Coletes amarelos, cartão vermelho a Macron

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A diretora da minha empresa (que reside em Paris mas trabalha durante a semana no Reino Unido) chegou ao escritório na segunda-feira num estado de stress maior do que o habitual para aquele dia da semana que ninguém gosta (segundas e sextas-feiras deveriam ser abolidas por completo que a produtividade dispararia). Ela e o marido tinham tido um dos dias mais horríveis da vida deles quando, no meio de uma caminhada por Paris, tinham tido de se refugiar durante seis horas num hotel para escapar à revolta dos coletes amarelos (os gilet jaunes). Pode parecer muito agradável passar uma tarde de sábado no bar do Georges V (aquele chá, aqueles bolos) mas o problema não ficou por aí: uma massa de protestantes entrou pelo hotel dentro à medida que cantavam um hino à Revolução Francesa e no espaço de minutos havia ali em pleno XVIème, o bairro mais burguês de Paris, helicópteros, sirenes de Polícia, vidros do icónico hotel a serem partidos em pedaços, detonações de explosivos na rua em frente, pessoas a desmaiarem, feridos, gás lacrimogéneo um pouco por toda a cidade, toda uma lista de ocorrências mais próprias de um país em guerra do que da capital de um país europeu.

Os coletes amarelos são um protesto de base (iniciado pelos condutores de camiões, daí os coletes), não-partidário, que começou como simples oposição à política ambiental de Macron e sobretudo à decisão do governo francês de aumentar os impostos da gasolina e diesel para financiar a compra de carros e casas mais amigas do ambiente. Tudo muito respeitável até aqui. No entanto, o protesto evoluíu dessa causa simples para algo muito mais alargado: uma revolta geral contra o aumento do custo de vida em França e o declínio dos serviços públicos (sobretudo na França rural e dos subúrbios). Tem sido muito comentado que os coletes amarelos são para Macron o que a guerra dos mineiros foi em 1984 para Margaret Thatcher, ou seja, o momento que fez a Dama de Ferro (na realidade, foram vários os momentos que a fizeram e ela soube também manobrar concessões, mas esse é tema para outra crónica). A questão é que a comparação não é real, o problema que Macron enfrenta é bastante mais sério e profundo.

Thatcher teve de resistir e combater a fúria dos mineiros durante um ano inteiro mas essa foi uma fúria localizada, ou seja, não houve adesão em outras indústrias ou na globalidade do povo britânico (que só queria estabilidade depois dos turbulentos anos setenta). O problema que Macron agora enfrenta é nacional e une pessoas de diferentes regiões, classes, profissões e até preferências partidárias. Os protestos não têm acontecido só em Paris: houve igualmente violentos confrontos em Toulouse, Bordeaux, Calais, Marseille, Nantes e em muitas outras cidades. Esta semana mais de cem liceus em todo o país foram bloqueados por estudantes que, entusiasmados pelos coletes amarelos, relançaram o protesto contra a reforma educacional em curso. Agricultores, trabalhadores de construção e até pessoal das ambulâncias também estão a ameaçar aderir ao movimento. Na face destes protestos o Presidente francês foi obrigado a um humilhante volte-face e o governo suspendeu o aumento do imposto planeado por tempo indeterminado.

No entanto essa suspensão parece ter tido efeito nulo. Este fim de semana aconteceram mais protestos por toda a França (um dos maiores contingentes policiais na História francesa está já preparado para todo o tipo de distúrbios e note-se que os próprios polícias franceses estão a declarar-se exaustos com todo este caos), no que é uma revolta contra Macron, o seu governo e sobretudo a concepção de país e de mundo que o Presidente representa: liberal, global, progressivo e verde. Os coletes amarelos são no fundo uma vastíssima tenda de descontentes. Eles são os deixados para trás e os desempregados. Eles são anarquistas, fascistas, comunistas e até nacionalistas cristãos. Eles são do Norte, Sul, Oeste e Leste. Eles querem ao mesmo tempo um corte substancial nos impostos e um aumento da despesa pública (uma quadratura do círculo impossível em economias endividadas como a francesa). O anúncio de suspensão do imposto não vale de nada porque o que este vasto grupo quer é a cabeça de Macron num prato (ou numa guilhotina, Revolution oblige) por ter tido o descaramento de tentar reformar a França. Ninguém se pode atrever atentar reformar La Republique. Tudo se torna ainda mais difícil porque ao contrário de um movimento, num protesto não há chefes ou personalidades com quem dialogar e chegar a um compromisso (como sucessivos governos franceses têm feito com os sindicatos). Aqui há  uma massa indistinta que cobre tudo desde moderados até elementos de violência extrema.

