Tortura em Istanbul, confusão no Ocidente, ditadura saudita: o triste caso de Jamal Khashoggi

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Na tarde de 2 de Outubro de 2018, Jamal Khashoggi, jornalista e autor, entrou no consulado da Arábia Saudita em Istanbul para obter um documento de prova do seu divórcio. O documento teria-lhe permitido casar com a sua noiva, Hatice Cengiz, uma cidadã turca, que o acompanhou nessa tarde até à porta do consulado e ficou à espera fora do edifício. Como já depois das quatro da tarde Khashoggi ainda não tinha saído do edifício (quando o horário de funcionamento era só até às três da tarde), Hatice contactou a polícia turca para informar do desaparecimento do noivo. O consulado respondeu à polícia turca para dizer que Khashoggi tinha saído pela porta traseira. O governo turco disse que ele ainda estava dentro do consulado e a noiva e os amigos do jornalista que ele estava desaparecido. E assim começou uma saga digna de um livro do John Le Carré que está a abalar profundamente a relação entre a Arábia Saudita e os parceiros ocidentais.

O diz que diz só aumentou a partir daí e já é extraordinariamente difícil seguir os acontecimentos no meio do frenesim e cacofonia que se instalou. As autoridades turcas declararam que a maior parte dos vídeos de vigilância interna e externa do consulado do dia do desaparecimento de Khashoggi também desapareceram e que o que resta não mostra nenhuma evidência que Kashoggi tenha saído do consulado. A atenção virou-se para o Apple Watch de Kashoggi e se poderia dar pistas sobre o que tinha acontecido (o telefone pessoal de Khashoggi tinha ficado com a sua noiva e podia ter recolhido informação da cloud). Na noite de 14 de Outubro o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan e o Rei Salman da Arábia Saudita anunciaram que um acordo tinha sido feito para constituir um “grupo de trabalho conjunto” para examinar o caso. No dia 15 de Outubro (já dez dias depois do desaparecimento) finalmente fez-se uma inspeção do consulado, levada a cabo por oficais turcos e sauditas.

Segundo fontes do Procurador-Geral turco, os oficiais turcos encontraram evidência de materiais tóxicos que tinham sido removidos pelos sauditas, levando a concluir que Khashoggi tinha sido torturado e morto dentro do consulado. A “tarefa” teria sido executada por uma equipa de quinze assassinos especialmente selecionada pelo Príncipe Mohammad bin Salman e coordenada por Ahmad Asiri, o antigo porta-voz das forças militares da Arábia Saudita no Iémen. A operação teria incluindo requintes como o corte órgão por órgão do corpo de Khashoggi ao som de Wagner (com o jornalista ainda vivo note-se) seguida de um barbecue nos jardins do consulado, enquanto se inceneravam os restos mortais. Falou-se inclusivamente de um vídeo com toda esta atrocidade filmada. No entanto, quando pressionados a publicar estas evidências os turcos têm evitado fazê-lo e voltado à linha oficial de que os sauditas não têm responsabilidade no assunto (não só o comércio com os sauditas é crucial como as relações históricas entre os turcos e os sauditas são mais delicadas que um copo de cristal Lalique).

