100 anos da Grande Guerra: a lição terrível de 1914-18

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“We are not youth any longer. We don’t want to take the world by storm. We are fleeing. We fly from ourselves. From our life. We were eighteen and had begun to love life and the world; and we had to shoot it to pieces.” Erich Maria Remarque,  All Quiet on the Western Front

Quem já tenha visitado os grandes cemitérios militares da Europa, de Tyne Cot a Verdun, de Etaples a Brookwood não pode deixar de ficar emocionado com a quantidade de militares jovens que morreram na Primeira Guerra Mundial ou Grande Guerra como ficou conhecida. Filas e filas de adolescentes com dezassete, dezasseis, quinze, até catorze anos apenas, mortos em combate. Mulheres e namoradas e mães e amigos que ficaram para trás. Filhos recém-nascidos (como o meu avô) que nunca chegaram a conhecer o pai. Sangue nas trincheiras, nas ruas, nos campos de papoilas da Europa.

Hoje celebra-se pela centésima vez o Dia do Armistício. A celebração é quase global (particularmente comovente em Londres em frente ao Cenotaph) e marca o cessar-fogo dessa Grande Guerra. Este cessar das hostilidades entre os Aliados e a Alemanha foi declarado na frente ocidental, em Compiègne, à décima primeira hora do décimo primeiro dia do décimo primeiro mês de 1918. O Armistício inicialmente durou 36 dias e o tratado formal de paz que marcou de facto o fim da guerra só foi assinado em Versalhes em Junho de 1919.

Uma lista recente dos cem mais importantes acontecimentos do século XX na CNN deu à Grande Guerra o oitavo lugar. Isto é um grande erro. Tudo o que aconteceu no resto do século XX foi de uma forma ou outra o resultado da I Guerra Mundial e a lista é quase infinita: a Revolução Bolshevik na Rússia, o fim do czarismo, a emancipação feminina, o sufrágio universal, a emergência das ditaduras no sul da Europa, o nazismo, o Holocausto, a bomba atómica, a Grande Depressão, o colapso do colonialismo europeu, a Guerra Fria e até a União Europeia – tudo pode ser traçado directamente à Primeira Guerra Mundial.

Poucos outros acontecimentos como a Grande Guerra revelaram a imprevisibilidade do futuro. No começo do século XX a maior parte dos europeus olhava com optimismo para um futuro de paz e prosperidade. A Europa não tinha experimentado uma guerra em larga escala em cem anos. As capitais centrais estavam no apogeu da sua criação artística e ideológica: em Paris vivia-se a Belle Époque, em Viena tudo se discutia e ensaiava, em Londres mostrava-se a tecnologia mais avançada do mundo. O futuro era promissor. Mas toda esta crença no progresso humano, na bondade colectiva e individual foi estilhaçada em 1914 quando a guerra começou. Convém primeiro lembrar que esta foi uma guerra que quase ninguém quis ou esperou. E de facto a qualquer ponto durante as cinco semanas que levaram ao eclodir do conflito este podia ter sido impedido, não fosse uma série de falhas de comunicação e entendimento entre as potências-chave e até problemas familiares (o Kaiser alemão Guilherme II tinha desde criança um complexo de inferioridade neurótico em relação aos seus primos: o britânico George V e o czar Nicolau II).

Mas, mesmo quando a guerra começou, ninguém esperava que tivesse a magnitude ou a duração que teve. Famosamente no Times de Londres escrevia-se que esta guerra “irá durar uma semana, um mês no máximo”. No início, os diversos exércitos ainda usavam pombos para transferirem mensagens e mais de um milhão de cavalos para transporte. Apenas quatro anos depois, quando a guerra acabou, tinham-se inventado e desenvolvido os tanques, submarinos, aviões militares, metralhadoras e gás venenoso. Em 1918 os alemães já usavam bombas que continham uma mistura de gas lacrimogéneo e cloro contra os ingleses: o gás obrigava os soldados nas trincheiras a removerem as suas máscaras e o cloro derretia as suas faces, acabando por os deixar ali mortos e irreconhecíveis nas valas comuns.

