O predador da Academia Sueca

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Frenchman Jean-Claude Arnault (C) arrives at the district court in Stockholm on September 19, 2018, where he is to appear accused of rape and sexual assault, allegations that prompted the Swedish Academy to postpone the Nobel Literature Prize. Arnault has denied the allegations. / AFP PHOTO / Jonathan NACKSTRAND

Quem é Jean-Claude Arnault? Esta é a pergunta que percorreu o imaginário dos seguidores do Prémio Nobel da literatura, depois de se saber que este ano não seria escolhido um novo nome, algo que não acontecia desde a II grande guerra, uma pausa entre 1940 e 1943.

Fui chamado ao assunto pelo que li no mural da escritora Maria Manuel Viana, que deu grande destaque ao assunto. Diz, a certa altura, que Arnault é um “desconhecido em França, pouco ou nada se sabe dele: apresentava-se às vezes como um antigo director de ópera, outras como alguém com um passado relevante na cultura francesa ou ainda como filho-família, educado por amas ou como jovem revolucionário do Maio de 68.”

Casado com Katarina Frostenson, poeta, académica e tradutora, o personagem bizarro foi condenado a dois anos de prisão, fruto da acusação de assédio e violência sexual por 18 mulheres. Vários membros da Academia Sueca saíram em sinal de protesto, acusando a instituição de não ter sabido lidar bem com o assunto.

O prémio voltará em 2019, onde serão anunciados dois nomes. Mas como foi possível Jean-Claude ter vivido tantos anos em absoluta impunidade? Nos comentários que troquei com M. M. Viana, diz-me, mais à frente, que “ele se dizia descendente de aristocratas russos”, um “mentiroso compulsivo, abusador, traficante de influências (chamava a si próprio o 19º jurado do Nobel) e, sobretudo, tinha demasiado poder.”

Questiona, também, como lhe foi permitida tanta liberdade para atacar tantas vítimas que, como é natural, tiveram medo de o denunciar. Acrescenta que “até a princesa ele assediou, pondo-lhe a mão no rabo – e a questão não está em ser a princesa, obviamente, mas no facto de ela ter ao pé assistentes pessoais e guarda-costas, que intervieram logo.”

Maria Manuel termina dizendo que “como argumento de filme, é imbatível” e deixa-nos uma pequena biografia do predador: “nascido em Marselha em 1946, estudou para electricista e, sendo o pai negociante de madeira, tê-lo-á encarregado de levar para a Suécia uma encomenda de um cliente, entre 1968 e 1969, viagem da qual nunca regressou.”

 

 

 

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Rodrigo Ferrão nasceu em 1983, é natural do Porto e frequentou o curso de Direito, mas virou a página e foi livreiro alguns anos. Rodeado de livros, dedicou-se à discussão literária através do mundo digital. Não totalmente realizado com o debate, decidiu escrever a sua própria poesia, seguindo-se de outras grafias. Gosta de ler, passear no campo e na cidade, escrever e viajar – não perde uma oportunidade para contar aquilo que vê. Sonha um dia largar o trabalho e ir por aí, divagando como pensa.

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