Supremo Tribunal na era do Me Too

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Mandatory Credit: Photo by MICHAEL REYNOLDS/EPA-EFE/REX/Shutterstock (9898649d) Dr. Christine Blasey Ford arrives before the Senate Judiciary Committee hearing on the nomination of Brett Kavanaugh to be an associate justice of the Supreme Court of the United States, on Capitol Hill in Washington, DC, USA, 27 September 2018. US President Donald J. Trump's nominee to be a US Supreme Court associate justice Brett Kavanaugh is in a tumultuous confirmation process as multiple women have accused Kavanaugh of sexual misconduct. Senate Judiciary Committee hearing on nomination of Brett Kavanaugh to be SCOTUS associate justice, Washington, USA - 27 Sep 2018

Esta semana não tem sido fácil. Por um lado o acórdão da Relação do Porto mantendo a pena suspensa a dois homens que violaram uma mulher inconsciente, com considerações que envergonham qualquer proprietário de sentido de decência, de justiça e, já agora, de capacidade de análise dos factos e do conteúdo e da forma do tal acórdão.

Por outro lado temos o processo de nomeação de Brett Kavanaugh para o supremo tribunal americano. Nas últimas semanas surgiu a notícia de que uma rapariga que Brett Kavanaugh tentou violar, juntamente com um amigo, em 1982 quando todos estavam no secundário, estava disposta a testemunhar perante o Judiciary Commitee do Senado, que trata dos procedimentos para a votação no Senado para confirmar, ou não, o candidato como juiz do supremo tribunal.

Depois disso, a New Yorker noticiou uma segunda alegação de uma colega de universidade de Kavanaugh, contando como ele numa festa lhe pôs o pénis à frente da cara, obrigando-a a tocar-lhe para o afastar. E, nos últimos dias, nova história apareceu, de alguém que trabalha para o estado e tem inclusive security clearances elevadas, de uma mulher que diz ter sido violada em grupo por Brett Kavanaugh e o amigo da primeira história, que de resto costumariam fazer isto usualmente a raparigas em festas.

As três histórias são credíveis, as mulheres não têm nada a ganhar com a publicidade e visibilidade que lhes caiu em cima, a primeira mulher a falar, Christine Blasey Ford, já teve ameaças e de sair de sua casa com a sua família, é perfeitamente ridículo alegar qualquer tipo de conspiração para o surgimento destas alegações.

Ainda assim, apesar de três histórias credíveis, os republicanos têm mantido o apoio ao seu candidato ao supremo, com Trump, o verme do costume, tweetando dando conta como as mulheres que acusam Kavanaugh estão a mentir – descartar as mulheres como mentirosas é uma linha que segue com frequência, com grande aplauso da sua base de apoio. Os republicanos recusam uma investigação do FBI para apurar os factos, agendaram a audição de Christine Blasey Ford para ontem (a única que quiseram ouvir, apesar de as três se terem disponibilizado para testemunhar) e, visto que a audição foi só um pró-forma para a poderem atacar enquanto fingiam que se interessavam pela história, marcaram a votação para sexta-feira, hoje, exceto mudanças de última hora.

Kavanaugh será provavelmente confirmado como juiz do supremo tribunal. Apenas quatro senadores republicanos indecisos poderão impedir a confirmação. O que nos mostra como politicamente ainda se consideram os abusos sexuais às mulheres – em boa verdade, a como ainda se considera a saúde e a liberdade das mulheres sobre o seu corpo – como ninharias irrisórias perante aquilo que conta – os interesses políticos dos homens. Para grande vergonha minha, este estado de espírito é consideravelmente mais visível à direita, e não só nos Estados Unidos.

