Londres no Natal

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“You are now / In London, that great sea, whose ebb and flow / At once is deaf and loud, and on the shore / Vomits its wrecks, and still howls on for more / Yet in its depth what treasures!” P.B. Shelley

Quando se viveu mais de dezasseis anos em Londres como eu vivi, uma pessoa torna-se quase blasé em relação aos encantos de uma das metrópoles centrais do mundo. Não se trata mais de ver as típicas atrações turísticas (os Buckingham Palaces e as Torres de Londres deste mundo que eu, que me recuso a ver as cidades onde vivi de forma turística, nunca visitei), ou de ir aos milhares de museus, lojas, teatros, ou de aprender coisas básicas de viver em Londres, como evitar de qualquer modo a linha Central do metro entre as cinco e as oito da noite por pena de sufocamento. Há uma relação mais natural com a cidade: não tem de se acrescentar a pressa de ver tudo possível num curto espaço de tempo à pressa já natural de Londres. Há outro tempo, outro ritmo de quem já viveu aqui, já fez tudo o que havia para fazer aqui, já viu mil e uma metamorfoses da cidade e agora a pode gozar mais naturalmente.

Apesar disso o Natal em Londres exerce sempre uma fascínio particular, mesmo para quem vive ou já viveu nesta cidade. Esta é das poucas cidades do mundo (a par com Nova Iorque) que sabe mesmo viver os dois lados do Natal: a pura diversão e aspecto comercial da época, lado a lado com o significado simbólico. É tão mais relevante quanto, neste preciso ano, Londres se encontra em mais um ponto pivot de transição na sua longa história: o Reino Unido está prestes a saír da União Europeia (ou talvez não, dado que tudo ainda pode acontecer), a mudança estrutural mais significante no país e na capital em mais de quarenta anos.

A capital britânica foi sempre um ponto de cruzamento de pessoas, capitais, ideias, na maior parte dos casos porque foi regularmente mais aberta ideologicamente que o resto da Europa (foi assim que acolheu os Huguenotes, os protestantes franceses perseguidos na segunda metade do século XVI; milhares de indianos desde o século XVII: massas e massas de emigrantes judeus no século XIX e no século XX; árabes, asiáticos, russos, e europeus de leste durante as últimas cinco décadas). O Brexit é a primeira vez em que o Reino Unido entra deliberadamente num processo de retração comercial em relação à Europa. Para uma cidade como Londres cuja economia (só em si três vezes maior que toda a economia portuguesa) depende em 80% do comércio de serviços, o Brexit é um desafio fundamental. No entanto, esta é uma cidade que se reinventa constantemente: só nas últimas seis décadas foi Blitz, cinza pós-guerra, Swinging London, punk, yuppie, Cool Britannia, bilionnaireland, numa sucessão de metamorfoses de cortar a respiração. O futuro ditará o que será a nova Londres pós-Brexit, para já a cidade está numa onda eco-fitness (os clubbers dos 90s acordam agora às 6 da manhã para irem ao spinning e bebe-se kale e açai, não vodka).

Neste Natal continuam abertos milhares de restaurantes (e dezenas de novos abrem todas as semanas), lojas que sabem fazer comércio com montras apelativas e serviço ao cliente irrepreensível, hotéis cheios de turistas, decorações sumptuosas por toda a cidade (particularmente no eixo central de Regent Street, Oxford Street e Mayfair). Há cânticos de Natal na rua em todo o lado: à saída do metro, em praças, dentro de igrejas e catedrais (desde a muito conhecida Catedral de São Paulo, até jóias menos conhecidas mas não menos impressionantes como St Martin-in-the-Fields ou a Southwark Cathedral).

Há o patinar no gelo de Somerset House que deve ser a experiência mais gloriosa que se pode ter em Londres no Inverno. Há mil e um mercados de Natal com mulled wine (vinho quente). Há livrarias cheias de livros novos sobre todo o tipo de tópicos possiveis de todos os cantos do globo. Há festas de Natal: de advogados, notários, comerciantes, start-ups, banqueiros, jornais, companhias de relações públicas. Os sectores de actividade são diferentes mas todas as festas de Natal envolvem um completo pôr de lado de toda a reserva britânica, muito cantar enibriado em cima de mesas de restaurantes e muitas Bridget Jones que encontram o seu Mister Darcy ou vice-versa. What happens at a Christmas Party always stays at a Christmas party em Londres. Há sempre voltar para casa através da ponte em Embankment e parar a meio para ver toda a cidade iluminada. No teatro há mil e uma pantomimas. Há bailado na Royal Opera House e mais um deslizar para a santa trindade de compras, comida e amigos em Covent Garden. Há também a esperança de que caia um nevão que torne o cenário ainda mais Technicolour, mais Natal. Há também sem-abrigos, pedintes, que nunca se queixam, ali na rua a verem esta valsa humana de vaidades. Tudo isto funciona como se fosse coreografado, qual retrato da humanidade em movimento, mas nunca sem se atropelar, Londres é um caso-exemplo em como organizar lugares públicos.

Por isso, se vai a Londres neste Natal, aqui ficam algumas recomendações, saíndo um pouco da onda da rota turística tradicional:

Para dormir: o Ham Yard Hotel (com design excitante de Kit Kemp), a Chiltern Firehouse (na base do hotel fica o restaurante, reservado meses em avanço e poiso regular de Kate Moss, Naomi Campbell e toda a beautiful London), o The Ned (nove restaurantes, quinze bares, um spa, duas piscinas e um clube privado num edifício imponente que custumava ser sede do Midland Bank) ou o The Curtain (Shoreditch). Para absoluta decadência majestática o Claridge’s (que tem a melhor árvore de Natal de Londres, este ano cortesia da Diane von Fustenberg), o super-confortável Connaught ou o novo Corinthia Park Hotel (onde a suite mais cara tem o seu próprio spa privativo, comme il faut).

