Ana Rita Bessa. Paixão pela educação e por outras coisas.

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Ana Rita Bessa, deputada do CDS desde 2015, quando nos encontrámos para uma conversa nas redondezas da Assembleia da República, mostra de imediato que não sofre de egocentrismo. Sabendo do meu interesse pelos assuntos das mulheres, trazia para mim um artigo da The Atlantic, Why Women Still Can´t Have it All. E os seus primeiros comentários são sobre o meu trabalho. Vamos parar ao texto que escrevi para o Observador sobre o acórdão do Tribunal da Relação do Porto determinando pena suspensa para os violadores de uma rapariga inconsciente, entre outras observações questionáveis. Ana Rita Bessa manifesta incredulidade (quem não?) por aquele resultado judicial e preocupação pelo que significa.

Ana Rita é estruturada e cedo se nota em qualquer conversa uma ponta de originalidade e uma corrente subterrânea de humor. Que não se materializa em piadas nem em ironia ou sarcasmo, mas numa maneira elegante e depurada de se expressar, pontuada de qualificativos e expressões improváveis.

Educação

Depressa seguimos o rumo acertado e falou-se muito de educação. Os temas prediletos da deputada do CDS são a autonomia das escolas e a personalização do ensino adequando-o aos alunos. Mas estas paixões não são partilhadas por todos os que determinam a política de educação, constata em modo de alfinetadas suaves.

É que, critica Ana Rita, quase entre suspiros, a educação é estrutural, mas mais no discurso do que na prática. No mundo dos factos duros, não é uma prioridade, vem muito depois das finanças ou da economia. ‘Hoje em dia, no Parlamento, quando falamos de educação falamos de assuntos laborais, falamos essencialmente de direitos de classe, mais do que de educação de facto’. Discutem-se ‘os professores, os direitos dos professores, um conjunto de questões ideológicas nas quais se encaixam as ferramentas de avaliação, o modelo de organização das escolas – que os partidos de esquerda chamam de organização democráticas das escolas -, são estes os temas de agenda muito antes de chegares a temas como o insucesso escolar e como o tratas, educação inclusiva, dimensão das turmas, centralismo versus poder às estruturas locais, participação dos pais, os doze anos de escolaridade obrigatória e porque continuam a estar organizados em ciclos cretinos’.

Este pendor ideológico é ainda mais marcado nesta legislatura, não deixa de referir afiadamente a deputada do CDS. Em todo o caso, a convicção de Ana Rita é a de que ‘não é o Parlamento o sítio para transformar o ensino, nem o governo, nem a legislação’. Há necessidade de envolvimento político ao nível da formação dos professores – ‘num mundo em que é  certo que vai ser tudo um bocado incerto’, é como quem diz preferencialmente para o século XXI, não para o século passado, como ainda são formados, nota – e para ‘levar as pessoas certas para a carreira de professor’. Porém, fora isso – e vem aí a defesa enfática da autonomia das escolas – Ana Rita recomenda ao governo ‘sair de cima das escolas’ Devemos ‘deixar as escolas trabalhar, deixá-las errar de vez em quando’.

 

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Vislumbra ‘na maior parte das escolas a verbalização de uma vontade de autonomia, mas não há capacidade de levar à frente essa vontade’. Ao fim de tantos anos de centralismo, as escolas ‘estão sempre à espera que o ministério diga o que fazer’. Em todo o caso, ‘as escolas que questionem isto e tenham uma boa liderança, fazem a diferença’. Mas para este bom resultado também é preciso ‘quase uma conjugação mágica numa escola: um bom diretor e um conjunto de professores muito motivados que não se vão embora no ano a seguir.’

Nem só de temáticas dos professores vive a autonomia das escolas. ‘Acho interessante o conceito e a prática de gestão de uma escola’ – ou não viesse Ana Rita do mundo da gestão de empresas (já lá vamos). Inveja para a educação o que se fez e faz no setor da saúde, onde vê uma ‘maior permeabilidade ao setor privado’. E, claro, uma aceitação mais serena da autonomia de gestão. Dá o exemplo das USF, que melhoraram a qualidade de serviço prestado, a satisfação dos médicos e até financeiramente se portam melhor. ‘Porque não se transfere para a educação este princípio, é um mistério’, desabafa. Lá está, é o poder dos sindicatos, o discurso dos direitos dos professores. Lamenta que as questões sindicais, legítimas, absorvam tanto tempo na discussão da educação: ‘não há semana em que não receba um sindicato. E sou o CDS’. O resultado? ‘A autonomia nasceu ao mesmo tempo na saúde e na educação, mas na saúde fez todo um caminho. Na educação nunca se toca na autonomia em se tratando de professores’.

