Reino Unido: a Brexitland, onde a montanha russa encontra o comboio fantasma

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“History is the sum total of things that could have been avoided”, Konrad Adenauer

Um extra-terrestre que tivesse aterrado no Reino Unido recentemente ficaria apavorado com a instabilidade política e constitucional que o Brexit criou. Esta semana que passou foi mais um exemplo deste espectáculo circense, algures entre a montanha russa e o comboio fantasma tétrico, que todos os britânicos têm de presenciar, agora numa base diária. Este país costumava ser um ícone de estabilidade, o Rolls-Royce da política e diplomacia internacional (como era conhecido nos ciclos das Nações Unidas). Pois não mais,o Brexit tornou-se este monstro tentacular, incontrolável, que aparece mesmo quando uma pessoa se quer esquecer do tópico, um autêntico Alien com múltiplas metamorfoses que persegue a todos os que vivem nesta ilha, quais Sigourney Weavers de 2018. O monstro come tudo e ocupa tudo à volta e sobretudo contamina o lugar da racionalidade política. Felizmente, sendo isto o Reino Unido, o Alien ainda não ocupa as ruas, deixa isso para os gilet jaunes em França.

Tentemos portanto recapitular as cenas do Brexitshow desta semana. Após ter estabelecido com Bruxelas o acordo de separação entre o Reino Unido e a União Europeia, o parlamento britânico dedicou-se a oito dias de debate meticuloso sobre o dito acordo, que toda a gente sabia estar mais morto à nascença que uma sardinha na rede de pesca. Num parlamento em que nenhum partido tem maioria relativa quanto mais absoluta; metade do Partido Conservador detesta o acordo e suspira por uma saída da União Europeia sem acordo (para poder evocar o espírito bulldog de Churchill na imaginação infantil deles); os nacionalistas da Irlanda do Norte entram em apoplexias à mínima menção da garantia de segurança incluída no acordo (basicamente fazer permanecer a Irlanda do Norte numa união aduaneira com a União Europeia no caso de não se encontrar uma solução tecnológica para a fronteira terrestre com a República da Irlanda até ao fim de 2020); e a oposição trabalhista e nacionalista escocesa não só não gosta do acordo como só se quer ver livre do governo, custe o que custar– era óbvio que o acordo nunca passaria. Mesmo sabendo que a aritmética parlamentar era esta linda confusão, Theresa May passou duas semanas em tournée pelo país inteiro, freneticamente apelando ao bom senso e a um evitar do caos (porque realmente ordem é o que prevalece de momento na vida política britânica). Vários ministros do governo foram despachados para todo o lado, como autênticos Messias das maravilhas do acordo: nas rádios, nos jornais, nas televisões, em cantos remotos da Escócia, de Gales, de Inglaterra. Um blitz mediático total, hora após hora, minuto após minuto.

Theresa May acordou na manhã de segunda-feira e teve a súbita epifania de que este acordo tão louvável e tão essencial à ordem nacional não ia passar o crivo dos deputados. Dirigiu-se então mais uma vez ao parlamento (ela já foi mais vezes ao parlamento que todos os outros primeiro-ministros britânicos juntos) para fazer o anúncio-supresa: dado que existiam preocupações consideráveis no parlamento com a questão da garantia de segurança incluída no acordo, ela tinha decidido adiar o voto por um período indeterminado para procurar mais garantias legais da Europa. Nem a Joana d’Arc teria melhor espírito de auto-sacrifício admita-se. Seguiu-se claro um debate parlamentar para lá do intempestivo em que a própria bancada parlamentar da senhora May se escusava a comentar se tinha sido sequer informada desta mudança brusca de opinião ou não; o Presidente da Câmara dosComuns propôs a ideia extraordinária de se fazer um “voto sobre o adiamento do voto” (estão a ver o regime de círculo vicioso total que isso podia criar) e a dada altura um deputado trabalhista resolveu tirar com as suas próprias mãos o ceptro dos Comuns. Talvez uma manifestação de crise de meia-idade masculina, ou uma necessidade desesperada de publicidade – aparentemente igual feito só foi repetido duas outras vezes na História do Parlamento britânico (uma delas por Michael Heseltine, o famoso abutre negro de Margaret Thatcher).

Seguiu-se na terça-feira uma viagem frenética de Theresa May (como é que ela aguenta? que comprimidos toma? pode dar-me a receita?) por três países diferentes no espaço de oito horas: Holanda, Alemanha e Bruxelas (que nãoé um país mas funciona como o país do funcionalismo eurocrata). Basicamente uma tentativa desesperada de pedir em cada um desses portos de chegada um anexo ao acordo que funcionasse como garantia do carácter temporário de qualquer regime de seguro em que o Reino Unido entrasse. Repetidamente cada um dos líderes europeus com que May se encontrou voltou a referir a mantra de que o acordo a que se tinha chegado é o único possível. No caso do encontro com a chanceler Merkel nem foram precisas muitas palavras: o carro oficial de Theresa May ficou com a porta encravada na exacta altura em que May tinha chegado à frente da residência oficial de Merkel. Não podia haver melhor imagem de May, uma autêntica prisioneira do seu próprio destino trágico via Monty Python.

