MÃES TÓXICAS: COMO FUGIR-LHES?

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Imagem de Isabel Santiago

Na gíria da psicologia, o termo usado é “mães tóxicas”. São progenitoras incapazes de amar verdadeiramente os próprios filhos. Essa ausência de amor é uma patologia que afeta negativamente a vida das crianças, ao ponto de lhes retirar toda a autoestima, e até muito tarde na vida. Entre a manipulação da mãe e o sofrimento dos filhos, existe uma teia complexa feita de vergonha, silêncios e omissões. A cura é possível, mas o processo é lento e demorado.

Na maioria dos casos conhecidos nos gabinetes de psicologia, só na idade adulta é que as vítimas têm plena consciência da “toxicidade” em que viveram e, por isso, precisam de ajuda de fora. Para cortar esse cordão tóxico que as prende desde pequenas. Foi o que aconteceu com Cristina S. e Francisca. P. (nomes fictícios), duas mulheres feitas, de 45 e 30 anos respetivamente, só recentemente “descobriram” que as mães sofriam do Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN, de acordo com o Manual de Saúde das Doenças Mentais). Entre saber que o mal não estava nelas, mas sim nas mães, foi um longo e tormentoso processo.

Patrícia Costa, psicóloga e psicoterapeuta clínica de relações familiares, em Lisboa, dá o exemplo de um elemento tóxico para explicar o mecanismo destas relações patológicas. O problema é tanto maior quanto maior a toxicidade da progenitora: “depende se (a mãe) for álcool ou arsénico”, compara. “As piores são aquelas cujo gás tóxico cheira a perfume”, refere ironicamente.  É que uma das principais características destas pessoas é terem sintomas que não são óbvios, quer dentro da própria família quer para quem lida com ela. Contudo, há sinais de ambos as partes.

Por um lado, as mães raramente admitem que falham. Sentem-se perfeitas e acham que o mundo gira à volta delas. Por outro, os filhos vivem num doloroso sentimento de culpa, porque gostam naturalmente das progenitoras. Este ciclo vicioso e viciado torna mais difícil a rutura desta dinâmica perniciosa. Mas porque não se fala tanto nos pais? Não é porque não exista mas é entre o sexo feminino que é mais conhecida pelos especialistas em saúde mental. Patrícia Costa afirma que a razão é simples e tem a ver com uma questão meramente biológica:  a gestação. “Arrisco-me me ia a dizer que a relação (tóxica) começa desde que se inicia o seu desenvolvimento no útero materno, equiparável a um útero emocional”. Quando uma mãe não quer estar grávida, por exemplo, pode transmitir esse sentimento para o bebé: “A autoimagem e autoestima começam (da criança) formar-se muito cedo”, elucida.  Se o efeito “tóxico” das mães não “é óbvio a um nível reflexivo e do pensamento”, é, no entanto, sentido “muito precocemente ao nível emocional dos filhos”, conclui a psicoterapeuta relacional. As vítimas crescem a pensar que as relações “normais” são mesmo assim, mesmo que sofram muito e em silêncio.

Cristina S., com 38 anos, divorciada e mãe de dois filhos (de duas relações diferentes), sentiu desde muito nova que não devia ser merecedora do afeto materno: “Desde os meus 4 anos que a minha mãe dizia que uma prostituta valia mais do que eu”, conta. “Dizia que eu era pior do que uma cadela porque, a ela, mandava-a embora e ela ia, e eu não”, exemplifica a mesma. Toda a sua vida em casa dos pais soma insultos, tareias, abandono e humilhações constantes.

Nem um elogio ou um “obrigada” ouviu da boca da mãe, como reconhecimento do apoio sempre lhe deu como filha, na lida da casa ou na educação dos irmãos mais novas, recorda.  A única coisa positiva que ouvia era quando ela lhe chamava “o seu braço direito”. “Cuidei do meu irmão mais novo e assumi as responsabilidades dele, sendo eu 8 anos mais velha que ele. Tratava-o se fosse meu um filho”, explica Cristina.