Pelo menos para a escola inclusiva este ministério fez um bom caminho, concede sem esforço Ana Rita. Na flexibilização curricular, o mesmo. Explica, com alfinetada: ‘no ministério não há só o ministro, de quem não faço uma boa avaliação de desempenho, claramente, mas há também gente que pensa bem.’ A deputada aprova ‘novas formas de pensar num ensino mais personalizado’ (por onde o ministério da educação tem ido, de resto). E, neste momento, falámos as duas dos novos métodos pedagógicos que os colégios jesuítas têm implementado em Barcelona e na América Latina.

Se é essencial garantir que ‘nenhum aluno fica abaixo de uma fasquia considerada razoável’, ao mesmo tempo deve-se permitir que alguns alunos ‘voem’: ‘há miúdos que numa áreas vão muito mais longe que outros’. ‘Na esquerda acredita-se numa certa ideia de normalização’. Em suma, para Ana Rita: ‘temos de nos ater menos a métricas tão fechadas como o número de palavras lidas por minuto, mas ater-nos mais a construir um curriculum que permita um aluno ir até ao seu máximo. Um aluno pode não ler tantas palavras por minuto mas entende perfeitamente o que o texto diz, outro pode ler mais palavras mas não conseguir entender’. Cada aluno tem as suas valências.

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E as outras coisas

Não são os shortcomings do setor da educação os únicos que vê na atividade política. Ana Rita nota nela ‘falta de autenticidade’ e excesso de dramatização, que resulta em posições extremadas e consensos dificultados. Algo que a surpreendeu ao iniciar-se como política eleita: ‘quando íamos para o plenário as posições eram tremendamente dramatizadas. O plenário é um espaço de dramatização política.’ Por isso supôs que as comissões seriam os locais onde se discutiam de facto os assuntos – e são, mas como são filmadas também são dramatizadas. ‘Onde se é mais autêntico e se conseguem mais pontes é às escuras, nos corredores, nas reuniões.’ Perante as câmaras de televisão, o que cada deputado faz é apenas ‘falar para o seu eleitorado’. ‘O escrutínio da filmagem tem este efeito perverso. Os deputados mais antigos são os primeiros a afirmar isso.’

Também inquieta Ana Rita Bessa o excessivo enfoque nos conflitos de interesses se se tem profissão além da política. Prefere pessoas que não dependam da política: ‘se não preciso disto dá-me liberdade para tomar certas posições.’ Podemos estar a caminhar para um tempo em que os deputados são ‘mais limpos em termos de interesses mas menos livres’.

Liberdade é um tema importante. Isso e o espírito de serviço e de missão. O salto para um cargo político high profile foi abrupto. Dois dias antes de fecharem as listas eleitorais para o Tribunal constitucional, Paulo Portas convidou-a para constar nelas e deu-lhe quarenta e oito horas para decidir. Não pensou. Se tivesse pensado teria dito que não. ‘Disse que sim e depois fui saber’. Um ‘salto de fé’. Não imaginava que ‘mais do que aceitar um trabalho, estava a aceitar e a descobrir uma vocação.’

Ser deputada é uma ‘missão’. ‘Se fosse só um trabalho já me tinha ido embora. O salário é péssimo, as horas de trabalho piores que más, o escrutínio é horrível. Não tem glamour nenhum, sobretudo se tratas da educação.’ Nada que se compare com os colegas dos negócios estrangeiros ou dos assuntos europeus – ‘os que tratam dos assuntos elevados na cadeia alimentar da política’ – que viajam amiúde para Bruxelas e outros locais glamourosos. ‘Para mim é Fornos de Algodres, Águeda. Vou no meu carro. Pago as minhas despesas.’ O tom não é de queixume. É mais de subtil diversão por se deleitar tanto com estes locais e esta atividade prosaica.

Ana Rita é católica, com uma fé jesuítica – o que se nota a léguas para quem está habituado a este tipo de fé e às terminologias que usa (é o meu caso). ‘É uma fé arejada. Traz a jogo uma dimensão de serviço, incluindo a tua capacidade de pensar. Capacidade de pensar com alguma grau de progressismo. Não ter medo de ter um papel transformador. Com frontalidade mas sem conflitualidade.’

Já havia sido esta tentação para a tal dimensão de serviço que a levou em 2008 a arriscar e despedir-se da empresa onde trabalhava. ‘Nessa altura as pessoas ainda se podiam despedir. Estava cansada de trabalhar para o acionista longínquo e distante.’ Com vontade de ‘por a render as capacidade de gestão, mas numa área mais social’. Aconselhada por Maria José Nogueira Pinto (com quem foi falar sem conhecer), e outras pessoas, terminou indo trabalhar para a EPIS – Empresários Pela Inclusão Social, e foi aí que se iniciou nos temas da educação.

