Declaro-me Anti-Praxe

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Todos nós riscamos aspectos do passado porque crescemos. Ter vergonha de alguma coisa faz parte. Arrependermo-nos por pertencer a uma consciência maioritária é possível. Ser apanhado numa rede acontece. Ser porque sim, numa idade e contexto, para não ficar atrás ou por ter medo de não ir mais longe? Hoje sei que não devia. Na verdade sei há algum tempo. Amadureci e não voltaria a esse disparate.

Quando fui estudar em Coimbra percebi a importância das tradições. A cidade tem esse magnetismo próprio, uma terra de fabricação de nostalgia e saudade. Será impossível transmitir por completo o sentimento, ser engolido pelas ruas, o casario e o Mondego. Perceber a canção, o elogio do estudante, as Repúblicas. Ou mesmo as serenatas, as boas trovas ou os ilustres pensadores que formaram a lusa Atenas. Até mesmo o traje, a existência de tunas decentes, organizações culturais, lúdicas e desportivas da academia. Explicar só tem um jeito: permanecer.

Isto tem a simbologia devida na lógica da cidade, e tudo podia ser usado com o objectivo maior de elevar o estudante ao lugar importante que tem. O problema é mesmo a praxe; o vício é o domínio do ser pelo ser, a afirmação da autoridade. É esse o cerne.

Nos tempos de aluno passei por tudo. Fui a uma praxe colectiva onde me berravam e era pedido para me pôr de quatro. Bebi porque quis, desfilei de collants e latas porque assim é. Fui julgado perante um tribunal de doutores, raparam-me o cabelo.

A verdade é que estive em perigo algumas vezes. Eu e outros, num ciclo vicioso. A repetição da história, da má. Vivi para contá-la.

Menino da cidade, fui para um local que parecia uma aldeia em tanta coisa. Era relativamente famoso em Direito, mais tarde afirmei-me numa República de estudantes. Acima de tudo alcancei uma rotina preenchida, o tempo matava-se bem e os locais que frequentava reconheciam-me. Mas muitas vezes penso que podia ter sido de outra forma. Tradição sim, alguma. Não esta, não precisava do meu espaço com esta.

O único caloiro a meu cargo apareceu no segundo ano. O Zé é de Moncorvo, um perfil totalmente diferente, não sei como o convenci. Um rapaz muito simples, mais tímido e que fiz por ajudar. Não fui mau com ele, não o obriguei a fazer coisas impossíveis. Sobretudo pagava-lhe copos e pedia para me apresentar pessoas, mostrava-lhe outras.

Culpo-me por tê-lo levado a situações de risco, por ter assistido a coisas que colectivamente não resultam. Alguns daqueles jovens foram parar ao hospital por excesso de álcool. O ‘meu’ Zé não, salvou-se. A pressão é tramada, se é. E não imagino o que os putos disseram aos pais no dia seguinte.

Vi de tudo, pessoas capazes de muita porcaria. Todos pertencíamos a um exagero só possível porque ninguém nos vigia. Vi miúdos a dormir abandonados na rua, porque o rebanho passou mas perdeu uma ovelha. Vi rapazes que choraram perto de mim, com medo do que se estava a passar. Vi demasiada coisa que não devia. Há ditadores espantosos, malta estranhíssima que julga ter poder. Não entendo como apoiei essa maioria, não percebo mesmo.

Lamento profundamente, não posso pactuar com esse passado, mesmo parecendo não ter sido dos menos maus. Não devia haver escalas de todo, simplesmente era riscar. Tenho pena de me ter ligado durante o tempo que foi.

Por uns anos ainda tolerei alguns aspectos, talvez porque não parei para pensar.

Burro.

Porventura há boas pessoas que vestem apenas o traje, decoram algumas canções de amor e pertencem às coisas porque são simples e querem uma fotografia com os pais no final do curso. Mas não é a minoria. Não é, e isso é preciso escrever, mesmo que seja apenas catarse minha.

Hoje penso nos desgraçados que morreram na praia do Meco. Recordo casos de raparigas violadas. Tenho pena dos rapazes que foram recentemente abandonados na Serra da Estrela. Lamento o vídeo daquele miúdo com a cara no chão. Lembro os que perderam a vida quando um muro desabou em Braga. Os afogados a boiar no Mondego. As músicas que não dignificam as mulheres e animalizam os homens – aprendidas a martelo. A miúda que morreu de paragem cardiorrespiratória (depois de uns exercícios de resistência) ou o desgraçado que teve o mesmo fim, a porrada matou-o. Os meus miúdos que se encheram de álcool e partiram de ambulância.

Não pode continuar assim, são casos a mais.

Declaro-me Anti-praxe. Se um dia tiver um filho procurarei dar-lhe o meu ponto de vista. Integrar tem muitas formas, esta não. Não me venham com isso que já não sou convencido.

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Rodrigo Ferrão nasceu em 1983, é natural do Porto e frequentou o curso de Direito, mas virou a página e foi livreiro alguns anos. Rodeado de livros, dedicou-se à discussão literária através do mundo digital. Não totalmente realizado com o debate, decidiu escrever a sua própria poesia, seguindo-se de outras grafias. Gosta de ler, passear no campo e na cidade, escrever e viajar – não perde uma oportunidade para contar aquilo que vê. Sonha um dia largar o trabalho e ir por aí, divagando como pensa.

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