O furacão Trump e o vortéx da democracia americana

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“The United States were founded by the brightest people in the country — and we haven’t seen them since.” Gore Vidal

Ainda no mês passado Donald Trump parecia estar a fracassar em várias frentes. Por um lado tinha a complexa investigação Mueller sobre uma provável colisão de interesses entre a sua campanha eleitoral de 2016 e as autoridades russas. Os seus ataques contra os media estavam a parecer cada vez mais desesperados. Tinha conseguido irritar uma proporção significante do público com os elogios à sua equipa pela resposta à tempestade Florence antes sequer da tempestade ter chegado. Tudo para Trump era um “sucesso incrível” até o facto de a tempestade Maria “só” ter morto três mil pessoas em Porto Rico em 2017.

No entanto, a uma semana das eleições para o Congresso e Senado americanos, naquilo que seria supostamente a reta final para uma vitória esmagadora dos Democratas, a taxa de aprovação de Trump está em 47%, mais alta do que a taxa de aprovação de Barack Obama na mesma fase da Presidência. Não é de todo garantido agora que os Democratas vão ter a maré eleitorial esperada, correndo até o risco de não ganharem o Senado. Como é possível isto depois da colusão com a Rússia, de Bret Kavanagh, do Me Too, das sucessivas investigações, escandâlos e da geral degradação do ambiente cívico e político da era Trump? A resposta está no facto de que Donald Trump é muito mais inteligente e astuto politicamente do que as elites lhe dão crédito e tem a seu favor uma oposição mais do que inepta para estes tempos.

Comecemos pelo mais óbvio: o caso Brett Kavanaugh acabou mais por funcionar como um catalisador poderoso para aumentar o apoio a Trump do que para o derrotar. Kavanaugh, como se sabe, foi acusado de ter assaltado sexualmente Christine Blasey Ford. O testemunho de Ford foi comovente e corajoso mas o erro chave dos Democratas foi terem tornado, mais uma vez, a história numa guerra cultural e identitária, quando na realidade, o FBI não encontrou provas que sustentassem o caso. Kavanaugh foi confirmado como o novo juíz do Supremo Tribunal e Trump aproveitou a vitória para motivar a sua base de apoio com a mantra de “inocente até provado culpado” e para rotular os Democratas como “desonestos politicamente”. Junte-se a isto uma economia que cresce a mais de 3% e não pára de dar boas notícias (a taxa de desemprego mais baixa desde 1969, os salários finalmente a subir mais do que a inflação depois de 17 longos anos de estagnação) e Trump, manipulador mestre dos media, tem a “mensagem” toda feita para ele, só lhe resta apregoá-la, o que ele faz mais vocalmente que ninguém.

À medida que se aproximam as eleições intercalares subitamente os Republicanos detêm o momento. Numeros de votações iniciais esta semana sugerem que a taxa de ida às urnas de votantes republicanos é maior do que a esperada em muitos estados. Agora parece que em vez de perder os Republicanos irão ganhar vários lugares no Senado. Continua a ser mais do que provável que eles percam o controle do Congresso mas não na escala dilúviana que se previa à semanas. Para além disso, o último Presidente a ganhar lugares em ambas as camaras nas eleições intercalares foi George W Bush em 2002, na sequência da vaga patriótica pós 11 de Setembro. Antes disso só Franklin D Roosevelt ganhou em intercalares, em 1934. Ou seja, Trump vai acabar por saír muito menos tocado nestas eleições do que se esperava inicialmente.

O problema da esquerda ou melhor dos Democratas americanos (que são na realidade o equivalente aos sociais-democratas europeus) é que não têm uma estratégia coerente nem conseguem se acalmar, logo perdem constantemente os argumentos face às provocações de Trump. Os protestantes anti-Trump são regularmente vistos a gritar, até a baterem em pessoas nas ruas e recentemente começaram a abusar Republicanos famosos nos restaurantes. Nesta idade do iPhone estes acidentes são sempre filmados e acabam por beneficiar a pessoa que é gritada não o que grita. Corre até em Washington a piada de que os Republicanos nunca jantaram tanto fora como agora (nem no auge da política social isto é nas épocas Kennedy e Reagan), sobretudo em restaurantes mais associados a um público Democrata, na esperança de serem atacados.

