Cristiano Ronaldo e a violação pelos homens no talho

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1. Há um ano, no WebSummit, assisti a um debate sobre sexismo em Sillicon Valley. Estavam no palco Kara Swisher, diretora da revista Recode, Christine Herron, advogada, e Dick Kramlich, fundador do fundo de investimento New Enterprise Associates. Eu pensava que ia ouvir falar de desigualdade salarial, desequílibrio no acesso aos cargos de poder, falta de representação das mulheres nas chefias. Acontece que o tema não era esse. Assédio sexual, abuso sexual, violação eram afinal incontornáveis, num mês em que o movimento #metoo estava no auge e as denúncias sobre casos desta natureza no mundo das empresas tecnológicas surgiam cada vez com mais frequência.

Kara Swisher afirmava nesse dia que “em Silicon Valley, os casos de assédio sexual sobre mulheres são tão comuns como os que vieram à tona com o escândalo de Harvey Weinstein.” Swisher dizia que ninguém conseguia dizer ao certo a dimensão do problema porque os acordos extrajudiciais e o silêncio inerente escondiam a verdadeira dimensão do problema.

Christine Herron, advogada de algumas das mulheres que denunciaram casos destes, afirmou ser natural que as mulheres assinassem esses contratos uma vez que fazem a opção entre sair da empresa sem nenhuma compensação ou sair na mesma mas com o valor idêntico a seis meses de trabalho.

As mulheres foram ensinadas a calar a boca no que toca ao assédio sexual. O feedback que tenho de vítimas de assédio sexual é ‘Eu senti-me mal por ter assinado o acordo de sigilo, o meu agressor só foi transferido de cargo.’” 

Kara Swisher defendeu na altura que “A única maneira de mudar as coisas é fazer com que as pessoas paguem o preço por não oferecerem condições de igualdade às mulheres. As empresas têm que pagar o preço pelas más decisões das suas pessoas.”

Dick Kramlich, um homem de 74 anos, dono da New Enterprise Associates também alinhou do discurso da punição fiduciária para as empresas que permitem que o assédio aconteça nas suas instalações. Contou ter despertado para o tema apenas quando a filha lhe explicou o que teve de suportar nas empresas onde tinha trabalhado. “Pagar pelos danos feitos, essa é a minha posição. A minha filha teve que aturar muita coisa. Muitas pessoas tiveram que aturar muitas coisas. E não pode ser assim, as empresas têm de ser punidas.” Está tudo aqui.  

2. Serve este ponto 1 para demonstrar que a compensação financeira obtida em acordos extra-judiciais em casos de agressão sexual é uma prática corrente nos Estados Unidos da América, que não põe em causa a índole moral de quem denuncia os acontecimentos nem quem deles obtém, de facto, uma indemnização. Prostituta e chantagista são palavras que não constam nos acordos que estabelecem um silêncio sepulcral sobre o assunto, de parte a parte.

O que também salta à vista, das declarações da advogada das vítimas, é que a compensação financeira não dá àquelas mulheres uma sensação efetiva de equilíbrio. O dinheiro que recebem é uma espécie de “do mal o menos.”

Quando todos os intervenientes referem a necessidade das empresas que permitem que a agressão aconteça também deverem ser punidas estão a falar, obviamente, da necessidade de prevenir situações futuras quando já há agressões identificadas.

3. Eu gosto do Cristiano Ronaldo. Ainda quero dizer isto no presente. É maravilhoso vê-lo jogar, foi maravilhoso vê-lo crescer. Há uma reportagem nos arquivos da SIC sobre as camadas de formação do Sporting em que o Cristianinho nem abre a boca, não é visto como um craque, fica na segunda linha, atrás dos miúdos que falam das suas ambições. Afinal, o rapaz de segunda linha, franzino, trabalhou, ganhou corpo e hoje é o melhor do mundo no futebol (desculpem lá, Messi e Modric). É maravilhoso ver Cristiano Ronaldo jogar – é o tipo que brilha e é o tipo que nunca desiste.