Poucas batalhas ilustram melhor a brutalidade absurda da Grande Guerra do que a batalha do Somme, em França, em 1916. No final da batalha (ainda hoje a mais sangrenta em toda a história do exército britânico), lutada sobretudo dentro de trincheiras claustrofóbicas, mais de um milhão de soldados tinham sido mortos ou feridos. A conta total de fatalidades ao fim dos quatro anos de conflito é estarrecedora: dos 60 milhões de soldados europeus mobilizados, 8 milhões foram mortos, 7 milhões ficaram permanentemente incapacitados e 15 milhões seriamente feridos. Países como o Reino Unido, Alemanha, Áustria, Hungria e França perderam mais de 20% de toda a sua população masculina activa, assim num sopro de insanidade colectiva. Em 1919 havia em França 15 mulheres para cada homem, tal fora a razia dos quatro anos precedentes. Para tornar tudo ainda pior a terrível epidemia da gripe espanhola (que teve origem nos quartéis militares) eclodiu em 1918 e até 1920 causaria 100 milhões de mortos em todo o planeta. O desastre (e sobretudo as resoluções e tratados que se assinaram para assinalar a paz) teve um profundo impacto social, político e económico pelo resto do século XX.

A nível social a Grande Guerra foi de facto a verdadeira revolução que alterou toda a estrutura e regime de relações sociais na Europa e não a década dos anos 60 como reza o mito (Maio de 1968 foi um jantar num convento em comparação com 1914-18). Primeiro que tudo, o número extraordinário de homens destacados e depois mortos nesta guerra levou a que, de repente, todas as profissões tivessem de contar com um afluxo maciço de mulheres trabalhadoras. Desde jornais, bancos, tribunais, fábricas, teatros, portos, agricultura, foram as mulheres que garantiram a continuação da actividade económica em todos os países envolvidos. Se é verdade que depois de 1918 uma porção destas mulheres voltou ao papel tradicional de mãe e cuidadora de casa, na realidade, a guerra estilhaçou por completo os códigos machistas da sociedade. Foi sobretudo pelo esforço demonstrado na guerra que, após décadas de luta, as sufragistas conquistaram finalmente o direito de voto feminino (no Reino Unido em 1918 e na Alemanha em 1919). As mulheres tinham provado, de uma vez por todas, que eram indispensáveis ao fabrico social e a partir daí nunca mais viram os seus direitos negados pela oligarquia masculina. A própria moda feminina reflectiu esta mudança radical: para o ar (ou para a gaveta) foram os espartilhos da era vitoriana e em vez deles apareceram as flapper girls ou as garçonnes que tanto marcaram os anos 20. A moda feminina nunca mais olhou para trás guiada por visionárias como Coco Chanel e Elsa Schiaparelli.

A outra grande consequência social da guerra foi o completo declínio da tradicional ordem aristocrática, um pouco por toda a Europa (mas com especial relevo em Inglaterra, Alemanha e Rússia). Os varões das classes aristocráticas que tiveram a sorte de sobreviver ao combate voltaram a casa e encontraram países em total estado de fluxo social, onde o seu lugar já não era automaticamente assegurado. Acelerando ainda mais esta transformação esteve o facto de que as classes altas e aristocráticas sofreram proporcionalmente mais mortes em combate do que qualquer outra classe– isto significava que não era mais possível voltar ao status quo do pré-guerra. O filho do primeiro-ministro e de metade dos ministros do governo britânico morreram na guerra e o mesmo se aplicou a inúmeros descendentes de dinastias da indústria e finança por toda a Europa.

