Maria Filomena Mónica e o mundo atual que já não compreende

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Tenho admiração por Maria Filomena Mónica. É uma pessoa que diz o que pensa sem grandes contemplações nem constrangimentos, o que me agrada; nunca aprecio os excessivamente cautelosos. Diverti-me com o exercício de ofender toda a gente que foi a escrita da sua autobiografia Bilhete de Identidade. Pensa por si – o que numa época de carneiradas e espírito de manada (mesmo nos que gostam de se pensar out of the box), clubismos políticos levados ao extremo, falta de seriedade ostensiva para defender argumentos periclitantes, bom, é pelo menos digno de nota e de aplauso.

E expõe-se. De uma maneira muito anglo-saxónica que a mim, anglófila, me é apelativa. Que nada tem a ver com os pudores bolorentos que ainda persistem por Portugal.

Isto tudo dito, surpreendeu-me ler as suas observações sobre o Me Too na última entrevista que deu ao Público. Claro que foram um pormenor da entrevista, mas logo aproveitado para denegrir o movimento. Surpreendeu-me não tanto a opinião, mas o desfasamento de Maria Filomena Mónica com a realidade que está a comentar. E julgava-a mais perspicaz que isso.

Vamos por partes. Por um lado, Maria Filomena Mónica, sobre o assédio sexual, refere que sempre foi possível as mulheres recusarem os avanços masculinos e pagarem o preço por isso. Claro que sempre foi possível. A questão que se reivindica tem tudo a ver com isso: reclamamos que podemos resistir aos avanços masculinos num contexto de assédio sexual sem termos por isso de pagar um preço. Porque esse preço não é da ordem natural das coisas que se pague, não é pedido aos homens para o pagarem e é simplesmente mais um constrangimento à igualdade na progressão profissional das mulheres.

Não entendo como a rebelde Maria Filomena Mónica não vê que esta sua argumentação é a defesa da manutenção do princípio de fazer as mulheres pagarem. Se as mulheres são insubmissas (não aceitam as propostas masculinas) então têm de pagar (com a destruição ou prejuízo da carreira e dos sonhos profissionais).

Mas o outro ponto de Maria Filomena Mónica é ainda mais risível. Argumenta que as netas, com o Me Too, ficaram com medo dos homens. É de gargalhada. No primeiro momento de toda a história da humanidade em que as mulheres podem ripostar com eficácia à violência sexual e ao assédio sexual – o que, claro, aumentará o risco dos homens (os propensos a estes abusos, que não são todos, nem de longe nem de perto) a terem estes comportamentos e, como sempre, o aumento do risco e da punição diminui os maus atos – é que se diz que as mulheres começam a ter medo dos homens? Risota. Isto só pode vir de uma mulher que sempre viveu numa bolha entre a Parada e Oxford, a sair à noite continuamente escoltada pelos amigos posh, em meios profissionais ainda a saírem do Estado Novo, tudo reduzido e com pessoas vindas de famílias bem na vida que podiam por os filhos a tirar um curso superior. Em suma, num mundo que já se evaporou. Como já se esfumou o mundo das revistas Eva e Modas e Bordados que estão na imagem lá em cima.

O desconhecimento da realidade atual – aquela com que lida o Me Too – é gritante. Um mundo onde as mulheres saem à noite, se divertem sozinhas ou só com amigas femininas, têm horários profissionais pouco católicos que as obrigam a andar pela rua e pelos transportes a desoras, que têm vida social, e jantam fora e passam fins de semana fora e vão a festivais de música e usam transportes públicos recorrentemente e acampam e um quilométrico etc. Profissionalmente já há gente de todos os backgrounds sociais, os contextos são maiores, a concorrência é muito mais visível e vincada, os horários não existem. Enfim, a possibilidade de assediar e abusar exponenciou-se.

Só mesmo alguém desligado da realidade supõe que só agora as mulheres têm medo dos homens desconhecidos, aqueles que se cruzam com elas no espaço público. Como se não fosse comum as mulheres fazerem tudo por evitarem andar sozinhas pelas ruas à noite – e ficarem aterrorizadas se o tiverem de fazer. Como se qualquer uma de nós não ficasse desconfortável de imediato quando está num ambiente de difícil escapatória só com homens que desconhece. Como se não tivéssemos notícias de violações ou não conhecêssemos quem tenha vivido violência sexual. Qual de nós nunca ouviu conversas nojentas que nos eram dirigidas, que nos puseram com medo, de homens com quem estávamos sozinhas – taxistas, médicos, professores,…?

Dizer que foi com o Me Too que as mulheres começaram a ter medo é de uma alienação tão absurda da realidade que não entendo como pôde ter sido argumentado por uma mulher inteligente. Afinal deve ter sido uma menina protegida, com a mania de ser rebelde, que nunca viveu na realidade das outras pessoas.

(E diz-vos isto outra menina protegida. De resto nem o meio social protege contra abusos sexuais e violações. Patti Davis, a filha de Ronald Reagan, foi sexualmente abusada. Aqui contei algumas histórias de abusos; uma passou-se numa família benzoca alentejana snob às últimas; outra com uma pessoa de uma família com pedigree e poder político.)

A alienação e o desconhecimento do mundo atual mostrado por Maria Filomena Mónica parece ser comum na sua geração. Margaret Atwood também já disse insanidades sobre o Me Too. Catherine Deneuve, o mesmo. Talvez fosse conveniente começar a dizer estas senhoras que agradecemos a preocupação, apreciamos a sabedoria do que dizem onde ela existir, mas que deviam começar a ter a humildade de não comentar o mundo que já não conhecem nem compreendem.

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