Brasil: a luta pela liberdade de um país diferente (II)

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Na noite de 2 de Setembro passado um incêndio destruiu o Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, eliminando a maior parte das suas vinte milhões de peças. Entre os tesouros que se perderam para sempre encontravam-se múmias egípcias, frescos de Pompeia, o esqueleto com mais de 11 mil anos da “Lúcia” (os vestígios humanos mais antigos em toda a América) e uma vasta coleção de arte sul-americana desde a era pré-colombiana até ao presente. O presidente do Brasil, Michel Temer, classificou a perca de “incalculável” e o luto nacional foi prontamente decretado com grande pompa. No entanto, nada neste desastre (metáfora perfeita do estado geral em que o Brasil está mergulhado) era imprevisível.

Por exemplo, há mais de uma década que vários inspectores tinham feito notar as deficientes instalações elétricas do museu. O director do museu tinha-se queixado de infestações constantes por térmitas e tinha fechado mais de um terço de todas as salas de exposições por falta de condições. O orçamento anual do museu era apenas um centimo por obra de arte e nos últimos quatro anos só metade desse orçamento tinha sido entregue pelo governo (o resto foi congelado) . Apesar de todos estes riscos, os oficiais locais e governamentais recusaram ofertas generosas de ajuda como a que o Banco Mundial fez: 80 milhões de dólares. Tudo foi ignorado e recusado e o resultado catastrófico.

Os brasileiros ficaram furiosos com este caso porque foi mais uma gota de água numa longa lista de anos e anos de acontecimentos. Primeiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula fez o erro clássico do socialismo latino-americano e concentrou praticamente todo o dinheiro das receitas fiscais em subsídios sociais de apoio. Se isso reduziu por um período a pobreza, a verdade é que a falta de investimento em educacão, infrastruturas, inovação e produtividade acorrentou o país a uma só fonte de riqueza: o preço das matérias-primas nos mercados globais. Quando estas caíram em 2014 o Brasil mergulhou numa recessão profunda (a pior em oitenta anos) da qual só começou a emergir em 2017. Algo perfeitamente evitável se tivesse havido uma política económica mais diversificada, dado que o resto do mundo começou a recuperar da crise de 2007-09 precisamente apartir do final de 2013. Milhões de brasileiros perderam empregos, casas, a inflação galopou, as contas públicas derraparam e o Presidente Temer teve de impor um pacote de austeridade draconiano.

Para completar o quadro de depressão geral, debaixo da regência do PT e recentemente de Temer o Brasil assistiu ao pior surto de corrupção desde a restauração da democracia em 1985. O complexo processo Lava Jato expôs um Brasil subterrâneo em que toda a elite (empresas, políticos tanto da esquerda como da direita, advogados, negócios) estava envolvida até à ponta dos cabelos em formas mais ou menos chocantes. No espaço de dois anos apenas Lula da Silva foi preso, Dilma deposta e como cereja no topo do bolo o próprio Temer foi apanhado em conversa a discutir favores com um empresário.

Esta combinação da pior recessão de sempre no país (depois da promessa da ascenção à “primeira liga” mundial), colapso nos servicos públicos (a violência e o crime voltou às ruas porque não há dinheiro para policiamento, os hospitais não têm suficientes medicamentos, as escolas estão a decompor-se) e corrupção generalizada criou um cocktail altamente volátil. Nem a oposição do PSDB nem o PT entenderam que era precisa uma limpeza radical de todo o aparelho político brasileiro neste contexto: o PT refugiou-se na pura propaganda piegas (Lula, o mártir na prisão, Dilma a vítima de uma cabala) e o PSDB nem experimentou expulsar o seu candidato presidencial de 2014 (Aécio Neves, também ele acusado de corrupção) nem articulou um programa político, económico e social alternativo. Na essência, os dois partidos âncora do regime brasileiro falharam a chamada à responsabilidade e ao fazerem-no deram (como aconteceu nos Estados Unidos, Húngria, Itália e até no Reino Unido) espaço ao novo, ao radical.

