se tornar insustentável a produção de tantas ‘coisas’, estas são boas escolhas. Acumular objetos às tantas é demasiado. E, como disse, não se presenteia apenas a experiência: também se oferece uma memória de um momento de prazer. E as boas memórias são em tantos momentos escuros os nossos salva vidas.

Em todo o caso eu ainda me inclino para a defesa de, ocasionalmente, dar objetos. Sou uma pessoa de objetos. Os objetos para mim têm significado e, lá está, estão geralmente associados a memórias de quem mos presenteou e em que local e circunstância. Tem o custo de ter a casa demasiado cheia (desde logo pela quantidade de livros que possuo, e custa-me horrores desfazer-me de livros que li ou quero ler; no máximo vou passando aqueles livros que me ofereceram mas nos quais me recuso a gastar tempo). No entanto, tenho um amor – não desmedido mas significativo – pelos quadros das minhas paredes, por alguns dos meus móveis (sobretudo os art deco, ou aqueles cuja proveniência me aquece o coração), algumas peças de prata – estão a ver o perfil. Adoro viver no meio de objetos bonitos. Se são bonitos e me foram oferecidos por alguém significante ou numa ocasião especial, bom, venero-os assolapadamente. Ah, e sim, as jóias são dos melhores amigos de uma mulher. Sejam jóias, jóias, das boas, sejam os exemplares de prata (em cor natural ou dourada, que a minha pele faz-me o favor de ser sensível e alérgica a metais não preciosos) com pedras coloridas que eu uso em abundância no dia a dia.

Portanto, sim, às vezes dar objetos – daqueles que ficam e que perduram tanto como a memória do momento – é boa política e boa escolha. Claro que, em se tratando de uma gracinha de Natal, se escolhe a peça com mais piada dentro do orçamento. Um perfume, um hidratante de corpo, maquilhagem, gel de banho de aroma tentador, um porta moedas, uma vela aromática, um livro, um pequeno gadget tecnológico – tudo formas respeitáveis de mimar alguém. Mas para pessoa próxima e significante, há que escolher algo que não dure apenas uns meses ou uma estação. Digo eu.

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O importante é dar. Como pela minha experiência percebo, perder tempo com a felicidade de alguém de quem gosto é algo que me alegra. A ciência concorda. Dar ativa as zonas do cérebro ligadas que nos fazem sentir felizes (as mesmas de quando fazemos sexo ou comemos as iguarias preferidas. Yessss.). Dar frequentemente – é como quem diz: ser normalmente generoso – pode resultar em melhor saúde, mais baixa pressão arterial e maior esperança de vida. Além destes sedutores benefícios, dar, claro, é benéfico para as relações com as pessoas que nos rodeiam.

Atenção: dar não é necessariamente oferecer um centro comercial inteiro. Além de não ser conveniente contrair empréstimos para este tipo de despesas correntes (exceto se estiver a planear dar um carro ou uma casa ou qualquer outro bem de consumo duradouro ao marido ou à mulher), no caso específico das crianças é prejudicial que tenham brinquedos em número excessivo. Nos presentes, incluindo para a pequenada, o mote less is more também se aplica.

Em suma, gosto de dar e aparentemente isso faz-me bem à saúde. Espero que atrase rugas e tudo. Evidente: também gosto de receber. E gosto de pessoas que gostam de dar. Causam-me desconforto e desconfiança e reticências as pessoas que não têm prazer na generosidade. Seja no Natal, nos aniversários ou, se apropriado, nos presentes que se traz das viagens. Outro insulto sem tamanho são as pessoas que respondem com indiferença à minha generosidade (quando esta é individualmente dirigida a alguém próximo). Devia ser permitido aplicarmos uns leves choques elétricos em tais ingratos.

Gosto de receber presentes, claro. Quem não? Presentes que mostrem que quem mos oferece também se deu ao trabalho de pensar num presente para mim. Sendo eu uma pessoa com gostos exóticos (nunca uso aquilo que toda a gente está a usar, credo), deliro com presentes em que a outra pessoa mostra que me percebe, que digam I get you. Pela cor (a cor para mim é um assunto muito sério), pela originalidade, pela diferença.

E o melhor de tudo? Agora posso dizer que este prazer em receber presentes é sobretudo para trazer benefícios à saúde de quem mos dá. Um caso sério de altruísmo, portanto.

 

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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