Bairros para passear: se procura o novo cool de Londres, Shoreditch e Hoxton já passaram do seu zénite há bastante tempo. Agora os young cool kids andam por Dalston, Peckham e Tottenham e com eles trouxeram galerias de arte, bares, restaurantes, lojas. No lado luxo a Mount Street em Mayfair continua a ser provavelmente a rua mais apetecível da Europa e pode dar sempre um pulo ao pé à New Bond Street (nem que seja só para ver a fabulosa loja da Asprey). Claro que acabará por fazer a Regent e Oxford Streets mas evite ao máximo passar por lá ao fim de semana. Na parte central de Londres, Bloomsbury está a voltar em voga e Kings Cross (tradicionalmente um sítio só para prostuição e ravers) ressuscitou com novas praças, lojas, galerias de arte e uma estação de comboio recuperada primorosamente. Little Venice e Primrose Hill continuam a ser bairros que os turistas ignoram e ainda bem: constituem autênticos postais de onde nunca apetece saír.

Para comer: aqui trata-se do equivalente a escolher um só diamante numa loja da Tiffany & Co. Apenas nos novíssimos restaurantes há o Marcus (Belgravia), Kim’s (City), Club Gascon (Smithfield), Five Fields (Chelsea). E claro, merecendo uma menção especial, o novo Brasserie of Light, um restaurante e bar dentro dos armazéns Selfridges (outro ponto inevitável de romaria), cuja atracão central é uma estátua de cristal de Pegasus criada especialmente pelo fantástico Damien Hirst. Nos restaurantes clássicos tem o maravilhoso St.John (Farringdon), Core by Clare Smith (Notting Hill), o Ivy (a versão original, no West End). Para os obcecados com o lado mais trendy há a Isabel (Mayfair).

Para comprar: se há cidade em que pode encontrar qualquer compra de Natal é Londres. A Liberty continua a ser a minha preferida para prendas especiais. Para livros qualquer coisa na Daunt Books, Book Art Bookshop ou Libreria. Para o melhor em moda o Dover Street Market, a eterna Browns, as fantástica lojas do Paul Smith e do Ralph Lauren (que mais parece um clube dos anos 20) ou qualquer fato em Saville Row (sobretudo no brilhante Richard James). A Fortnum & Mason continua a valer o peso em ouro (ou melhor libras) de qualquer coisa que vende. Na Blackout II encontra o melhor vintage de toda a cidade, na Charlotte Olympia os sapatos de senhora mais elegantes e na Conran Shop o melhor mobiliário.

Para ver: no teatro o show Hamilton veio directamente de Nova Iorque para dominar o West End. A aproximação irreverente à história da independência americana (via hip-hop musical) conquistou Londres e já só se conseguem bilhetes a partir de Abril. No Vaudeville Theatre podem encontrar a adaptação de True West de Sam Shepard com Kit Harington, famoso pelo Game of Thrones, mas muito melhor aqui. O prodigioso Mark Ravenhill regressa com The Cane no The Royal Court Theatre. No que diz respeito a exposições, Turner Prize (Tate Britain), Space Shifters (Hayward Gallery), Votes for Women (Museum of London) e Mantegna and Bellini (National Gallery) são todas absolutamente incontornáveis.

Para beber: o Inverno exige um tipo de bar confortável e mais em registo cocooing e Londres está de momento cheia deles. Recomendo o Moet & Chandon Winter Terrace (Belgravia), o Lady Celeste’s Rooftop Bar (Queen of Hoxton, Shoreditch), o Skate Lounge da Somerset House e para pura indulgência o 45 Jermyn St (St.James’s). Para pubs tradicionais não perca uma visita ao The Churchill Arms em Kensington que, no Natal, se torna o pub mais decorado em todo o Reino Unido.

Para dançar: Londres já não está numa atitude tão clubbing como nos anos 90. No entanto, há coisas interessantes a acontecer, como a re-aparição do clube secreto, quase incógnito e só para aqueles in the know (um pouco como o Frágil era nos eighties). O After All (Soho) foi pioneiro nesta “nova” moda: não tem número, nem porta, nem endereço no Google, só pode ser encontrado se seguir as letras “a a” escritas na parede da rua. Outro clube nesta onda é o Aristocrat (Mayfair), talvez com a entrada mais restrita de toda a Londres de momento, atraíndo a nata do mundo artístico. Numa onda mais easy há o Omeara (London Bridge), com uma programação constante de concertos e DJs ou o muito divertido Mousetrap Psychadelic Allnighter no clube Orleans. Eu, como snob aesteta que sou, fico-me pelo Annabell’s, de preferência a ler Keats.

Seja qual for a opção, no Natal ou noutra parte do ano, Londres continua magnífica. Claro que extraordinariamente cara e stressante para os que cá vivem, mas, para os que já deixaram de viver aqui (como eu) ou para os que apenas visitam, é como entrar numa daquelas pastelarias fantásticas com a maior diversidade de bolos possíveis e não saber escolher. Em Londres o problema não é a escolha mas a indigestão. Enjoy!

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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