A política é o meu contributo cívico

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Seguindo a máxima de que a direita quando saí à rua é para jantar fora, a vítima desta
semana foi a Aline Gallasch-Hall de Beuvink, Historiadora, Doutorada em História e Mestre em História e Cultura Pré-Clássica, vice-presidente do Partido Popular Monárquico, professora universitária e deputada na Assembleia Municipal em Lisboa.

Texto de Sofia Afonso Ferreira.

Entrevista por Sofia Afonso Ferreira e Maria João Marques.
Fotografias de Isabel Santiago.

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A caminho do jantar ouço no rádio do táxi a notícia do ataque a tiro às janelas do gabinete do PSD na Assembleia Municipal de Lisboa. Pego no tema quente do dia para lançar a primeira pergunta enquanto decidimos os vinhos. “Como é que é possível andarem aos tiros à Assembleia Municipal? Já chegámos a este ponto? É assim tão perigoso ser político nos dias que correm?” Aline responde com humor que é uma chatice, falha sempre estes momentos, mais uma vez estava ausente, poderia voltar aos tempos de adolescente, quando a alcunha era „Gallasch-nikov“. Na verdade o ataque decorreu no fim de semana, quando a Assembleia estava vazia, e só foi reportado na segunda-feira, dia do nosso encontro. “Parece que tentaram fazer pontaria e disparar para o gabinete acima, portanto ficamos na dúvida em que grupo político queriam acertar. Podia ser alguém com falta de pontaria ou só andar à caça aos pombos.” Coisa bastante provável, afinal estamos no país que um dia ficou com metade do território às escuras porque uma cegonha estatelou-se num cabo de alta tensão no meio do Alentejo. Pelo sim, pelo não, recomendamos aos vereadores e deputados passarem a vestir colete à prova de bala. Alguém na mesa adianta a informação que os deputados têm direito a licença de porte de arma. Esta informação carece de confirmação, até porque o vinho já tinha chegado à mesa. Do tiroteio na Assembleia Municipal passamos à questão das armas no EUA, escutas e Sócrates (sim, é difícil de perceber a sequência mas já estávamos no segundo copo). “O Sócrates provoca-me urticária”, avança a nossa convidada. “Podem pôr isso na entrevista.” Na mesa é unânime que até dava um bom título.

Daqui saltamos para referências, na sua vida pessoal e política. “A minha família tem um
lado matriarcal muito forte, embora o meu pai e o meu avô também sejam ídolos para mim. A minha mãe é, no entanto, a minha grande referência. De origem ucraniana, nasceu na Áustria depois da segunda guerra, foi para o Brasil com quatro anos e falava cinco línguas. Foi obrigada a isso, fugiram devido a várias vicissitudes e a primeira coisa que acontecia quando chegavam era interrogarem as crianças para perceberem a origem. A minha mãe é uma força da natureza. Ou a minha avó. Se pensam que sou uma pessoa forte, têm de as conhecer.”

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E a eterna dificuldade de singrar profissionalmente enquanto mulher? “Eu luto pela
igualdade de direitos e oportunidades mas eu não sou igual a um homem. Nem quero ser. É difícil ser mulher em Portugal. A todos os níveis. Combater assédios, provar que somos capazes, muitas vezes melhores intelectual, académica, profissionalmente, de uma forma constante, todos os dias, só por sermos mulheres”. E no mundo académico? É melhor ou pior? “É assim em todo o lado. Felizmente estou numa universidade onde não encontro isso mas já encontrei noutras. Um sexismo inacreditável.” Talvez apenas um indício de uma sociedade repleta de estigmas? “A sociedade está repleta
de preconceitos. Se defende a ecologia, é de esquerda. Se defende as touradas, é de
direita. Não é assim. As pessoas têm todo o direito a defender coisas diferentes sem
estarem marcadas e „carimbadas“ por uma determinada ideologia. Outro preconceito é que a cultura e os intelectuais estão todos na esquerda, não é verdade. Para a esquerda, a
direita só lê banda desenhada e o Vasco Pulido Valente”.

Por falar em preconceitos, não é um absurdo o Passos ter sido durante anos atacado por
piadas da ala da esquerda por residir em Massamá? Os mesmos que nunca consideraram
suspeito que Sócrates residisse em apartamentos de luxo em Lisboa e Paris? “Exactamente. Aliás, tinha o nome na montra na loja de roupa mais cara do mundo. E isto não acontece a quem compra um fato ou dois apenas.” Do Sócrates passamos à Margaret Thatcher. “Ainda me recordo quando a Thatcher visitou uma mina, tirou o capacete e o cabelo estava impecável. O próprio cabelo era um capacete. Mas não era por isso que foi considerada a Dama de Ferro. É porque era mesmo indomável”. Delírio na mesa. Penteados à parte, é unânime que a Thatcher marcou esta geração, crescemos quando estava no governo.