Mas mais do que as mortes dos herdeiros foi outro fenómeno paralelo que erodiu por completo a estrutura social: nem os soldados que voltaram da guerra, nem as recém-liberadas mulheres, queriam voltar a trabalhar em grandes casas aristocráticas. A antiga classe operária queria independência e isso levou à eclosão do movimento sindical e socialista com uma tal intensidade que, por exemplo, o governo britânico tinha um plano secreto de emergência preparado para uma guerra civil em 1919. Este proletariado nao ia pura e simplesmente voltar a ser criado ou merceeiro. O resultado para a aristocracia foi que o seu estilo de vida se tinha tornado insustentável: cerca de dois terços das propriedades aristocráticas em Inglaterra foram vendidas nos cinco anos a seguir ao Armistício (sobretudo a novos-ricos americanos, os novos donos do mundo) e essa antiga aristocracia viu-se forçada a juntar-se ao mundo do trabalho como todos os outros mortais.

O impacto político foi ainda mais vasto e de um só sopro alterou o mapa de continentes inteiros. Se até 1918 só havia três grandes impérios continentais europeus (Alemanha, Rússia e Áustria-Hungria), esta ordem foi substituída repentinamente no Tratado de Versalhes pelo princípio de fronteiras baseadas na etnia, o que provou não só ser utópico como a base para a II Guerra Mundial vinte anos depois. O maior dos “novos” países foi a Polónia que tinha desaparecido do mapa durante 123 anos (depois de ter sido dividida pelos grandes impérios em 1795). A consolidação do seu território envolveu lutas com alemães, ucranianos, checos, lituanos e russos e só foi concluída em 1923. A Polónia que nasceu estava rodeada de inimigos, o que se viria a tornar fatal e a continuar ininterruptamente até 1990. A paz na Europa só durou clarou até 1939: o Tratado de Versalhes foi um exercício fútil em humilhação para os alemães, obrigando-os a pagarem a totalidade dos danos causados na guerra o que criou uma crise hiperinflacionista que levou ao aparecimento do nazismo (recomendo ler o fantástico The Economic Consequences of the Peace do Keynes, mesmo para quem, como eu, nao é keynesiano). A Europa só se viria a reencontrar depois do Holocasuto já na parte final dos anos 50 com o surgimento da Comunidade de Carvão e Aço (mais tarde União Europeia) cujo objectivo essencial era evitar mais outra carnificina no continente por via de uma contenção pacífica da Alemanha.

Não menos radicais foram as consequências no Médio Oriente. A derrota do Império Otomano, que tinha estabilizado a região até aí, levou o Reino Unido e a França a desenharem fronteiras mais ou menos arbitrárias por toda a região, que, ironia das ironias, estão agora lentamente a reverter ao que eram até 1918. O acordo de Sykes-Picot em 1916 dividiu o antigo Império Otomano em zonas de influência britânicas e francesas ao que se seguiu a declaração de Balfour em 1917 em que os britânicos se comprometeram a criar uma casa para os judeus na Terra Santa, levando à fundação de Israel em 1947 e ao conflito sem solução aparente com os palestinianos. Os fazedores de mapas coloniais pouco ligaram a diferenças étnicas, sectárias e tribais: famosamente o estado da Jordânia foi criado em 1921 por Churchill num guardanapo depois de um almoço faustoso no Cairo. O Iraque foi o produto de idêntica imaginação a régua e esquadro através da junção de três regiões do antigo Império Otomano, dominadas respectivamente por sunis, shiitas e curdos. O Líbano foi separado da Síria e por aí fora. O resultado deste exercício em pura arbitrariedade geográfica durou até hoje: não é por acaso que o objectivo supremo da ISIS é criar um novo califado (o modelo que existia até 1922 na região).