O novo e radical nestas eleições brasileiras é claro Jair Bolsonaro. Antigo capitão do exército, fã da ditadura militar de 1964-1985, defensor da revogação dos direitos das mulheres e dos homossexuais, a tradicional receita de extrema-direita (o candidato de Bolsonaro a vice-presidente inclusivamente já defendeu publicamente que o Exército brasileiro terá um papel a desempenhar na resolução dos problemas do país). Claro que tudo isto é mel para um país descontente, exausto e sobretudo farto de tanto caos em todas as dimensões da vida pública. O próprio facto de que Bolsonaro foi apunhalado num dos comícios de campanha só o tornou ainda mais apelativo neste contexto: ele é o salvador e o sofredor (o Brasil tem um carácter nacional tão ou mais forte de sebastianismo messiânico que Portugal).

Chegamos entao a estas eleições (que deverão ter duas voltas dado que nenhum dos candidatos conseguirá mais de 50% na primeira volta) e toda a inteligentzia brasileira está alarmada, na rua a gritar Ele Não, a inundar as redes sociais contra Bolsonaro, como se isto tudo não fosse deprimentemente previsível. Pura e simplesmente a democracia falhou o Brasil e agora tudo é possível. Bolsonaro e o candidato do PT (o muito fraco e também suspeito de corrupção Fernando Haddad, chamado para substituir Lula, impedido de disputar eleições) passarão à segunda-volta. Várias sondagens já dão uma vitória de Bolsonaro na segunda volta, apesar de ele ser também o candidato com a maior taxa de rejeição pelos votantes.

O maior problema brasileiro é que aconteça o que acontecer nestas eleições qualquer solução vitoriosa é péssima para o país. Bolsonaro não só tem credenciais sociais e democráticas de arrepiar mas também tem o programa económico clássico das ditaduras latino-americanas e que, a ser concretizado, só vai piorar a situação brasileira: isto é, mais proteccionismo estatal, mais despesa, mais rigidez económica. Haddad é mais do mesmo sob roupas diferentes: dar ao povo o peixe (subsídios sociais) sem ensinar o povo primeiro a pescar. O que o Brasil precisa, desde investimento em nova tecnologia, educação livre, abertura económica, inovação, competitividade, reforma fiscal, não aparece sequer nem num nem noutro programa eleitoral destes dois candidatos. Juntem esta ausência de política económica credível a um provável regime político-militar sob Bolsonaro e é óbvio que nada augura uma melhoria de vida para os brasileiros nos próximos quatro anos.

Tudo isto era previsível e tudo isto foi descurado de forma negligente. Mais uma vez o centro social, liberal e democrático ausentou-se do debate, não apresentou propostas novas, não se regenerou. Mas, talvez seja esta eclosão final, esta próxima fase (que se adivinha ainda mais turbulenta) o que o Brasil precisa para se auto-regenerar.

Não nos podemos esquecer que este é ainda um país fundamentalmente novo, como apontei a semana passada. O Brasil unido e coeso só existe há menos de 200 anos, a democracia constitucional tem apenas 100 anos: são episódios curtíssimos no espectro de longa duração da humanidade e da humanidade “brasileira” em particular. Se entendermos este país com as suas vantagens únicas (energia, juventude, riqueza de recursos, diversidade étnica, centralidade geográfica) podemos considerar que o Brasil ainda só está no início do seu arco de evolução para algo de melhor, num futuro mais calmo, com muitos acidentes pelo meio. No entanto, para chegar a esse futuro, o Brasil tem de libertar toda a riqueza de recursos humanos que tem e sobretudo saber gerir esses recursos melhor a todos os níveis. Como dizia Bill Gates não interessa a quantidade de recursos materiais que um país tem se não sabe organizar os seus recursos humanos: olhe-se para Singapura, que não tem recursos materiais nenhuns e se tornou no terceiro país mais rico do mundo per capita.

Mas esse futuro não vai ser agora de certo: para já o Brasil enfrenta um novo terramoto de intensidade e duração imprevisível. Só espero que o tsunami resultante não varra os melhores e os visionários desta praia atlântica.

 

 

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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