A Moda como ela é

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Nunca esquecendo as emulações de Baudrillard ou os esquemas de deceção de Lipovetsky que recentemente tivemos de enfrentar nas últimas idas às compras, uns mais deambulantes que outros precisamos de consciencializar que modas e modismos sempre existiram, nas lógicas de apropriação de comportamentos e maneiras de estar ou, não necessariamente no outro
 lado da barricada, em agentes ditando – mais ou menos conscientemente 
- o que seriam as tendências de moda. Depois da consolidação da sociedade de consumo iniciada em finais de séc. XIX e brutalmente assimilada nas grandes cidades americanas a partir dos anos 40, os rituais de mimetismo e inspiração em imagens ou simulações passageiras de correntes de pensamento estético foram até hoje mantidos por parte de franjas nas classes sociais mais atentas, interessadas e disponíveis. Fizeram escravos numa indústria que se tornou nas mais importantes para, hoje e em pleno séc. XXI, motivar as economias e paradoxalmente as destruir em grande escala. Se fizermos um recuo até aos anos em que inauguram os enormes armazéns para compras de roupa e acessórios – Selfridges em Londres ou Galerias La Fayette em Paris – não podemos deixar de pensar no carácter lúdico do tema. De qualquer forma, a roupa e a apresentação dos indivíduos torna-se sempre um factor básico no funcionamento da sociedade, embora se pense sempre em futilidade e exageros desnecessários, nenhum de nós poderá viver sem escolhas sartoriais e sem uma comunicação que converge nesse sentido. Não será por acaso que as maiores fortunas da Europa em crise pertenciam a homens por detrás dos negócios da moda. Sejam as grande linhas de escala muito global e acessível que contêm a presidência e 
posse do galego Armando Ortega na Zara ou de Stefan Persson para a sueca H&M, o oitavo homem mais rico do mundo. Ou os donos dos grupos como LVMH Moët Hennesy e PRADA Group, nos segmentos de topo em artigos de moda de alta qualidade, também dando cartas no grande poder destas empresas que movem não só milhões e milhões de euros, mas movem ainda mentalidades através da publicidade, das suas comunicações e manipulações da imprensa, falando destas últimas.

IMPRENSA EUROPEIA E AMERICANA

Entretanto a diferença entre as revistas de moda americanas e europeias é realmente subtil e assombrosa. Ao mesmo tempo que dos dois lados do atlântico se promovem descaradamente algumas marcas famosas e bastante caras, na Europa, e em especial Londres, há um gosto por desfazer aquilo que aparece nas semanas de moda e um atentado feliz à forma como devemos realmente usar a roupa. Já nos desfiles isso acontece quase sempre, dentro daquilo a que chamamos ‘styling’. Nas produções de moda, ou editoriais, – ou ainda como descobri recentemente se dizia no Brasil, ‘ensaio de moda’, há uma tendência para desconstruir os looks das passereles e fazer arte nas revistas. Foi isso que primeiramente me atraiu na imprensa da especialidade, que ao longo dos anos foi chegando a cada vez mais pessoas. Nos Estados Unidos, a britânica Anna Wintour, que estas mesmas marcas e toda a indústria da moda podiam continuar a temer com razão, vende  roupa e faz os leitores quererem chegar às lojas e comprar. Neste
 momento o mundo não quer suportar essa lógica e, afinal, os propósitos
 da imprensa Europeia sempre se mostraram mais interessantes e nobres.

Mas o futuro parece estar mais no segmento médio, na moda que cada um pode criar sendo criativo e mesmo assim estando adequado a todas as situações. Criadores desconhecidos ou lojas locais com produtos mais inesperados e manufacturados, por exemplo em Portugal, podem ser uma grande compensação para os novos consumidores, cada vez mais cansados de cadeias de lojas formatadas e desenhadas ao milímetro que têm nesses espaços um induzido epítome falso da própria moda. A moda do século XXI, e não estou a dizer nada de novo, é a liberdade de escolher de entre todas as opções das lojas, mesmo seguindo tendências. A alta moda tem agora necessidade de se reinventar para seguir caminho de entre a encruzilhada que se lhes apresenta neste momento. Ou reduzir os preços e democratizar ainda mais os seus universos correndo o risco de desgastar a sua reputação e imagem. Ou ficarem reféns de uma aura de luxo inacessível e voltarem a apostar na exclusividade e nos preços exorbitantes, para atraírem clientes especiais e assim voltarem a apagar a febre mundial que se gerou à volta da moda, e que tem tido repercussões bastante nefastas nalguns cartões de crédito.

De qualquer forma todos podemos concluir, que os textos de moda nas revistas e a possibilidade de editar imagens, não constituem por si uma obrigação nem uma imposição para fazer adquirir bens em estilo réplica do que está nas páginas de moda. Pode ser uma boa ideia ter um look completo de um designer, ou incorporar um coordenado de uma produção de moda, mas normalmente as pessoas procuram apenas desviar e desconstruir estas mesmas imagens. O mais importante será saber que o que a cultura de consumo não significa é a força para compras irresponsáveis nem falta de consciência ecológica. Embora um certo desprezo e um relativo desperdício pareçam às vezes ser sinónimo de conforto, quando se usam materiais opulentos ou desadequados das formas de produção que incluem, por exemplo, a não protecção dos animais, estamos a defraudar o verdadeiro sentido contemporâneo do espírito da moda. O lugar ao pluralismo na escalas de consumo merece um novo equilíbrio.

Ainda uma nota sobre um regresso ao utilitarismo como tendência, onde uma falta de atenção à moda gera um novo estilo, descontraído despreocupado e aparentemente menos vibrante. A verdadeira moda pede sempre seguidores das tendências numa certa uniformidade de estação para estação, e é disso que devo fazer bandeira, tanto por questões da indústria como pelo já referido carácter simbólico e de comunicação entre os usantes de moda. Se calhar já não voltará a fazer sentido que a moda seja tão democrática tal como temos assistido nos últimos anos. A ideia de que alguns de nós não terão acesso aos mesmos segmentos e aos mesmos graus de capacidade para usar o código do vestuário pode estar novamente presente.

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