Mas claro que a maior mudança política foi o colapso do regime czarista na Rússia e o aparecimento de um regime marxista-leninista, inspirado nos ideais do comunismo, que iriam depois marcar a história ideológica de todo o século XX desde a Europa de Leste até à Ásia. Apesar de um pico de patriotismo no início do envolvimento russo na Grande Guerra, o czarismo já estava podre (ignorando os desejos de reforma de uma classe média nova). Quando o czar Nicolau II, para ir liderar as tropas, deixou a esposa Alexandra (que era alemã) ao comando da nação a paciência dos russos esgotou-se. Não ajudou em nada o facto de que Alexandra estava sob a influência do bizarro Rasputin e vivia num total isolamento. O resultado foi que, numa questão de meses apenas, Nicolau perdeu os seus maiores apoiantes, a classe aristocrática, que se aliaram à classe média para pedir reformas constitucionais. Tudo depois evoluiu extraordinariamente depressa e em Outubro de 1917 a Rússia tinha a sua revolução bolshevique e o resto, como se diz, é História.  Economia planificada, dirigismo estatal, Guerra Fria, Cortina de Ferro, até à China actual.

O impacto da Grande Guerra na Europa do Sul não foi menor e levou regra geral à nascença dos movimentos fascistas que viriam a dominar o Mediterrâneo apartir de finais da década de 20. Portugal foi um exemplo claro disso. A I República portuguesa já era débil antes da entrada na guerra: os governos mudavam constantemente, as bancarrotas eram anuais, e o país vivia num estado de absoluto caos e miséria civil. A Grande Guerra só veio acelerar a decomposição da República: quase duzentos mil homens portugueses foram a combate, dez mil soldados morreram e milhares foram feridos (sobretudo na desastrosa batalha de La Lys), além dos custos económicos gravemente superiores à capacidade nacional. A instabilidade política acentuar-se-ia até à queda do regime democrático em 1926. Salazar apareceu como a salvação nacional para este caos e seguiram-se quarenta e oito longos anos de rigidez e isolamento ditatorial.

No fim deste turbilhão de mudanças os verdadeiros vencedores da Grande Guerra foram os Estados Unidos. É importante recordar que até 1917 a América era um poder emergente mas profundamente local: não controlava a economia global (esse papel pertencia ao Reino Unido) e não intervinha militarmente fora de portas. Os Estados Unidos entraram na guerra de forma muito relutante mas acabaram por emergir dela numa posição muito mais forte do que as outras nações, porque não sofreram nem a carnificina humana nem o colapso industrial das grandes potências europeias. Quase que de um dia para o outro, a partir de 1918, os Estados Unidos tornaram-se o maior poder financeiro e o maior credor global, duas condições essenciais para serem a única super potência global. O Império Britânico estava acabado (outra consequência da guerra foi o descontentamento das colónias com o número de mortes de soldados seus em combates e uma luta cada vez mais intensa pela auto-determinação, que iria culminar nas descolonizações dos anos 50, 60 e 70). O século americano começava e iria durar mais ao menos até 2001, altura em que a ascensão da China se tornou imparável.

Mas, sobretudo, a Grande Guerra introduziu algo novo no espírito colectivo da velha Europa: o cepticismo em relação ao progresso e à condição humana. Acordar para este nível de brutalidade e crueldade exigiu o que Hannah Arendt denominou como “a capacidade para confrontar a morte em massa de frente, sem recurso à muleta do optimismo”. A Europa descobriu, nessas trincheiras sangrentas, nessa guerra de atrição interminável, a única forma possível de compreender a Modernidade: um pessimismo subjacente e uma aversão visceral ao perigo e à desordem, algures entre a esperança e a desilusão. Os americanos pelo seu lado continuaram a acreditar (pelo menos até ao 11 de Setembro de 2001) que o progresso era parte inerente, um dado adquirido da História. A maior parte dos europeus, com excepção dos marxistas, enterrou esta noção mal a Grande Guerra começou. Nós, os que vivemos agora em tempos de um nacionalismo novamente crescente, devemos honrar a coragem dos que combateram e manter esta lição de cuidado e moderação viva.

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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