Dizem que é um país

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Local onde a Proteção Civil suspeita que várias pessoas poderão ter ficado submersas numa pedreira na zona de Borba, depois de uma estrada ter abatido, Borba, Évora, 20 de novembro de 2018. O deslizamento de terras para a pedreira provocou, pelo menos, dois mortos, mas as autoridades desconhecem, para já, o número de pessoas desaparecidas. NUNO VEIGA / LUSA

Ontem, caiu uma estrada e morreram pessoas por incúria. Não há poesia que disfarce a realidade. Três veículos – uma retroescavadora e dois automóveis  –, foram arrastados para o fundo de uma pedreira numa estrada que mais parecia uma ponte num desfiladeiro – seis metros de largura por pouco mais de 100 de comprimento. Olhamos para as imagens e interrogamo-nos de como é que é possível aquela “estrada” continuar a uso.

O deslizamento de terras na pedreira em Borba foi a causa da estrada abater, mas o motivo para as terras cederem foi a negligência. Até agora, estão contabilizados dois mortos mas as autoridades desconhecem número de pessoas desaparecidas. A Procuradoria-Geral da República abriu um inquérito, o Presidente da República correu para o local e o povo espera que a culpa morra solteira, tudo normal.

Horas depois do acidente, a verdade surgiu à superfície do lodo. O primeiro alerta tem quatro anos quando foi pedido pelos empresários das pedreiras à câmara municipal de Borba o corte da estrada municipal que ligava duas pedreiras, uma delas já desactivada, e até foram apresentadas alternativas à circulação rodoviária. Nada foi decidido ou feito.

Horas depois da tragédia, António Anselmo, presidente da Câmara Municipal de  Borba, declarou estar de “consciência tranquila” e que a estrada era “perfeitamente segura”.

Relembro o triste caso da queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001 que culminou na demissão de Jorge Coelho, na altura ministro do Equipamento Social. “A culpa não pode morrer solteira“, diria. Na sequência da demissão do ministro, caíram também quatro secretários de estado – Obras Públicas, Habitação, Transportes e Administração Portuária.

16 anos depois da tragédia de Entre-os-Rios, o país enfrentou os incêndios de 2018 que resultaram na morte de 65 pessoas na região de Pedrógão Grande. António Costa segura a ministra da Administração Interna, e foi necessário uma forte contestação e mais incêndios e vítimas até que a ministra desocupasse a cadeira. Parece que ao longo do tempo a responsabilização por falhas no governo desvaneceu ao ponto de António Costa ter afirmado “ser uma infantilidade” pedir a demissão da ministra. Uma infantilidade. Ontem começamos com as declarações infantis do presidente da câmara municipal de Borba. Marcelo Rebelo de Sousa, ao contrário do que é habitual, entrou e saiu da pedreira mudo. Faltou a água para dar um mergulho como uma criança e umas selfies com os familiares das vítimas. Deve ser isto o tal país real que me falam muito mas eu só vejo paisagem.

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