A tragédia disto tudo é que a análise que Macron fez desde 2014 (antes ainda de se candidatar à Presidência) aos problemas franceses e ao que a França precisa de fazer para os resolver é perfeitamente correcta. Ele é o primeiro Presidente francês em vinte e cinco anos a apresentar um plano claro e coerente para essa agenda de reforma. Por todas as maravilhas que a França tem (uma lista interminável que vai de um simples macaroon até à beleza perfeita de um pôr-do-sol na Côte d’Azur), o desemprego ainda continua a afectar mais de 9% da população (e uns escandalosos 20% dos jovens que deambulam pelas ruas sem nada para fazer) e o país gasta anualmente 715 mil milhões de euros no seu Estado-providência (57 por cento do seu produto interno bruto, comparado com uma média de 37 por cento no resto da União Europeia). Tudo isto enquanto basicamente o país não cresce ou cresce muito pouco. Junte-se a isto o facto de que os 1% mais ricos da França controlam 40% da riqueza nacional e a vasta maioria da população sente muito pouco ou nada a apregoada Liberté, Egalité, Fraternité

Macron conseguiu fazer passar até aqui uma ambiciosa (em termos franceses, note-se) reforma da legislação laboral, do ensino, dos correios, de até dos comboios. O problema é que a maior parte dos franceses considera o Estado-providência sacrosanto e à volta desse Estado criou-se uma verdadeira indústria de redistribuição de subsídios e ajudas que entra pela vida de cada família francesa. Milhões de franceses não são só resistentes à mudança, eles assustam-se apenas com a ideia de mudança, quanto mais com a prática da mudança. A revolta dos coletes amarelos é o hábito de protesto francês (com raízes antigas que vão até muito antes da Revolução francesa) e no fundo é um movimento de puro conservadorismo social. Antes o status quo que o desconhecido é algo profundamente francês (a própria Revolução de 1789 acabou na essência por preservar este institucionalismo estatal e daí a França nunca ter tido uma revolução liberal como a Inglaterra, a Alemanha e a Holanda tiveram, por exemplo).

O outro problema chave que Macron teve e não resolveu ao tentar mudar a França (e que, como alertei antes, pode ser-lhe fatal) foi a sua forma de comunicar essa mudança ao público. Macron adquiriu, desde o início do seu mandato, uma postura imperial, de grande reformador Jupiteriano que sabe tudo e é melhor que todos. O grau de distância e até indiferença em relação ao público e aos media ao longo deste ano e meio de governação foi, por exemplo, estarrecedor. Ora isso é fatal num país que tem apetite para mudança quanto mais num que genética e socialmente é averso a mudança.

Na comparação com Thatcher os analistas do mercado da opinião esquecem-se que a antiga primeira-ministra britânica começou devagar, muito mais devagar do que se diz por aí hoje em dia. Ela foi aprendendo (sobretudo nos dois primeiros anos de governo), escutando um número substancial de peritos quando as Falklands foram invadidas, fazendo concessões iniciais com os sindicatos mineiros (ao mesmo tempo que acumulava reservas nacionais consideráveis de carvão para os confrontos de 1984). Só bastante mais tarde na sua governação e quando os resultados se tornaram palpáveis (apartir de 1985) é que Thatcher adquiriu uma atitude imperial, o famoso there is no alternative. A outra coisa que Thatcher sabia fazer extraordinariamente bem e que Macron não sabe era explicar de forma muito básica, paciente e simples de entender ao cidadão comum porque é que o Reino Unido precisava de mudar. Macron evitou sempre fazer isso e encara esse tipo de pedagogia como um irritante, algo que é inferior ao seu cargo, quando devia ser a essência do seu cargo, sobretudo quando a ambição é de alterar substancialmente o modus operandi francês.

Macron começou pelo fim, ou seja, pela sua fase imperial. Agora está a andar para trás no que deveria ser o ciclo natural de um grande reformador, a acumular desculpas, derrotas, perdendo a autoridade que tem pelo caminho. O próprio facto de que o governo francês chegou a ponderar declarar o estado de sítio (contra os seus próprios cidadãos) mostra o quanto caíu a estrela do Presidente francês.Claro que tudo isto é mais perturbador quanto colide com o outro alicerce básico do programa Macron: o seu plano para a Europa. Com a líder de facto da União Europeia, Angela Merkel, de saída de cena, Macron era suposto tomar o seu lugar como defensor da democracia liberal e do ideal europeu.

O problema é que o poder que Merkel tinha na cena global vinha do seu total controlo da política doméstica e do facto da Alemanha ser um país, posto muito simplesmente, com a casa em ordem. Tanto o poder doméstico como a casa francesa estão tudo menos em ordem e todos os discursos que Macron faça sobre a ordem internacional (como o muito pomposo que fez no dia do Armistício) vão ter um efeito nulo. Pondo muito simplesmente, a França ainda não é credível a nível global para ditar o caminho que os outros vão seguir. Este vácuo de poder no centro da Europa está claro a facilitar o desagregar do projecto europeu num espectáculo muito pouco edificante que nos entra todos os dias em casa pelas televisões: os problemas italianos, a crise migratória, o Brexit, o pico populista nos países da Europa de Leste, a fraqueza económica geral e uma estrutura monetária mal concebida de raiz. A União Europeia não vai acabar, porque isso seria simplesmente caro demais para todos (a nível monetário, social e político) mas vai desagregar-se num corpo cada vez mais incoerente e sem força.

Visto neste contexto, apesar da imensa confusão constitucional e institucional que o Brexit criou no Reino Unido, pelo menos os políticos britânicos estão a debater abertamente elementos fundamentais da constituição britânica (desde a situação da Irlanda do Norte, a Escócia, o lugar do Parlamento nacional versus um Parlamento federal, onde reside o poder e quem decide sobre o quê). Por mais feio e turbulento que o processo seja está a ser feito no Parlamento britânico, uma instituição antiga, imperfeita mas funcional. A Regent Street em Londres não foi completamente destruída e a época natalícia prossegue em paz pelo país fora. Na França de Macron o futuro nacional vai ser, mais uma vez, decidido nas ruas, espera-se que sem um banho de sangue e terror como em 1789.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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