Apesar de ter orgulho nessas tarefas de responsabilidade atribuídas pela mãe, não era uma criança feliz. Desejava a aprovação da mãe, mas esta nunca acontecia. Sempre se sentiu menos do que os dois irmãos, que não eram forçados trabalhos domésticos, como ela: “sentia-me humilhada ao (vê-los) todos deitados, com cobertores, bem quentinhos, e eu ali no frio, a lavar a loiça e a limpar a cozinha”.

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Alexis Conason

Existem filhos preferidos?

Para Alexis Conason, psicoterapeuta norte-americana e colunista do New York Times e Vogue, “não é invulgar que uma mãe narcísica favoreça um filho em detrimento de outro”.  Pode ser natural ou estratégico, como forma de ter poder sobre todos: “como colocar uns contra os outros, em competição”, exemplifica a mesma. É normal que os filhos acreditem que “o problema está neles e não nos pais. Ela pode acreditar que é a causa do problema e não da mãe”, adianta.

Foi justamente isto que se passou com estas duas mulheres.  No caso de Cristina S., a sua autoestima era tão baixa que achava que não era uma pessoa amável, ou seja, digna de amor. Tanto foi assim que, da primeira vez que um homem se apaixonou por ela, não quis acreditar que tal fosse possível: “Mas como é que alguém pode gostar de mim?!”, lembra-se de perguntar a si própria.

“Mãe, não me batas! Eu gosto de ti!”

Apesar de ter a noção que era maltratada desde que sabe que “é gente”, Cristina conta que só muito tarde é que procurou ajuda. Por vergonha, medo, mas também por existir um fiozinho de esperança ou de ser amada. “Ela (a mãe) só me tratava bem quando queria alguma coisa de mim”, relata, com tristeza.  Logo a seguir batia-lhe e insultava-a. “Chegou a partir cabos de vassoura a bater-me no corpo”, acrescenta a mesma.

Lembra-se de um dia, em criança, se ter voltado para ela e implorar: “Mãe, não me batas! Eu gosto de ti!”. “Eu quis que ela soubesse que eu a amava”, acrescenta. Porém, “no dia seguinte, ela pôs-se a contar às amigas o que eu tinha dito enquanto me batia, mas (…) de forma trocista, para me ridicularizar”. Dentro da família, era como se existisse um pacto de silêncio: “Como é que o meu pai deixava?! Eu pensava que se, fosse a minha irmã ou o meu irmão, (…) eu ajudava”, conta.

“Nós estamos programados para procurar o amor das nossas mães e aceitar que (algumas mães) são incapazes de amar é extraordinariamente doloroso”, explica ao Alexis Conason. Mesmo quando há testemunhas na família, estas podem ser omissas.  Cristina acredita que o pai gosta dela. Só não percebe ainda é porque é que ele nunca fazia nada para a proteger. A própria mãe, que toda a vida teve amantes, dizia-lhe que o pai era “um banana”.

Depois de várias tentativas de fuga e de andar a dormir por todo o lado (primeiro em casa de tio e depois da avó), ao mesmo tempo que estudava e trabalhava, as colegas já não aguentavam ouvir as queixas de Cristina. “Não suportavam mais o meu estado e marcaram-me uma consulta numa psicóloga”, conta. Foi nessa altura que entendeu que estava doente, e há muito tempo: “descobri que realmente eu tinha depressão, desde os 15 anos pelo menos”, refere.  Foi o melhor que lhe podia ter acontecido, ter chegado a esse ponto.

A mãe bateu-lhe até aos 23 anos e pôs toda a família contra ela: “ela faz uma triangulação entre os filhos, acha-se superior”, diz. Apesar de ser “invejosa e mentirosa (…), a grande maioria das pessoas acredita nela”, continua. “Noto um tom de desprezo das pessoas que tem uma relação de amizade com ela e (também) de parentes, quando falam comigo”, nota. Agora vive a 7 quilómetros dela e só para poder ir ver os irmãos que, lamenta, “ficaram do lado dela”.

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Imagem de Isabel Santiago

Competição ou ciúme?