Mas é isso, é um tipo. Cristiano Ronaldo é um homem. Até pode ser um herói para alguns. Mas é um homem, não pode ser intocável, não pode ter privilégios por ser o maior jogador do mundo ou por ser homem ou por ter mais dinheiro do que a maioria dos mortais algum dia terá.

Cristiano Ronaldo pode ser um jogador excecional, mas muito pouco conhecemos da sua intimidade (e não precisamos de saber mais, porque a vida privada devia ser sempre privada). Podemos coletivamente por as mãos no fogo por alguém que vemos em campo, em festas de família, em atribuições de prémios através da televisão e das redes sociais? Que o façam os amigos, faz sentido. Que o façamos todos enquanto país é um sinal evidente do sistema mental de privilégios em que ainda vivemos. A palavra de um ainda vale mais do que a palavra de outra.

Se há uma denúncia, porque é que é preciso tomar logo o partido e porque é que tomando o partido do jogador, passamos imediatamente ao ataque sobre a mulher que o acusa?

4. Gostava de dizer que o mundo mudou no último ano. Que o contexto moral em que vivemos hoje, no momento pós #metoo, e sobretudo em termos mediáticos é diferente do que vivíamos há 10 anos. Que as mulheres tiveram a confirmação do que desconfiavam há muito: que não têm que suportar tudo caladas. Que as mulheres denunciam mais facilmente o que sempre sentiram como agressão porque hoje a linha que parecia ténue entre o que é consensual e o que não é está cada vez mais espessa. Que os homens também ficaram a saber que o assédio sexual existe mesmo (não é uma invenção histérica feminina) e deixa marcas, que não é não, mesmo quando o cenário já é a cama e os corpos já estão nus. Mas o mundo não mudou. E Portugal não mudou. 

5. Chama-se Katryn Mayorga, é uma mulher e a palavra dela devia valer tanto como a dele. Pelo exposto no ponto 1 e como se pode ler na investigação publicada no jornal Spiegel, que o Expresso traduziu – “muitas vítimas decidem enveredar por processos civis em vez de criminais. O objetivo dos primeiros não é condenar o alegado agressor, mas indemnizar financeiramente a vítima. O peso das provas é substancialmente menor neste tipo de processo. É necessário que haja apenas mais de 50 por cento de probabilidade de que o alegado agressor tenha cometido o crime”não devíamos estar a confundir a compensação da alegada vítima com uma retribuição por serviços sexuais prestados. Não devíamos estar a chamá-la “aquela grandessíssima puta”, como ilustra tão bem um cartoon de Hugo Van der Ding. Talvez devêssemos ouvir as duas partes com a mesma boa vontade. Pela leitura da investigação do jornal alemão, percebemos que as versões são muito diferentes mas há um momento em que as partes concordam: “ela disse que não”.

 

Hugo van der Ding ilustra nesta tira o sentimento comum dos portugueses.

 

6. Na entrevista que Katryn Mayorga deu ao Spiegel, a mulher americana diz que Ronaldo pediu desculpa. «Depois de me ter agredido, não me deixava ir embora. Não me deixava ir. Chamou-me ‘baby, baby’. E lançou-me um olhar, um olhar culpado. Quase como se sentisse culpa. Não me lembro bem, mas tenho quase a certeza de que disse ‘desculpa’ ou ‘magoaste-te?’. Nesta altura, ele está de joelhos. Diz aquilo dos 99 por cento.” Diz que ele insistiu que era “boa pessoa” exceto aquele “um por cento”.» Depois de sairem do quarto Ronaldo, na descrição de Mayorga, ainda se sentou ao lado dela, como se nada demais se tivesse passado. Ronaldo confirmaria num questionário divulgado pelo jornal: “Depois pedi desculpa”.

Na ficção, a série Dietland retrata um episódio semelhante. A protagonista sobe para o apartamento de um homem com quem tinha saído e começam aos beijos. Ele está muito excitado, quer despi-la e tem claramente a vontade de levar tudo até ao fim. Plum, a mulher, pede-lhe que pare, quer ir mais devagar, não quer tirar a roupa. Ele para por momentos mas depois continua e não para, indiferente ao prazer dela e à vontade dela. Ela sente-se violada, quer ir para casa mas ele convida-a a ficar “podias dormir cá e fazíamos conchinha”.