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Imagem de ABC News

Devo dizer que a segunda alegação surgida – numa festa de universidade ter mostrado o pénis – não é nada que por si desqualifique o candidato. Toda a gente passou pela adolescência em ambientes de apalpões, beijos não solicitados, pénis e rabos exibidos, com ou sem álcool, rapazes e raparigas. As pessoas funcionais crescem e ganham códigos de comportamento mais adequados. Porém, apesar de não o desqualificar, acredito que tenha sucedido. E Kavanaugh não o reconhecer – ou, pelo menos, alegar que não se lembra mas que o podia ter feito enquanto bêbado – torna-o um mentiroso. E isso sim, já o desqualifica como candidato ao supremo.

Mas as outras alegações – de tentativa de violação e violação, incluindo fechar raparigas num quarto e mantê-las lá com violência – são, claro, de outro calibre e muito graves.

Na audição ao senado, Christine Blasey Ford foi credível, convincente, educada, sólida. Kavanaugh foi carroceiro, gritou, chorou, interrompeu, exibiu aquilo que se pode chamar masculinidade tóxica (que é como quem diz, histeria agressiva), insultou – e, sim, visivelmente mentiu em pormenores e desconversou, muito.

Se Kavanaugh for confirmado, como se prevê, podemos concluir que nem na era do Me Too se dá credibilidade às histórias das mulheres. Que se força politicamente que a palavra de um homem em múltiplos ataques de nervos vale mais do que a palavra de três mulheres sólidas e credíveis. Que se já não conseguem chamar Blasey Ford de mentirosa, alegam agora que ela coitadinha teve um trauma, verdade, mas é incapaz de contar o trauma. A cabeça das mulheres sempre foi fraquinha, bem sabemos, não é? Melhor não lhes darmos ouvidos. Ficará estabelecido para sempre que as mulheres são mentirosas e mentem para prejudicar as carreiras dos homens – ou, dito de maneira menos sonsa, as carreiras dos homens valem muito mais do que as vidas das mulheres. (Tal como no acórdão do Porto.)

Bom, desde o início que fazia parte do programa político oficioso (mas universalmente propagandeado e reconhecido) do trumpismo o machismo institucionalizado. Os magotes de trolls – reais ou bots russos ou americanos – insultando e perseguindo mulheres nas redes sociais foi algo que, é sabido, foi uma estratégia concertada dos apoiantes de Trump. Calar as mulheres no espaço público é um objetivo declarado do trumpismo e dos seus apoiantes. A confirmação de Kavanaugh será a tentativa de impor isto mesmo: mais vale as mulheres convencerem-se de que devem estar caladas, porque se falarem, por mais numerosas e credíveis que sejam, serão ignoradas, insultadas e tornadas irrelevantes. Coser meias é mais útil, aprendam.

Além de calar as mulheres, outro objetivo declarado do trumpismo e dos trumpistas é manter a impunidade da violência sexual sobre as mulheres. Claro que estas almas hipócritas passam a vida a falar das violações na Suécia – feitas por islâmicos. E querem fazer-nos acreditar que se escandalizam pelos casos de saias de Bill Clinton (na verdade só os usam para atacar Hillary Clinton). Têm a posição mais imoral de todas: usam a violência sexual contra mulheres como ataque aos seus inimigos políticos mas atacam vilmente as mulheres quando os agressores sexuais são da sua área ideológica. São tão imorais que nem estão acima de usar um trauma destes na vida das mulheres como arma de batalha política. Nós só valemos tanto quanto servimos os propósitos políticos dos trumpistas.

Vai haver eleições em novembro, as midterms. Provavelmente os republicanos perderão a maioria dos congressistas, mas no senado não têm muitos lugares periclitantes em disputa agora. Os governadores republicanos que vão a eleições estão já preocupados com a manutenção da candidatura de Kavanaugh. Não sei o que acontecerá, e neste momento não tenho fé na humanidade em geral e nos americanos em concreto, mas desejo fortemente que as mulheres e os homens de boa vontade americanos provoquem perdas aos republicamos de dimensão apocalíptica.

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Senador Lindsey Graham a fazer mau teatro político (mas eficaz junto da base republicana) em defesa de Kavanaugh. Imagem de NBC
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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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