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Mais uma garrafa para a mesa. Para além dos tiros aos pombos, como é que decorre a vida na Assembleia Municipal? “Fernando Medina raramente responde às minhas perguntas e quando responde nunca é directamente. É algo que faz muito com a oposição, ignorar. A esquerda lida muito mal com a oposição, mais este executivo que o anterior. Fernando Medina tem uma gestão política arrogante. Finge ser aberto ao diálogo mas sempre que pode, e tem podido muitas vezes, não responde a perguntas e evita os consensos. Para além disso, não respeita as decisões da assembleia municipal. Esta posição põe em causa a descentralização política e a independência da assembleia enquanto órgão eleito pelos lisboetas por voto directo. É também curioso porque eles nem sequer têm a maioria na Câmara, tiveram de a ir buscar ao Bloco de Esquerda, o que eu acho execrável da parte do BE: na tentativa de ficar no poder, juntaram-se a alguém que eles criticavam ferozmente na legislatura anterior e agora é como se fosse o mundo perfeito. Só por pura estratégia de conseguir estar no poder, não só a nível nacional como local. Isso repugna-me.”

Avançamos no vinho e nas propostas na assembleia.

“Nós, PPM, na Assembleia Municipal, temos batalhado em várias vertentes mas
fundamentalmente nas questões patrimoniais devido à minha formação académica, e ao
programa do partido que sempre defendeu muito as questões patrimoniais e culturais, e
também a questão da higiene pública. Em termos do património temos uma situação muito perigosa. O Estado não tem verbas para cumprir com as suas responsabilidades. A
Direcção Geral do Património Cultural, DGPC, é o super organismo, a nível nacional, que
tem marcado a sua acção por variadíssimos erros. Lisboa está a mudar muito, e muito
depressa, o que pode ser bom em algumas questões, principalmente em retorno turístico,
mas também muito mau quando há má gestão. A maior parte dessas mudanças mexem em estruturas importantíssimas da nossa cultura, do nosso passado, e não vejo presentemente sensibilidade na actual vereação da câmara para lidar com esses problemas. Veja-se os casos polémicos, em que nos temos batido desde a primeira hora, da colocação de azulejos na Praça da Figueira. Trata-se de um projecto profundamente datado, ultrapassado e que nunca foi consensual entre o meio do património e de arquitectura da cidade. A câmara decidiu avançar quase vinte anos depois com este projecto sem dizer nada a ninguém como se fossem proprietários da baixa pombalina, que corre um risco real de não ser reconhecida como património mundial da UNESCO por brincadeiras como esta.”

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“Outro caso, em que fiquei estupefacta, foi relativo à nossa proposta de higiene urbana. Ora, Lisboa tem cerca de 600 mil habitantes. Todos os dias entram na cidade 1 milhão e 500 pessoas, sem contar com os turistas. O departamento de higiene urbana tem meios para limpar o lixo produzido por 600 mil habitantes, mas não para mais de dois milhões, que é o numero efectivo de pessoas que diariamente utilizam esta cidade, quer seja para trabalhar ou apenas para actividades lúdicas. A cidade não está limpa, está suja, muito suja. No passado mês de Maio apresentei na Assembleia Municipal uma proposta para que a recolha de resíduos sólidos fosse realizada 365 dias por ano através da implementação de turnos entre os trabalhadores do departamento de higiene urbana da autarquia.
A CDU, o PEV acusou-me de querer apenas “uma cidade limpinha para os turistas”. O Bloco de Esquerda alegou que o trabalho por turnos “é uma realidade que produz muitos
problemas de saúde para os trabalhadores”, e, por fim, o PS, na voz da Presidente da
Freguesia da Misericórdia Carla Madeira, alegou que nas zonas históricas da cidade,
aquelas que estão verdadeiramente sujas, ”já se realizam recolhas quase todos os dias”. O que não é verdade! Agora a Câmara decidiu, pasme-se, fazer recolha aos domingos nas
zonas de “maior necessidade”. Ainda estou segura de que a proposta do PPM será
implementada na sua totalidade. É assim que esta câmara trabalha. Nenhuma vitória para a oposição. Mais tarde aplicam as nossas propostas, ligeiramente alteradas.”

Sendo das figuras com mais destaque no Partido Monárquico, para quando avançar para a liderança? É uma ideia em mente?
“Não tenho isso em mente mas estou disponível para aquilo que o partido precisar de mim. Uma pessoa tem de ter noção dos seus limites, ser presidente de um partido exige uma dedicação total. A minha prioridade neste momento é ser professora universitária, e ser professora não implica apenas dar aulas, implica investigação, publicar artigos, trabalhar nos arquivos, portanto, é necessário tempo. A política é o meu contributo cívico”.

E como não podia deixar de ser, sendo a Aline historiadora e monárquica, à sobremesa
deixou-nos uma história de reis. “Cada vez que vejo doces de ovos lembro-me de D. João V. Conhecem a história da galinha? D. João V tinha um confessor sempre a chatear porque ele envolvia-se com muitas mulheres. O confessor disse que isso era pecado: “El Rei, tenha paciência mas isso não pode ser. Então e a Rainha?” Um dia o rei fartou-se, sabendo que o confessor adorava canja de galinha, decidiu servir canja todos os dias. “Está muito saborosa e o que há mais?” “Há canja”. No dia seguinte a mesma rábula. Jantar? Canja. Andou nisto um mês até que às tantas o confessor diz “El Rey, realmente a canja é muito saborosa aqui no paço, mas eu gostava de comer mais alguma coisa para além de galinha”. “Ah, pois, senhor confessor, nem sempre galinha, nem sempre rainha”.

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