Festival ‘Menina não bebe whisky’

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Entre 27 e 29 de setembro ocorre o The Famous Fest – Festival de Humor de Lisboa, sob o mote “Espera o Inesperado”. Sobem ao palco do Cineteatro Capitólio dezassete nomes: desde sotaques portugueses a brasileiros, artistas de stand-up a escritores, argumentistas a músicos.

Apesar do nome oficial, o TFF não é organizado nem apoiado por uma entidade governamental ou municipal. Este evento é única e exclusivamente uma estratégia de marketing e relações públicas levada a cabo por uma marca de bebidas alcoólicas de forma a publicitar a marca, criar good will entre consumidores (atuais e futuros) e, como consequência, aumentar as vendas do produto.

A escolha de nomes com experiências variadas é, do ponto de vista comercial e estratégico, necessário. Num país pequeno como Portugal, onde a liberdade do riso ainda é recente e o desinvestimento cultural se tornou tradição, a tarefa de encontrar sangue novo é essencial para renovar a oitava edição de um festival com um género tão específico.

Assumindo que estes espetáculos servem mais do que a cultura que encerram em si mesmos, que são o veículo para a transmissão de uma mensagem comercial, que a escolha dos artistas e do seu discurso reflete os valores e imagem da marca organizadora do evento, é pertinente perguntar se há de facto uma familiarização com o panorama humorístico português ou se os convites são feitos com base no conhecimento de nomes e na quantidade de seguidores que os artistas têm nas redes sociais, sem atentar ao conteúdo publicado online ou sequer ao material apresentado ao vivo. É também pertinente perguntar, num mercado de bebidas alcoólicas com uma cada vez maior diversificação de players, numa convivência sempre ligada e global, se as marcas podem continuar a usar os mesmos sistemas de comunicação, quando a internet era um futuro distante e as mensagens das marcas eram facilmente controladas pelas mesmas.

Passando os olhos pela lista de convidados, não é preciso esperar pelo que já é esperado: nomes repetidos noutros anos e a ausência de experiências variadas – vinte e cinco homens, zero mulheres. Sendo que o critério de seleção de convidados parece ignorar a qualidade humorística dos mesmos (veja-se o convite a músicos), e como se observa a oportunidade dada a nomes praticamente desconhecidos do grande público de subirem a palco, que razões apresenta esta marca para não convidar pelo menos uma mulher? Dados de 2004 da Consumidor/Marktest indicavam que 84,9% dos consumidores de whiskey eram homens, sendo que 15,1% eram mulheres. Se o painel de convidados fosse escolhido tendo por base as pesquisas de mercado, 21 dos convidados seriam homens e 4, mulheres.

A ausência de mulheres no painel não seria problema na época em que este estudo de mercado foi feito. Em 2007 o Público questionava a razão para a existência de “poucas mulheres a escrever humor”. Nuno Artur Silva, um dos entrevistados e sócio-fundador das Produções Fictícias – a maior produtora de conteúdos de humor em Portugal – afirmava que “as mulheres podem achar que essa [a escrita de humor] é uma actividade superficial. Elas preferem que lhes façam rir.”, e que não existia “machismo nem misoginia na escolha dos colaboradores”. Em 2007 as Produções Fictícias encontravam-se (aparentemente) de boa saúde, o Facebook dava os primeiros passos em Portugal, Bill Cosby desconhecia consentimento, e o feminismo não era punchline em 3/5 dos sets de stand-up português produzido por homens. Passados poucos anos, a globalização, a democratização das redes e (também) o advento do feminismo norte-americano trouxe para Portugal um novo fôlego aos movimentos feministas portugueses. Começaram a surgir no nosso país vozes que encontraram na internet caixas de eco que transbordaram para a vida fora dos smartphones e computadores. Gradualmente questionou-se a validade de paradigmas entranhados na sociedade, de que forma estes prejudicava não só o indivíduo como as pessoas que lhe eram queridas, e se não seria este o tempo de encontrar novos modelos que permitissem uma convivência mais igualitária e justa em sociedade. A facilidade de encontrar novos conteúdos de entretenimento online contribuiu para a importação destes valores e ajudou a cultivar um público mais consciente, culto, crítico e exigente. Um público que já não aceita o que lhe é imposto, que procura um determinado conjunto de standards nos produtos que consome e que faz questão ter a sua opinião e desagrado registados – basta passar os olhos pelo facebook, twitter, instagram ou outra rede social.

Enquanto que em 2007 poderia nem ocorrer a necessidade de se questionar a ausência de mulheres em painéis, hoje não só surgem esta e outras perguntas como se exigem soluções: porque é que em 8 edições do festival só subiram a palco 18 mulheres, sendo que apenas treze eram ligadas ao humor? Porque é que um festival que não se acanha em ter em palco nomes masculinos menos sonantes e menos experientes, não faz o mesmo com nomes femininos? Porque recusaram as mulheres o convite que lhes foi endereçado para a edição deste ano? Porque é que, face às recusas, a organização não procurou outras mulheres, independentemente de serem humoristas ou não? E porque é que, tendo os contactos das mulheres dos anos anteriores e uma tradição de repetir artistas, o festival não contactou uma das 18 mulheres participantes do evento? Três dias a ouvir vinte e cinco homens a falar não é, como sugere o slogan, o inesperado.

Há muito mais humor para além do que existe no The Famous Fest. O humor é vasto, diverso e é também sobre identificação. A exclusão de vozes diferentes afasta aqueles e aquelas que apreciam o para além do óbvio.

Os discursos online ficam para sempre, e é ingénuo por parte das marcas acreditar que estes não produzem efeitos reais na comunicação e que não contaminam, mesmo que a longo prazo, um público que pode ser o do seu produto.

Afinal, as mulheres também bebem whiskey.

 

Carlota da Internet.

Escreve um artigo a cada quatro anos.

Twitter: @gaitadaria

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Que curioso. Há quem considere vitimização uma mulher usar o seu poder como opinadora e fazedora de opinião, chamando a atenção para outro poder, o poder que as mulheres têm enquanto consumidoras (no caso, de whiskey.

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