Nesse mesmo 15 de Outubro, Donald Trump (que nunca perde uma oportunidade para não estar calado) declarou, depois de falar com o rei saudita, que estava convencido de que a ser um assassinato devia ter sido perpretado por “assassinos rebeldes” não afiliados com o regime saudita (e as vacas voam, sim senhores). No dia seguinte, Mike Pompeo, o secretário de Estado americano, sublinhou a preocupação dos Estados Unidos com o desaparecimento de Khashoggi (que recorde-se vivia nos Estados Unidos e era jornalista do Washington Post) mas ao mesmo tempo agradeceu ao rei saudita o seu “compromisso com uma investigação total e transparente”. O sempre prestável Jared Kushner (marido de Ivanka Trump e conselheiro especial de Trump) declarou numa reunião na Casa Branca que se devia deixar morrer a notícia, tal como se deixou morrer as atrocidades cometidas pela Arábia Saudita recentemente no Iémen. Seguiu-se no dia 17 de Outubro uma discussão em pleno Salão Oval da Casa Branca, com direito a gritos e troca de todo o tipo de insultos, não reproduzíveis aqui, entre o chefe de equipa de Trump que defende uma linha mais dura contra os sauditas e John Bolton, o neo-conservador que tal como Kushner defende que os Estados Unidos devem ignorar o caso. Veio-se também a saber que os serviços secretos americanos tinham interceptado no final de Setembro comunicações de diversos oficiais sauditas em que se discutia um plano para capturar Kashoggi (recorde-se que Kashoggi era residente dos Estados Unidos e portanto intitulado a proteção) e que a Casa Branca tinha sido avisada deste risco. No dia 18 de Outubro Trump veio declarar que convinha não esquecer os mais de cem mil milhões de dólares de comércio entre a América e os sauditas (armas e aviões militares, dos quais os sauditas são os maiores importadores mundiais) e que seria melhor encontrar outro tipo de sanções, caso se provasse a culpa dos sauditas neste assassinato. Por seu lado, o Reino Unido, a Alemanha e a França publicaram o comunicado da praxe, não indo além do pedido de uma “investigação credível” neste caso. Convém não tocar nos sauditas claro, dirty cash I want you.

Quanto às autoridades sauditas essas têm tentado manter a face da forma habitual, isto é recorrendo à contra-ofensiva. O Príncipe Real saudita continua a insistir na versão de que Kashoggi saiu do consulado pouco tempo depois da visita e que qualquer notícia relacionando as autoridades sauditas com o desaparecimento é completamente fake news. Pelo meio também ameaçou retaliar dizendo que se Trump ficou furioso com o petróleo a 80 dólares por barril ninguém devia descurar a capacidade de os sauditas aumentarem esse preço para 100 ou mesmo 200 dólares (como fizeram em 1973, lançando o Ocidente numa grave crise, como retaliação do apoio ocidental a Israel).

Os meios de comunicação social oficiais sauditas também começaram a circular a teoria de que o assassinato de Kashoggi foi causado pelo Qatar porque o Qatar detem 50% do Washington Post e não gostava das crónicas de Khashoggi. Todo este caso caiu especialmente mal porque coincidiu com a abertura de um fórum económico gigantesco onde a Arábia Saudita pretendia mostrar ao mundo a sua nova estratégia económica de abertura ao mundo (que já descrevi nesta crónica há umas semanas). Em vez de uma conferência cheia como queriam, os sauditas vêm-se a braços agora com uma enxurrada de cancelações dos nomes mais sonantes da finança, política e tecnologia mundial.

A este ponto convém perguntar porque era Khashoggi tão inconveniente para os sauditas lhe darem este triste fim? O problema principal é que Kashoggi não era um dissidente antigo, alguém que se podia simplesmente rotular como um “velho do Restelo” ou um “capitalista selvagem”, como normalmente estes regimes fazem para desacreditar qualquer oposição. Kashoggi tinha estado extraordinariamente próximo do centro da elite saudita durante décadas, tinha trabalhado como editor em vários jornais sauditas e sido conselheiro do antigo chefe dos serviços secretos sauditas. Sobretudo, Khashoggi tinha conhecido e entrevistado Osama bin Laden várias vezes nos anos 80 e 90 no Afeganistão quando Bin Landen prosseguia a sua cruzada jihad contra os soviéticos.

O trabalho de Khashoggi nessa época era o de tentar sarar a rivalidade entre a família real saudita e a poderosa família Bin Laden. À altura Khashoggi era o único saudita civil que sabia das ligações íntimas dos monarcas sauditas com a Al-Qaeda. As mesmas ligações perigosas levaram George Bush a autorizar o voo de um avião privado da família real saudita no dia 11 de Setembro de 2001 quando todo o espaço aéreo americano estava fechado. Ter Khashoggi agora a escrever semanalmente para o Washington Post e a criticar duramente a falta de liberdade de expressão no reino saudita (sobretudo para um regime que está a tentar passar uma nova imagem de si próprio), com dois milhões de seguidores no Twitter e a fundar um novo partido pró-democracia (Democracy For the World Now) foi a gota de água para as autoridades do regime saudita.