Em vez de apelarem à moderação, mesmo os Democratas mais séniores estão a alimentar o ambiente pouco civil. Eric Holder, que já foi Procurador Geral, inventou um novo moto para o partido “When they go low, we kick’em”, ou seja pedra por pedra. A própria Hillary Clinton disse a um jornalista que era altura de deixar de ser civil. No estado de Mineappolis uma governadora democrata causou toda uma tempestade de problemas para o partido ao revelar o nome de uma série de mulheres que tinham sido abusadas sexualmente sem receber o consentimento prévio dessas mesmas mulheres. O que era suposto ser um protesto contra a misogenia do candidato do Partido Republicano nesse estado tornou-se um fiasco tremendo de relações públicas.

O outro grande calcanhar de Aquiles dos Democratas é a falta de uma figura credível que possa desafiar Trump e simbolizar todo um movimento de oposição de forma moderada e civilizada. Hillary Clinton continua a fazer murmúrios de uma possível terceira candidatura à Presidência em 2020, mas o país profundo detesta-a (não por ser mulher mas porque a acham falsa e pelos vários casos duvidosos de recebimento de dinheiro em que ela e Bill Clinton estiveram envolvidos). Bernie Sanders, o símbolo do populismo de esquerda, terá 79 anos em 2020 (e para além do mais os Estados Unidos jamais se tornariam socialistas na linha europeia) e Joe Biden, o vice-presidente de Obama terá 77. Elizabeth Warren, outro nome forte Democrata, tornou-se uma piada nacional com a obsessão que tem em provar que é descendente de índios nativos americanos (Trump apelidou-a logo mortalmente de Pocahontas).

Há algumas estrelas Democratas novas sobretudo Kamala Harris, Cory ‘Spartacus’ Booker, Amy Klobuchar, Kirsten Gillibrand mas todas não têm aquela qualidade invisível que Reagan e Obama tinham: gravitas, ou seja uma presença e voz de estadista. Alguns dos novos nomes Democratas são pura e simplesmente de um descuido e mau gosto atroz: na semana passada, Alexandria Ocasio-Cortez, a candidata hispânica ao Congresso pelo Bronx, declarou que a a luta contra as alterações climáticas era tão fácil como a luta contra os Nazis tinha sido, algo que deve ter caído no goto dos milhões de eleitores judeus que vivem na América.

Nenhuma destas personalidades democratas é capaz de actuar como um contraste ao carisma turbulento de Trump, para isso seria preciso uma personalidade cerebral como Obama. Isto é um deleite para Trump: ele é o agitador nato das multidões mas a multidão que ele mais agita e enerva é a dos Democratas. Trump até tem um novo meme no Twitter – JobsNotMobs– retratatando-se como o criador de um milagre económico de empregos face à instabilidade dos democratas liberais que preferem passar a vida em manifestações.

Trump é um político muito mais formidável e astuto do que muitos comentadores reconhecem. Há um método preciso na sua loucura (em Portugal praticamente só a Diana Soller captou isso, no livro extraordinariamente inteligente “O Método no Caos”). Ele compreende que a América está no meio de uma guerra não só cultural mas de classes sociais. Os Democratas, que tradicionalmente representavam os trabalhadores rurais e industriais, representam desde os anos 90 uma classe bem educada, de profissões liberais, que não quer trabalhos com salários baixos, ou seja uma clique Ivy League mais preocupada com comprar na Ralph Lauren do que com a extrema desigualdade social que o modelo económico americano criou. Toda essa antiga classe industrial e rural foi deixada para trás com Clinton, Bush e Obama sem sequer haver uma tentativa de a requalificar para o mundo globalizado do novo milénio. Trump inteligentemente converteu o Partido Republicano no partido dessa classe operária abandonada, descontente, com raiva e acima de tudo desconfiada da oligarquia política tradicional. Nada do que Trump diga ou faça choca essa base de apoio porque ela aspirou durante décadas a ter um Presidente que viesse abanar o edifício social e político, custe o que custasse.

Dezoito dos dezanove estados mais pobres dos America são agora controlados pelos Republicanos enquanto que os Democratas controlam os cinco estados mais ricos. Parte da rejeição que Hillary Clinton suscitou foi essa: ela é vista como um produto da elite rica, alguém que aceita sem pensar um milhão de dólares para discursar meia hora num cocktail em Wall Street enquanto a classe operária tem de sobreviver com 8 dólares por hora e três empregos simultâneos para sustentar a família. Não importa que Trump também circulava pelos ciclos mais bilionários de Manhattan, ele parecia ser anti-sistema e a mensagem era e é anti-sistema. Trump oferece essa recusa de uma social-democracia caviar e de um regime podre, pelo qual sobretudo os americanos mais pobres não estão mais interessados. Entretanto, os Democratas entretêm-se com agendas que ignoram completamente a mudança sísmica na psique americana, por exemplo, a passarem um mês inteiro a proporem a obrigatoriedade de lavatórios para transexuais nas escolas.