Francisca P., 45 anos é divorciada: “sempre fui instável nos meus relacionamentos”, confessa. “Acho que vivo com uma raiva que ninguém aguenta”, lamenta. E culpa a mãe por isso. Esta produtora, atualmente desempregada,  fica nervosa só por falar da mãe: “são tantos os episódios que, para alguém  (que esteja) de fora, parece que estou mentir”, começa por dizer. Sabe que tem uma mãe narcisista depois de várias pesquisas na internet.  O “mal” (como diz) não podia estar só nela.

Diz ter ficado mais calma depois de ter feito “muita psicoterapia e (…) não aguentar mais o ascendente” da mãe. Mesmo a viverem em cidades diferentes, “há sempre uma tensão qualquer, alguma coisa por resolver”, especifica. “Nunca consigo estar em paz com ela ou com a ideia dela”, conta. “Parece a minha pior inimiga, uma madrasta, uma afogadora da minha felicidade”, acrescenta Francisca.  Só depois de ter tido uma depressão, a seguir a ter-se divorciado do marido (“uma altura especialmente dura”), é que se apercebeu que a mãe “sempre foi tóxica”.

“Mas agora também é fácil dizer”, adianta Francisca. Já se encontra em processo de afastamento da mãe. Mas precisou da ajuda de antidepressivos, ansiolíticos e de “muitas idas e dinheiro gastos em psiquiatras e psicólogos”. “O que a minha mãe queria era que eu fosse internada num hospital, de preferência de loucos”, conta, com alguma raiva.

Diz ter tido “uns períodos e até anos” a sofrer menos.  Foram períodos em que se sentia emocionalmente mais amparada pelo então marido. Mas a tensão com a mãe não desapareceu: “Parecia que ela (a sua mãe) tinha o dom de perceber quando eu estava pior para carregar em cima de mim”, acusa a mesma.  Nos intervalos em que não discutia com a mãe, “voltava a acreditar na reconciliação”, diz. “Ninguém faz ideia do tanto que chorei”, relata. “Era como um amor não correspondido”, compara a mesma. Só que da mãe sabia que não se podia divorciar. Do marido sim. “Acho que a minha mãe contribuía para as nossas discussões”, confessa.

A fase pior foi depois do seu divórcio, há uns anos: “a minha mãe só serviu para eu me sentir pior e mais mal-amada”, revela. Nessa altura, teve de recorrer à ajuda dos pais para as despesas do dia-a-dia. Mas também para “tentar descansar da rotina e das frustrações (…) da vida”, como diz.  Andava estafada, tanto física como psicologicamente mas, sempre que ia a casa dos pais, a mãe “ficava doida que o meu pai me desse mais atenção do que a ela. Parecia que tinha ciúmes de mim…”, recorda.

“A minha mãe cortava-me a palavra, desvalorizava completamente os meus problemas e estava sempre a implicar comigo até provocar uma discussão”, acrescenta. Francisca acha que foi “posta à prova pela vida” de uma maneira que nunca esperou e “por parte de quem não era suposto” (a própria mãe). Na altura em que estava a recompor-se emocionalmente de “uma separação dolorosa”, ainda tinha a mãe a chamar-lhe “nomes”: fiteira, mentirosa, aldrabona e interesseira eram alguns.

“Ela dizia que era tudo uma fita, que ele (o ex-marido) não aguentou o meu feitio, que eu não arranjava trabalho porque ninguém gostava de mim, que não tinha amigos”, enumera Francisca. “Sempre que estava com ela, ficava pior. Só queria fugir, desaparecer da face da terra”, recorda com mágoa. “Parecia que só ficava contente quando conseguia que o meu pai tomasse o partido dela”, refere.

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Imagem de Isabel Santiago

“Intoxicar” para reinar

O modus operandi de uma mãe tóxica corresponde a um padrão de comportamento: “Em vez do filho ou da filha se sentir seguro quem dita o rumo é a incerteza da resposta afetiva”, explica a psicóloga clínica Patrícia Costa.  Os vários elementos da família são manipulados e há uma total subversão de papéis e sentimentos. “A competição substitui a cooperação, criatividade dá lugar à repetição, a admiração é irmã da inveja, a implicação é substituída pelo desinvestimento e desinteresse”, precisa a psicóloga Patrícia Santos, que já teve muitos casos como estes à frente.