A reação do Ocidente como notei acima esteve algures entre o patético, a subserviência habitual e o esquizofrénico. A relação do Ocidente com a Arábia Saudita é extraordinariamente complicada e desequilibrada há pelo menos cem anos. Durante muito tempo a Arábia Saudita (até mais do que Israel) foi o parceiro natural do Ocidente no mais que complicado Médio-Oriente. Tinha a favor o facto de ser um regime estável (mantido por repressão pura e dura) e sobretudo o facto de ser o maior produtor mundial de petróleo, a fonte de energia que dominou o século XX. Era e ainda é um dos maiores compradores mundiais de armas (a gigante BAE Systems do Reino Unido é largamente sustentada por compras sauditas) e sobretudo manteve uma rede de influência incomparável ao mais alto nível (desde Presidentes americanos, a monarcas ingleses, a presidentes franceses). Como dizia um diplomata britânico há dias, os sauditas pura e simplesmente puseram e dispuseram do Ocidente durante todo o século XX (até ao ponto de que a culpa do 11 de Setembro foi alinhada com o Afeganistão quando a génese e execução do atentado foi saudita dos pés à cabeça).

No entanto, há sinais de exaustão no Ocidente com esta relação. Os sauditas na sua arrogância e na falta de forças moderadoras das suas acções, cometeram vários erros estratégicos crassos. Foram os sauditas que (encorajados pelos Estados Unidos) fundaram os mujahideen no Afeganistão para lutar contra os soviéticos. Os mujahideen acabaram por se transformar nos Talibãs que por sua vez pagaram e patrocinaram o sistema de escolas religiosas madrassa no Paquistão que produziram a geração de extremistas que nos deu a Al-Qaeda (liderada por um cidadão saudita, Osama bin Laden). Para além disso foram os mesmos sauditas que ajudaram a criar a Isis na Síria e no Iraque, novamente através de transferências maciças de armas e dinheiro.

Foi o mesmo regime despótico saudita que, aterrorizado com as implicações da Primavera Árabe, ajudou energeticamente a supressão brutal dos reformadores Shia no Bahrain. E são os sauditas agora que (numa aliança improvável com Israel) mais lutam contra qualquer acordo entre a América e o Irão shiita, o seu inimigo mortal de séculos. Ou seja, em vez de ajudarem a estabilizar a região como a América (e a Europa em menor grau) esperavam, a política saudita na realidade só tem arrastado toda a região para mais e mais conflito, mais e mais sangue. Os americanos criaram um monstro com tentáculos impossíveis de cortar.

A primeira evidência de que algo pode estar a mudar na atitude ocidental em relação à Arábia Saudita está no Senado e no Congresso americanos. Em reação a este caso Khashoggi, o senador americano Rand Paul disse esta semana que iria forçar um voto para bloquear futuras vendas de armas americanas aos sauditas. Todo o Senado americano está a pressionar Trump para determinar de facto se Khashoggi foi torturado e assassinado e para responder com sanções pesadas contra os indivíduos responsáveis. O Congresso também se está a movimentar para um possível voto na matéria. Junte-se a isto o facto de que os Estados Unidos já não dependem da compra de petróleo saudita (tornaram-se em 2017 auto-suficientes em petróleo graças ao boom de shale oil) e o cálculo estratégico está a mudar em Washington: para quê investir numa relação tão tóxica se essa relação em vez de nos beneficiar só nos causa problemas?

Claro que esta mudança vai demorar tempo e ainda não é aparente nas mais altas esferas políticas. Essas continuam a mostrar a mesma submissão ao regime ditatorial saudita que demonstram por exemplo em relação aos chineses (uma das causas para a corrente erosão do liberalismo ocidental é esta realpolitik cínica de aceitar todos os abusos de regime desde que haja trocas comerciais no matter what). Mas o caso Khashoggi é o sinal de alarme mais forte até agora neste despertar para a realidade inconveniente da política geoestratégica do Ocidente em 2018. É o equivalente a um casamento de conveniência em que ao fim de décadas de uma convivência podre um dos parceiros percebeu: “Eu não tenho muito em comum contigo, se é que alguma vez tive. Na realidade não gosto de ti e ainda por cima já nao preciso mais de ti”. Se há algo de positivo na morte do pobre Khashoggi é que pode acelerar este divórcio inevitável.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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