Mais ou menos ao mesmo tempo envolveu-se no Movimento Esperança Portugal. A linha humanista que enformou este projeto político ainda lhe agrada. Mas também se descreve como democrata-cristã e até liberal. Ah, e como moderada. Depois de um período de nojo de dois anos após sair do MEP, aproximou-se do CDS. Na verdade estava à procura de algo e tinha amigos do CDS que a iam desafiando. Primeiro foi para o ‘gabinete de estudos produzir matéria na área da educação’. Até que surgiu o convite de Paulo Portas.

E entram as quotas.

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Ana Rita Bessa é favorável às quotas. É bastante enfática, na verdade. ‘Vamos lá pelo mérito. Estou cansada desta conversa. O argumento do mérito é um argumento assassino. Pergunta-me se não gostava de lá estar pelo mérito. Gostava, mas para mostrar o mérito precisas disto antes. Se não ninguém me tinha visto. Estou na Assembleia da República por muitas razões, mas também porque era preciso uma mulher naquele lugar.’ Refere o óbvio (e que é constatado em inúmeros estudos e pesquisas científicas nos casos empresariais): ‘a composição diversa de um grupo parlamentar, com o de um board de uma empresa, é sempre benéfico. Quanto mais não seja porque uma mulher tem sempre atenção a critérios de organização de tempos de trabalho que um homem não tem, e só lhes fazia bem terem.’

‘Não é um assunto fácil dentro de um partido de direita’, assume. (E oh tão verdade.) Mas, paciência, que ‘não dá para fazer cherry picking de modernidade’. O papel dos homens no feminismo não convence Ana Rita. ‘Não tenho muita certeza que os homens possam ser protagonistas nesta luta. São muito pouco sensíveis à realidade que nós experimentamos. Temos de ser nós a mobilizar-nos.’ É por isto que, declara, ‘voto a favor de uma discriminação positiva para as mulheres. Porque o mundo é difícil para as mulheres. Tenho total noção de que temos menos oportunidades. Enquanto não houver mulheres a tomarem as decisões, o paradigma vai continuar.’

O paradigma que, além da poeira da conversa do mérito, utiliza retóricas e argumentos perversos. Os que lhe diziam que seria mais feliz se não vivesse na azáfama de ser mãe com uma carreira, se o projeto de casal não corria melhor, se não tinha mais paz. Ou que não reconhece que as mulheres que não têm a situação favorável de Ana Rita – capacidade para ter ajuda doméstica e uma estrutura familiar que apoia – estão muito mais castradas na sua liberdade, desde logo porque não têm tempo nem a energia (que o descanso permite) para poderem aceitar ou almejar certos trabalhos. (Nem de propósito: é tema do artigo da The Atlantic que me ofereceu no início da conversa.)

Por isso mesmo, pela necessidade de desconstruir estas ideias, declara: ‘perdi o pudor de dizer que tenho de sair para ir buscar os meus filhos. Odeio trabalhar aos fins de semana porque quero estar com os meus filhos. Gosto de jantar com os meus filhos.’ E como – e muito bem – não vê nada disto como limitação à capacidade profissional, considera-se atualmente com ‘muito maior disponibilidade e capacidade de trabalho e jogo de cintura que há dez anos. Tenho agora muito mais para dar.’ (Paradoxalmente, não passa sem anotar, o mercado via a Ana Rita Bessa de há dez anos, com filhos pequenos, menos experiência e sabedoria e menor disponibilidade de tempo, como mais apetecível. ‘Não vejo a racionalidade disto.’ Ninguém vê, na verdade.)

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Um bom efeito secundário da atividade como deputada foram as surpresas mútuas. ‘Correspondo a um certo estereótipo e as pessoas fazem a sua leitura. Depois surpreendem-se com a dissonância entre aspeto e discurso. Tenho a capacidade de ser ouvida pelo BE, pelo PCP e pela parte esquerda do PS, para lá da forma como me apresento.’ Considera ser vista pelos opositores políticos como ‘uma pessoa que pensa, não é só uma tia que aqui aparece, que andou em escolas queques’. Pelo seu lado, Ana Rita também gostou de ‘ser surpreendida pela capacidade que os outros [traduzindo: a esquerda] têm de acolher’.

É o benefício que vem com ser verdadeira, desconfia. E a seguir, uma deputada da Assembleia da República, branca, educada num colégio posh, situação financeira confortável, educação mais que superior, fala de si como poderia falar um membro de uma minoria empobrecida e socialmente malvista. O que, neste tenebroso e divisivo final de 2018, é enternecedor, pelo que revela da universalidade das experiências humanas. Perante os políticos de esquerda, Ana Rita diz-nos fazer ‘a desconstrução do preconceito pela prática de existir’.

 

Ana Rita Bessa tem 45 anos e é mãe de três. Licenciou-se em Economia e tem um Mestrado em Ciências Educativas. Deputada pelo CDS desde 2015.

Texto de Maria João Marques. Fotografias e vídeo de Isabel Santiago.

 

 

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