No debate da imigração Trump também intuíu que o americano comum estava substancialmente mais à direita do que aquilo que a classe política se sentia confortável a prometer e sobretudo a fazer. Daí o ter substituído a obsessão republicana com impostos baixos por um discurso forte contra as fronteiras abertas. Até nisso teve sorte: os recentes eventos com imigrantes da América Central que se dirigem através do México rumo aos Estados Unidos levaram-no a construir nesta campanha de 2018 uma mensagem de que os Estados Unidos estão prestes a ser invadidos por massas de imigrantes ilegais e logo a resposta tem de ser dura. Para apimentar mais a narrativa, Trump até notou que “desconhecidos do Médio Oriente” estão entre os que tentam entrar na América através da fronteira mexicana, ou seja não são só imigrantes como, na associação mais básica possível, são terroristas. Os media liberais entraram num frenesim de acusações de racismo, o eleitorado republicano rejubilou. Entretanto tivemos um lunático mental afiliado ao Partido Republicano a mandar pacotes com explosivos a Obama, aos Clintons e até à CNN. Trump apelou à tolerância e respeito por todas as pessoas e ideias que é um pouco como o guarda prisional de Auschwitz dizer que nada viu, nada passou.

Claro que nada disto é agradável ou minimamente recomendável. Eu sou o mais anti-Trump possível mas acho importante perceber que o fenómeno é mais complexo do que aparenta e que a resposta da oposição americana (e global já agora) tem sido muito pobre e sobretudo muito pouco sofisticada. Nao é de todo fácil para mim, que vivi, estudei e trabalhei na América anos a fio e tenho lá família e amigos, ver o estado de quase guerra civil em que a América se tornou. Mas a realidade é que a política americana foi sempre extraordinariamente confrontacional e desagradável. Das memórias que tenho dos meus anos de criança em Nova Iorque estão, por exemplo, confrontos violentíssimos e constantes nas ruas com direito até a tiroteios entre grupos pró e anti guerra no Vietname, pró e anti-racismo, e por aí fora. Todas as décadas de 60 e 70 na América do século XX foram um conflito contínuo, sangrento, de ideais e os debates televisivos eram de uma brutalidade que seria inimaginável hoje em dia. Nos anos 80 e 90 as coisas acalmaram muito porque a América viveu a vaga de um boom económico (a globalização) e a sensação artificial de superioridade mundial, com a derrota do Império Soviético. O consumismo substituíu o idealismo, garantia o mítico sonho americano e levava intelectuais mais ingénuos como Fukuyama a declararem o fim da História.

Tudo isso acabou com o 11 de Setembro de 2001 e com a percepção, cada vez mais forte ao longo dos últimos quinze anos, de que a América está a ser ultrapassada em quase todas as dimensões pela China. Se no século XX a América era o país do futuro e do optimismo, agora em 2018, a América é um país que olha para o futuro e não sabe nem gosta do que vê. É o país que tem a pior crise de dependência de opióides do mundo, onde estradas caem porque o Estado não investe, onde morrem mais pessoas por ataques à mão armada do que na guerra do Iraque, onde os salários da classe média na prática não aumentaram desde os anos 90, onde a indústria foi quase toda arruinada pela competição e sobretudo pela escala de produção chinesa.

O que Trump fez foi desmascarar esta insegurança colectiva no país e sobretudo retirar a aparência de civilidade que tinha prevalecido (brevemente) num país que nasceu e se desenvolveu na essência do confronto filosófico. O que é extraordinário é que os inimigos de Trump continuem a caír nas armadilhas fáceis que ele planta, como se fossem novatos totais nas lides políticas, em vez de irem até à génese do problema e proporem soluções fundamentais para problemas fundamentais (por exemplo, os Democratas não têm um plano económico coerente e esse vácuo faz o eleitor comum pensar que a iniciativa absolutamente absurda de Trump de repatriar indústria para a América via sanções comerciais aos chineses é a marca de um homem de acção). Olho por olho, dente por dente, tornou-se o mote do país, o que serve Trump perfeitamente porque ele ganha facilmente essa batalha.

Não me parece que estas eleições irão resolver ou alterar substancialmente esta atmosfera. Este momento político e social (com ou sem Trump) está para durar até que os Estados Unidos recuperem a confiança em si próprios e no futuro. Se a recuperarem: as fases finais dos impérios (e estamos de facto na fase do pôr-do-sol do império americano) não tendem a ser um espectáculo recomendável. Preparem-se para muitos mais Trumps mesmo depois de Trump já ter desaparecido de cena.

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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