Como na Brexitland o povo não pode dormir descansado se em cada dia não pular mais uma surpresa de um dos cofres do combio fantasma, na quarta-feira de manhã o comité do PartidoConservador (que se reune numa sala com uma carpete ultra-vibrante à la anos 70, daquelas que rimam com Barry White no aparelho de som) anunciou que se tinha atingido o número de cartas necessário de deputados do partido para desencadear um voto de confiança interno na senhora May. Quarenta e oito almas carinhosas tinham enviado essas cartas ao comité partidário com a intenção nobre de dar à senhora May um escape do manicómio. Seguiram-se mais umas dez horas de completo alvoroço: ministros a declararem o apoio a May com o mesmo ar com que se declara ter prazer em comer ovos estragados crus, o inescapável Jacob Rees-Morgan a apelar aos nobres valores da coragem e da independência (os mesmos valores que o levam a ainda ter a ama de infância em casa) e um discurso emocional de May aos membros do partido em que a Dama de Gelatina confessou que “embora lhe custasse muito” não se iria recandidatar às próximas eleições legislativas em 2022, o que é sinal certo de que a instabilidade vai continuar (não há nada mais estimulante para a natureza fraticídia de um partido do que um líder que anuncia que não se vai candidatar mais).

Aparentemente houve muitas lágrimas nos deputados leais a May que assistiram a esse discurso, o Partido Conservador britânico é assim, uma mistura improvável entre o implacável e o lamechas kitsch. No fim do dia anunciou-se que May tinha sobrevivido ao voto de confiança embora cento e dezassete deputados do partido (cerca de 40% da bancada parlamentar conservadora) tivessem votado contra ela ou, em linguagem mais quotidiana, espetado a faca nas costas da senhora. May voltou a Downing Street, fez um discurso breve estilo Greatest Hits dos seus clichés habituais (que ia lutar pelo melhor Brexit possível e a importância de unir a nação que, helas, estava bem mais unida antes do governo a que ela pertencia ter lançado o referendo). A nação já podia dormir descansada. Na quinta-feira seguiu-se nova viagem de May a Bruxelas, a continuação da sua Missão Desesperada ou talvez pura e simplesmente para acumular pontos de fidelidade no cartão de passageira habitual do Eurostar. Quem sabe, tudo é possível na Brexitland. Donald Tusk continuou a insistir que o acordo existente era o único possível, fizeram-se mais uns sorrisos e poses para as cameras. Tudo de uma vacuidade e inutilidade total.

O que acontece a seguir, nestes quinze dias finais do ano e nas primeiras semanas de 2019? O adiamento do voto no acordo não muda nada para a senhora May: a aritmética partidária e parlamentar continua a mesma e não vai mudar se a primeira-ministra voltar de Bruxelas com um papel mágico (talvez mudasse se ela voltasse com uma máquina do tempo). O voto acontecerá em Janeiro e claro May vai perder. Segundo as regras parlamentares, o governo britânico tem então três semanas para encontrar uma nova solução (construir uma ponte levadiça sobre o Canal? mudar todo o país para a Austrália? Tudo é possível). Entretanto por essa altura o Partido Trabalhista deve ter decidido finalmente apresentar uma moção de confiança no governo e, considerando o estado de loucura em que boa parte do Partido Conservador está, não é de descontar que alguns deputados conservadores votem contra o próprio governo e se auto-derrubem. Isto levaria a novas eleições. Na ausência desse voto de confiança a pressão aumentaria exponencialmente para um segundo referendo (quem quer mais uma volta na montanha russa, quem?) ou até para uma solução parlamentar. Eu pessoalmente penso que por pura atrição, cansaço geral e falta de acordo parlamentar no tipo de Brexit desejável, se caminha ou para um cenário de saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo de divórcio (se bem que não haja maioria parlamentar para esta opção) ou pura e simplesmente para o cancelamento do Brexit tout court. O último cenário seria um revés total do voto de 2016 e ficaria a pairar por cima dos dois maiores partidos britânicos durante muito tempo.

Convém talvez acabar por dizer que do ponto de vista do longo prazo histórico e não do imediatismo do dia a dia noticioso e político, o Brexit é apenas mais uma fase da relação complexa da Grã-Bretanha com a Europa. Os britânicos já saíram e entraram mais vezes na Europa do que os dedos das mãos. A província que se chamava Britannia foi parte do Império Romano durante quatro séculos até que, com a desintegração desse império, se viu forçada a saír em 410. Dois séculos mais tarde, em 664, a Inglaterra voltou a juntar-se ao Império da Igreja CatólicaRomana, a União Europeia da época. Em 1534, Henrique VIII tirou o país de forma espectacular e violenta dessa união e a Inglaterra manteve-se à parte das guerras religiosas que devastaram a Europa nos séculos XVI e XVII.

Esse isolamento acabou com Napoleão – a Grã-Bretanha re-entrou então na Europa até triunfar em Trafalgar e Waterloo. Com o Congresso de Viena em 1815 o país perdeu de novo o interesse na Europa para se concentrar no resto do mundo, no Império. Era a política de isolamento esplêndido de Salisbury. No século XX já se sabe: o Reino Unido teve de lutar duas vezes por uma Europa livre. Derrotado o nazismo, novamente o interesse pelo Velho Continente desapareceu até que os britânicos finalmente aderiram à União Europeia em 1973, inventando no processo o mercado único do qual, ironia das ironias, agora querem saír.

Se há um padrão é este: o Reino Unido tende sempre a desligar-se da Europa quando esta entra numa fase de instabilidade (como aquela em que se encontra agora desde a Espanha até à Polónia) para depois se ver obrigado a intervir e a relacionar-se de novo com a Europa de uma forma ou outra. Por isso, 2019 vai trazer mais Brexit e mais desta classe política altamente disfuncional que lidera, de momento, os britânicos, mas, o mais interessante vai ser o longo-prazo: quando, como, porquê e com que líderes vai o pêndulo do Reino Unido voltar para o lado dos primos continentais. A História nunca acaba, só se repete em novas cores.

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