Tourear o povo

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Imagem de Isabel Santiago

A questão das touradas, mais uma vez na ordem do dia e na senda de outros eventos como as eleições no Brasil, é emblemática a demonstrar como as velhas formas de combate caducaram e poucos estão a analisar correctamente o fenómeno.

Quanto mais acesa a contestação contra as touradas… mais pessoas a assistir. Contradição? Não, consequência normal de uma maior exposição das touradas. Em 2017 o número de espectadores dos espectáculos tauromáquicos aumentou face ao ano anterior, algo que não acontecia desde 2010. Mais manifestações contra as touradas são organizadas, mais aficionados comparecem para demonstrar o seu apoio. Dá que pensar.

As praças de Albufeira, Lisboa e Vila Franca de Xira são líderes, a primeira por conta dos estrangeiros e com o maior número de espectáculos. Segundo a Prótoiro – Federação Portuguesa de Tauromaquia, o volume de negócio na venda e exportação de touros ronda os cinco milhões de euros. Embora no país o impacto económico final esteja por apurar, na hotelaria e restauração, entre outros, se for tido em conta o número e o valor de bilhetes vendidos, o volume de negócio situa-se em cerca de 16 milhões de euros.

Esta semana, a nova ministra da cultura, Graça Fonseca, afirmou, na sua primeira intervenção pública no parlamento e em resposta a um deputado do CDS, que “Quanto à tauromaquia não é uma questão de gosto, é de civilização e manteremos como está.”.

O OE para 2019 prevê uma redução para os 6% nas entradas nos espetáculos culturais, mas deixa de fora o cinema, os espetáculos ao vivo e as touradas. A ministra admitiu debater a taxa de todos estes, menos a das touradas que se vai manter nos 13%.
Ora, as touradas existem há séculos e fazem parte da identidade cultural e histórica do país com milhares de aficionados. Impor medidas destas, impor é a palavra certa, distinguindo a cultura entre filhos e afilhados, é uma questão de falta de civilização, apoie-se ou não as touradas, e de falta de respeito para milhares de portugueses. Exercer um cargo público obriga a várias responsabilidades, uma delas é a responsabilidade de decidir em prol do país e não dos suas crenças e interesses pessoais. Começa mal a nova ministra.

Posto isto, avanço que nunca vi uma tourada, e se algum dia calhar de ver, torço pelo touro, espero que despache os forcados e cavaleiros como pinos no bowling, parece-me um espectáculo mais interessante, mas da minha crença pessoal até concordar com medidas que fazem dos portugueses o touro na arena, não contem com o meu apoio.

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