As redes sociais tornaram-nos a todos em coscuvilheiras de aldeia. Já não se atura.

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Claro que a promessa das redes sociais era o contrário. Poriam em contacto pessoas que a vida distanciou; outras desconhecidas que afinal são perto de almas gémeas nos gostos, valores e ideologias; aproximariam gente de lados opostos – da religião, da política, da área geográfica,… – e permitiriam debates profícuos de que resultariam consensos, sínteses, estrelas, fogo de artifício e mais umas coisas bonitas. Ah, sim, e seriam um poderoso veículo para potenciar e democratizar a liberdade de expressão.

Lamento informar que as notícias das maravilhas todas trazidas pelas redes sociais foram manifestamente exageradas. Não que eu as considere nefastas, atenção. As redes sociais têm grandes benefícios, eu reconheço-los agradecida, e apesar de tudo ainda faço um balanço positivo. Claro que temos de ir aprendendo a viver nas redes sociais – o que permitimos no mural, e quem, se queremos debater com toda a gente ou não, o estabelecimento de muros que impeçam a convivência com certas realidades e pessoas tóxicas, etc. – mas por enquanto considero gerível.

Porém deixo de lado, para este texto, um deve e haver exaustivo, mas queria comentar um aspeto pernicioso – e francamente insuportável – das redes sociais: o ataque cerrado que lá se faz à liberdade de expressão. Isso mesmo.

Com o imediatismo das redes sociais, a compulsão de dar opinião sobre tudo (e quando não se teve tempo de pensar e formar opinião própria, a maioria copia a do vizinho do lado com quem até se concordou um par de vezes), um horror verdadeiramente barroco ao vazio (ai o drama para a humanidade que é não darmos opiniões seminais durante dois ou três dias), o resultado é passarmos boa parte do tempo a comentarmos inutilidades. Todos somos culpados aqui, ou já fomos algures no tempo. E preferencialmente dentro destas inutilidades estão as opiniões alheias que comentamos incessantemente. Tornámos-nos vigilantes compulsivos do que os outros dizem.

Atenção que não desdenho os mecanismos de censura social. Mensagens de incitação à violência ou que de alguma forma aconselhem a diminuição da esfera de liberdade ou de direitos de terceiros merece ser contestada, exibida, censurada. Hipocrisias e double standards, o mesmo. Sexismo, racismo, homofobia merecem escárnio social, bem como valores que repugnem o código de valores da sociedade ocidentalizada desenvolvida (casamentos de meninas na infância, mutilação genital, infelizmente a lista não tem fim). Ah, promover a salubridade do discurso público denunciando fake news e factos alternativos também fica bem. Os liberais, que é o que sou, sempre viram nestes mecanismos de censura social uma das formas poderosas de a sociedade por si própria se regular. (Infelizmente muitos desses liberais tinham liberalismo bastante superficial e agora passam a vida a clamar contra o ‘politicamente correto’ e são dos maiores vigilantes das opiniões alheias.)

Mas que se fique por aqui. E que quando as pessoas não incitam ao ódio nem cabem nas categorias do parágrafo acima, já não se atura que haja florzinhas de estufa que não aguentem e histericamente denunciem, tenham ataques de nervos em pleno facebook, twitter, enfim, qualquer espaço onde consigam vazar a sua magna opinião daquela piada maldosa que alguém fez sobre o magnífico presidente Trump. (Dou este exemplo porque tenho que expulsar gente com frequência porque ficam com os nervos em fanicos quando eu mostro outra coisa que não o mais deferente respeito pela toranja presidencial.)

Se uns não gostam do político X, é deixa-los proclamar que não gostam. Se outros se amofinam com as propostas políticas sobre os protozoários do grupo de ativistas KLM, se pensarem bem encontrarão forma de sobreviver à indignação perante os que se amofinam sem maçarem todo o mundo. Se aqueloutros determinam que fotografar auras é atividade a que toda a pessoa de bem se entrega quatro vezes por semana, permiti benevolentemente que tais pessoas vivam na sua realidade alternativa. Se dois ou três estouvados têm objeção de consciência ao bem de consumo Z, bom, fazem o que querem com o seu dinheiro e tomam as decisões de consumo que lhe aprouver, não?

A esmagadora maioria das vezes as opiniões, por muito que discordemos, não são graves nem vão precipitar o mundo para o apocalipse, pelo que é necessário aprender a respirar, passar à frente e lidar com o facto de outros pensarem de maneira diferente de nós. As redes sociais são atualmente um local de policiamento das mais corriqueiras e inócuas opiniões alheias. Às quais se responde com ferocidade e virulência como se nos estivessem a tentar roubar os pares de sapatos preferidos ou o cartão do clube de futebol. Este fenómeno atinge tanto esquerda como direita, provando que os intolerantes se espalham uniformemente. É impossível continuar a tolerar tantos milicianos do pensamento único. Os trolls humanos que sistematicamente são justiceiros das opiniões têm um entendimento da liberdade tão profundo e rebuscado como os ideólogos da great firewall da China, bem como dos milhares de polícias da net chinesa, que apagam qualquer post suspeito de conter mensagens não aprovadas pelo partido comunista chinês. E se não aprendermos a conviver com mais bonomia, serão as redes sociais que se tornarão tão infectas que ninguém decente lá parará.

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