Aparentemente a violência sexual é desvalorizada por estes exemplares masculinos. A educação sexual deles faz-se, pelos vistos, através da pornografia, um registo em que a violência sobre as mulheres é normalizada.

O sexo é o que eles querem, como eles querem. É “rude”, nas palavras de Ronaldo, se eles quiserem. “Estava sempre a dizer ‘não’, ‘não faças isso’” escreve Ronaldo ao advogado, mas tudo indica que  futebolista não quis ouvir o que Mayorga lhe dizia.

7. No talho esta manhã, cortadores de carne e clientes moderníssimos, por acaso todos homens nas compras para a casa, conversam animadamente sobre “a gaja” ser um instrumento de “Florentino Perez”, presidente do Real Madrid, que “subiu ao quarto” e por isso “já sabia ao que ía”, “fazia vida daquilo”, quis “ganhar mais dinheiro”, “coitado do Ronaldo”. Eu dei uma de mulher honrada que não tem ouvidos. Não fui capaz de contestar o que ali estava a ser dito. Fiz mal.

A violação é o crime violento que mais cresce em Portugal. Em 2017, foram reportados às autoridades 408 crimes de violação, mais 73 que em 2016. Este é o valor mais alto registado nos relatórios de segurança interna desde 2010. A maioria das vítimas tem idades entre os 21 e os 30 anos (22,7%) e 16 e os 18 anos (19,2%). Os arguidos têm maioritariamente entre 21 e 40 anos (50,8%). A maioria dos casos de violação ocorre entre conhecidos (37,7%), a seguir surjam os desconhecidos (31,%). Em terceiro lugar, estão os familiares (17,6%). Os violadores são homens (99,2%) e as vítimas maioritariamente mulheres (90,7%).

A tendência há de sempre crescer enquanto os homens comuns se dedicarem a desvalorizar a violação. Enquanto mulheres o fizerem também. Mesmo que uma agressão possa acontecer em contexto de relativo envolvimento sexual, violação é violação. E não é não. É uma palavra muito simples de entender.

Se uma mulher não tem liberdade para subir ao quarto de quem muito bem entender, parar quando quiser, sair dali quando lhe apetecer, o que dizer da mulher casada que não quer ter sexo com o marido nessa noite? Pode esta dizer que não? Pode dizer não gosto disto, isto não quero fazer?

O que dizer da rapariga com o seu namorado adolescentes, que depois de uns amassos não quer levar a excitação até ao fim. O que dizer desta? Deve também ser penetrada? Também estava a pedi-las? Não, não estava, é hora de dizer isto claramente. Nem estava a fazer-se de fresca. Estavam todas a exercer livremente o direito de autodeterminação sexual, de escolha, exatamente como fazem os homens sem que ninguém que os ponha em causa.

O que dirão os homens do talho às suas filhas? Pensem nisso antes de se indignarem com a próxima sentença mínima para um violador pobrezinho que apanhou a vítima inconsciente, depois de terem posto as mãos no fogo por Cristiano Ronaldo e terem mandado Katryn Mayorga diretamente para a fogueira.

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Carla Macedo nasceu em 1979 e nem acredita que já passou tanto tempo. É jornalista desde 2001, feminista desde os 8 anos, quando teve uma epifania na missa. Esteve envolvida na criação do site Delas.pt, do qual foi editora executiva até ao verão de 2018. Conduziu entrevistas na rádio TSF a mulheres que se destacam em diferentes áreas, no programa Conversas Delas. Na LuxWoman, foi chefe de redação, na Máxima Interiores, também. Colaborou com a Evasões, a Volta ao Mundo (sim, sim, adora viajar!), a Notícias Magazine, a Sábado e muitas mais. Fez televisão para uma produtora, mas os programas nunca foram para ar – danos colaterais da crise! Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, começou no jornalismo numa revista de carros, a Frota, ainda antes de acabar o curso, fez o CENJOR e depois um curso de Jornalismo Multimédia. É casada. Tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Igualdade em casa é coisa que não falta.

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