Terrorismo artístico em Londres: Banksy – arte punk ou hipocrisia, subversão ou mercado?

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“Art should comfort the disturbed and disturb the comfortable.” Banksy

Tudo estava pronto a rigor naquela sala da Sotheby’s em Mayfair, Londres, na noite do dia 5 de Outubro. Era a semana da Frieze Art Fair, quando todo o “mercado” de arte mundial está em Londres e naquela noite tinha convergido naquele local mítico da New Bond Street. A sala estava cheia dos personagens habituais num leilão de arte contemporânea: excêntricos que vão para ver e ser vistos, jornalistas, relações públicas, compradores britânicos, europeus e americanos que vão para comprar e os super-compradores que não aparecem fisicamente mas do conforto das suas casas majésticas no Qatar, Singapura, Hong Kong e Beijing decidem compras e inteiras carreiras artísticas directamente para os auriculares dos leiloeiros.

O ar era rarificado e a peça em questão no leilão era o desenho Girl With Baloon, autoria de Banksy, o incógnito artista de rua inglês, vândalo, activista político, realizador de filmes e mais uma série de qualificações. Datada de 2006, a obra mostra uma rapariga a tentar alcançar um balão em forma de coração e era uma versão em tela de um desenho que surgiu inicialmente como grafitti numa rua no leste de Londres e que, em 2017, foi eleita a obra favorita dos britânicos. O preço da peça foi subindo na sala até finalmente ser arrebatada por um milhão de libras. Tudo normal ate aí: este é um mercado mais uma vez em plena bolha especulativa e arte contemporânea é de rigor nos salões dos super-milionários, um símbolo de status social igual a assistir a Wimbledon em dia de final, ter uma casa de Inverno em Aspen ou Gstaad ou um iate maior que o do vizinho na baía de Antibes.

Eis que quando o inesperado acontece: mal o martelo do leiloeiro assinalou a compra, o quadro, perante o olhar atónito e murmúrios de puro choque de toda a audiência, desfaz-se em tiras ao passar por uma trituradora de papel instalada na parte inferior da moldura. “Parece que acabámos de ser ´Banksy-tados”, admitiu logo o diretor de arte contemporânea da Sotheby’s, Alex Branczik. O próprio Banksy divulgou imediatamente uma fotografia no Instagram do momento em que o quadro se desfaz com o comentário “Vai, vai, foi-se”, numa alusão às palavras pronunciadas pelos leiloeiros quando concluem a venda a um cliente. Poucas horas depois, publicou um vídeo na mesma rede social que mostra alguém cujo rosto não se vê a inserir numa moldura de madeira um dispositivo de cortar papel. Ninguém tinha ideia de que isto ia acontecer e o ar naquele momento assumiu mais os contornos de um evento punk ou Dada do que da natureza soporífera da arte contemporânea. Na essência Banksy tinha feito o Do It Yourself dos Sex Pistols ou de Marcel Duchamp. Murder in Mayfair, puro terrorismo artístico.

Entretanto, no dia seguinte, a vencedora do leilão, uma coleccionadora europeia e habitual compradora de arte nos leilões da Sotheby’s, declarou que apesar de ter ficado “chocada” ao ver a obra ser destruída, decidiu manter a compra porque percebeu que ia ficar com uma “peça da história da arte” que agora já vale muito mais do que o milhão de libras que custou. Os “peritos do mercado de arte” (há-os aos milhares por todo o lado) saltaram logo a avançar estimativas: que Banksy tinha feito subir o preço da obra em causa no mínimo 50% para os 2 milhões de libras ou até mais. A febre especuladora voltou logo a Mayfair, os Gordon Gekkos das telas viam mais e mais dinheiro à frente.

Mas ao produzir aquela que é talvez a sua obra-prima, Banksy tocou intencionalmente ou não no ponto mais frágil do que é a arte em 2018. Tradicionalmente (até bem ao início do século XX), a produção de arte e a relação desta com o sistema capitalista era bem clara. Todas as grandes correntes e obras de arte eram comissões da Igreja, Monarquia, de famílias ricas (os Medicis, por exemplo) e de algumas instituições políticas. Tudo, desde Caravaggio a El Greco, Rembrandt a Ticiano, Velasquez a Vermeer, Rubens a Michelangelo, foi produzido nesta base. O artista era o veículo de um desejo de um patrocinador ou mecenas, com objectivos muito precisos e a relação não era questionada. Claro que todos estes artistas desenvolveram um estilo e linguagem própria (que por isso se tornou universal e eterna) mas, na essência, não havia lugar para ser contra a oligarquia (até Rubens foi obrigado por Maria de Medici a produzir obras que não queria fazer mas de que precisava para subsistir). Mas por outro lado, o ciclo de produção e consumo artístico era mais simples: uma vez produzidas, estas obras ficavam com o mecenas durante décadas, séculos mesmo, sem trocarem mãos. Havia um mercado de arte mas era restrito quase que apenas ao mecenas, ao artista, à família do mecenas. A maior parte das obras de arte nunca era sequer vista pelo público em geral a não ser que estivessem em igrejas e templos, palcos de circulação pública.

