E se as mulheres da elite passassem a lutar pela igualdade de todas?

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A segunda temporada de Handmaid’s Tale, cujo último episódio foi para o ar a semana passada, foi amplamente criticada por ser um inventário de violências contra as mulheres. Vimos a simulação de um enforcamento, com o fito de aterrorizar as servas, a violação de uma mulher grávida em fim de gestação, uma execução por afogamento de uma rapariga de 15 anos casada por imposição que se envolve com outro homem, um parto sem assistência, várias crianças separadas das mães, espancamento em contexto de violência doméstica, assassinato a sangue frio no meio da rua e mutilação.

No fim de 13 episódios quase insuportáveis de ver (se a realização e fotografia não fossem tão bonitas creio que seria impossível) temos a chave para perceber toda a violência: Serena, afinal, não pertence à elite, é despersonalizada, não tem direito a voz, à imagem de todas as mulheres de Gilead. Descobriu à força que seu grupo de pertença não é o seu grupo de referência e perdeu, por isso, um dedo.

Sim, cortaram um dedo a Serena. A punição por um crime de leitura fora em tempos decepar uma mão. Alguma coisa tornara o regime de Gilead mais brando. O que leu Serena? Os primeiros versículos do Evangelho segundo São João:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus. N’ Ele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens. E a luz brilhou na escuridão.”

Não importa se o texto vem da Bíblia. Como sempre, também em Gilead, lê-se a parte que dá suporte divino aos princípios fundadores da nova organização política e social, usa-se o que dá jeito e o resto deixa-se inaudito. Os comandantes da nova república teocêntrica e militar da América também terão lido o Génesis. No primeiro livro das Sagradas Escrituras pode ler-se “O Senhor Deus disse: ‘Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele’”. Esta frase encerra em si a ambiguidade necessária a todas leituras que se queiram fazer sobre o estatuto da mulher. Auxiliar como ajuda, como complemento ou como secundária e semelhante como parecido, idêntico ou igual? Qual escolhe a leitora?

Gilead escolheu para as mulheres o estatuto de secundária e parecida e deu-lhes classes. As mais privilegiadas são as Esposas, rainhas do lar, das malhas e do aborrecimento, as Martas são as empregadas domésticas e as Servas são escravas de reprodução sexual. As estruturas militares também têm um ramo feminino, as Tias, que educam com castigos físicos as mulheres para as suas tarefas específicas, dependendo do estatuto social a que estão vinculadas – entreter, limpar ou reproduzir.

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O que queria Serena para praticar um crime em frente ao órgão de poder mais importante da República de Gilead? Queria poder ensinar a filha a ler, coisa proibida a todas as mulheres. A alocução que dirige ao Conselho de Ministros é feita no pressuposto de que ela e as outras Esposas ali presentes pertencem aos privilegiados, talvez até conduzidas pela circunstância de serem casadas com ministros. Diz ela: “A nossa lei autoriza aqueles que estão em boa posição a compor emendas que possam ser consideradas pelo Conselho. Nós gostaríamos de compor uma emenda.” E então, cortam-lhe um dedo, avisando assim todas as mulheres.

Há outra chave, em contraponto: as Martas solidarizam-me com June para a retirarem com a filha bebé da casa dos Waterford. Serena descobre acaba por deixar que ambas fujam. Mulheres de classes diferentes, que já vimos criticarem-se mutuamente, insultarem-se e baterem-se, unem-se por uma causa que não é delas mas que acaba por ser comum. Passam June e a filha pelos quintais e levam-nas até ao carro que as poderá por fora de Gilead.

O que aconteceria se todas as classes de mulheres de Gilead se unissem por um estatuto igual ao dos homens? Ou se, pelo menos, as Esposas não tivessem virado as costas a Serena quando esta começou a ler? Ou se as Esposas, incluindo Serena, não tivessem assentido na violação sistemática das mulheres férteis? O que aconteceria se as mulheres da elite passassem a lutar pela igualdade de todas com todas? Que conseguiriam as Esposas com uma frente de luta comum?

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Carla Macedo nasceu em 1979 e nem acredita que já passou tanto tempo. É jornalista desde 2001, feminista desde os 8 anos, quando teve uma epifania na missa. Esteve envolvida na criação do site Delas.pt, do qual foi editora executiva até ao verão de 2018. Conduziu entrevistas na rádio TSF a mulheres que se destacam em diferentes áreas, no programa Conversas Delas. Na LuxWoman, foi chefe de redação, na Máxima Interiores, também. Colaborou com a Evasões, a Volta ao Mundo (sim, sim, adora viajar!), a Notícias Magazine, a Sábado e muitas mais. Fez televisão para uma produtora, mas os programas nunca foram para ar – danos colaterais da crise! Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, começou no jornalismo numa revista de carros, a Frota, ainda antes de acabar o curso, fez o CENJOR e depois um curso de Jornalismo Multimédia. É casada. Tem dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Igualdade em casa é coisa que não falta.

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