Francisca confirma muitos desses padrões. Tem uma irmã mais velha, com quem sempre foi comparada. “Ela é a certinha, a grande ‘bênção dos Céus”, ironiza. “Eu até gosto dela”, conta, apesar de se verem pouco. Já nem sabe se não se dá por irmã por “diferença de feitios” se por terem sido ambas “envenenadas” pela mãe, durante a infância. “Acho que a nossa mãe nos dividiu a vida toda e agora é tarde demais”, conclui a Francisca. O pai, com quem diz ter tido sempre uma boa relação, parecia que entrava no jogo da mãe: “eu penso que ele também deve ser manipulado. Não sei se sou eu a querer desculpá-lo, ou se ele tem noção, e não age com medo do que ela lhe possa fazer”, adianta. Também como no caso de Cristina, o papel do pai é o de uma figura querida, mas omissa.

Sempre que recebia um elogio do pai por algum sucesso profissional ou por estar mais bem arranjada, a mãe “parecia que ficava a ruminar contra ela”, explica. “Eu já sabia que mais tarde ou mais cedo ela ia encontrar uma maneira rocambolesca de desviar a atenção dele”, recorda-nos.

Tanto o psiquiatra como o psicoterapeuta lhe disseram para se afastar da mãe, pois ela era “incapaz de amar”. “Eu sofria por dois motivos: pelo que ela me dizia e fazia e depois por me (deixar) ir tão abaixo… Sentia-me a ficar doida e ela ainda ajudava à festa”, conta, crítica.

“O que mais me custa”, confessa: “é ter crescido sempre a levar da minha mãe e de me sentir a culpada da infelicidade dela”.  “Só aos 40 é que sei isto?!”, questiona-se. “Ela sempre me mandou para baixo, sempre!”, reforça, quase como se ainda estivesse a convencer-se disso.

Sair deste ciclo, ou “fazer o detox” de uma mãe narcisista depende de muitas coisas. Patrícia Costa volta a recorrer ao exemplo do elemento tóxico: “Depende se se trata te álcool ou de arsénico”, refere. “Há diversidade de fatores em interação”, adianta. Entre eles, o contributo que a própria vítima dá a si própria, ou seja, a vontade de se autonomizar.  Esse esforço individual “não é fácil de apurar”, nota.  “Pode funcionar como protetor ou como agravante (da relação)” explica Patrícia Costa.

Sair do raio de ação da pessoa pode “diluir” o efeito tóxico. Mas os recursos exteriores também são importantes: “Quanto mais rica e diversa for a vivência emocional e relacional” da vítima, mais possibilidade existe de esta melhorar a sua saúde mental ou mesmo curar-se, defende Patrícia Costa. Isso pode acontecer através do trabalho, do grupo de amigos ou de um relacionamento amoroso. O processo pode ser mais ou menos lento, experienciado com mais ou menos dor. Se é o anti-amor que intoxica será também pelo amor que a ‘reabilitação’ se dará”, conclui.

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O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

2 COMENTÁRIOS

  1. Gostei de ler e revi-me nesta situação. No fundo, sempre soube que havia alguma coisa de errado na minha vida, mas não conseguia definir o que era. Não só tive uma mãe tóxica, como também pai e a restante família. Pelos 31 anos percebi, por fim, que a culpa não era minha, nunca foi. Mas em termos emocionais, destruíram-me. A solidão está-me destinada. Nunca tive uma relação próxima com ninguém. Mas pelo menos estou a desfrutar, há um ano e cinco meses, de alguma paz. Desde que não vivo com eles, sinto-me muito melhor!

  2. Como a vida nos crucifica sem sabermos como e por quem,facada nas costas ,intermitentes ate que a morte, amorosamente nos leve,devagar e cuidadosamente.

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