Apartir do século XX tudo mudou com o aparecimento de um verdadeiro “mercado” de arte e com a massificação da arte como objecto de lazer público e de investimento privado. Foi isso que gerou a contradição que é inerente à arte contemporânea: o artista que pretende ser um rebelde anti-sistema quando ele pretence e depende do próprio sistema para a sua sobrevivência. Esta tradição tem mais ou menos 100 anos. Marcel Duchamp inaugurou-a com o famoso urinol de porcelana, entititulado apenas Fonte, num desafio claro ao “bom gosto” artístico. Duchamp era parte do famoso movimento Dada, iniciado por pacifistas alemães refugiados na Suíça durante a I Grande Guerra. Os dadaístas detestavam a cultura europeia do “bom gosto” que convivia impassivelmente com conversas diletantes sobre uma pincelada diferente num painel ao mesmo tempo que milhões de jovens estavam a ser mortos em combate. Famosamente Duchamp disse que os quadros de Rembrandt eram óptimos para usar como uma tábua de passar a ferro. Esta cultura anti-sistema foi gradualmente infiltrando o mainstream artístico do século XX e esteve presente em praticamente todos os sub-géneros artísticos desde o surrealismo a Gershwin, de Beckett ao punk e ao acid-house original.

O problema com esta tradição anti-arte ou anti-sistema é que, cem anos depois do seu momento original, está mais do que assimilada e integrada como parte estruturante e, curiosamente, a mais lucrativa da própria arte (a par com os Expressionistas). Os Young British Artists da Londres da Cool Britannia dos anos 90 perceberam isto melhor que ninguém: Damien Hirst meteu um tubarão num tanque e chamou-lhe de arte porque sabia que iria fazer uma fortuna colossal com aquela encenação “anti-arte”. O mesmo o fizeram Tracy Emin, Dinos Chapman, Gary Hume, Sam Taylor-Wood e por aí fora. A aura de perigo e de transgressão artística era a aparência, a realidade era um grupo de jovens milionários aos vinte e trinta anos que passavam os dias a comprar casas ou quintas e as noites a consumirem quantidades estonteantes de cocaína no Groucho Club ou na Pharmacy.

O caso de Banksy é ainda mais complexo e curioso porque Banksy foi durante muito tempo alguém muito próximo de ser de facto o “verdadeiro anti-artista”. O seu percurso começou como simples artista de graffiti, parte da DryBreadZ Crew (DBZ) em Bristol. Completamente desconhecido do público, Banksy foi inspirado pela cena underground de Bristol de inícios da década de 90 que depois iria assumir contornos globais com a fama que grupos como os Massive Attack, Portishead e Tricky alcançaram. Muito do trabalho que Banksy produziu até ao ano 2000 era feito inclusivamente às escondidas da polícia: o seu traço distintivo deve-se a usar um material que demora muito pouco tempo a secar, uma necessidade quando se tinha de esconder no meio do lixo para fugir da Polícia.

Foi só em 1997 que Banksy se tornou conhecido do público com o mural The Mild Mild West que ainda existe em Bristol. Seguiram-se trabalhos em diferentes meios: notas (com as imagens da Princesa Diana em vez da Rainha), bancos, postes, pontes, intervenções públicas (Dismaland em 2015), sempre baseadas numa mensagem anti-guerra, anti-capitalista e anti-sistema, com uma obsessão particular por ratos, macacos, polícias, soldados e crianças. Por volta de 2007 Banksy já tinha sido absorvido pelo sistema que tanto criticava: a sua obra Bombing Middle England foi leiloada por 102 mil libras na Sotheby’s de Londres, um recorde para ele e para um artista graffiti à época.

Por isso tudo, o leilão de 5 de Outubro passado é bem mais complexo que a aparência. Por um lado há o superficial, ou seja um grupo de pessoas extraordinariamente ricas a comprarem o risco, o desafio da suposta “anti-arte”. No entanto, esta é a mesma “anti-arte” que a Sotheby’s se encarregou de domesticar e tornar inofensiva e que só os tornou ainda mais ricos. Porém, por uma questão de minutos, esta arte transformada em comodidade mordeu as mãos que a alimentam. Foi como que um grito de Banksy para saír da claustroforbia em que ele próprio se encontra: um artista que veio da rua e que acaba condicionado pelas expectativas das casas leiloeiras e do que o “mercado” entende que deve ser a sua obra.

Claro que Banksy pode dar-se ao luxo de fazer isto agora. A maior parte de artistas emergentes não pode porque, pura e simplesmente, tem de sobreviver. E claro que é extraordinariamente ingénuo pensar que vai deixar de haver um mercado de arte que define o que é a arte do presente e do futuro. A arte como puro investimento vai continuar, tal como a economia capitalista vai continuar (ja cá está desde o tempo dos faraós egípcios). Mas, por vezes, esta arte deve ser abanada e questionada. Mesmo que só para, ironia das ironias, produzir ainda mais lucros e beijos de felicitações nos salões dourados de Mayfair.

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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