América e Europa: o fim de um romance

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A semana que passou na diplomacia transatlântica foi tão cheia de drama barato, truques baixos e confusão, que mesmo pelos níveis a que nos habituou a era Trump, parecia pior que um mercado do peixe em hora de discussão e não os fórums com os líderes mais séniores da NATO, União Europeia e G7.

Tudo começou pela cimeira da NATO. Já se sabia que Trump ia pressionar os membros da NATO a aumentarem as suas contribuições para o orçamento da organização, pelo menos para os 2% do produto interno bruto nacional que estão inscritos nas suas regras, e até talvez para os 4% (imagina-se a criatura laranja a esfregar as mãos de contentamento e a pensar “vou mete-los na linha”). É verdade que a maior parte dos países da NATO tem ao longo dos últimos sessenta anos beneficiado da proteção militar americana quase a custo zero. De todos os membros da organização atlântica, só os Estados Unidos, Reino Unido, Grécia, Polónia e Estónia cumprem a quota de 2% ou mais de contribuições.

Vários países vieram logo ufanamente indicar que sim, lá para 2025 ou isso cumpririam este objectivo (incluindo o nosso sempre prestável António Costa, que nem dinheiro tem para manter um Serviço Nacional de Saúde em condições quanto mais um exército digno). A realidade é que há décadas que sempre que o mínimo problema estratégico ou de defesa acontece na Europa são os americanos que o resolvem ou são chamados para resolver: guerra na Jugoslávia, Kosovo, Geórgia, Ucrânia, a lista continua. Os americanos estão fartos disso, têm uma dívida pública colossal (que faz a dívida grega parecer um caso de virtude suiça) e na prática desde a queda do Muro de Berlim que sentem que a Europa já não é uma prioridade estratégica.

Este desligar do cordão umbilical entre a Europa e a América já vem desde a presidência de Clinton e não começou agora, como as almas mais susceptíveis tentam intimar. O problema é que o que antes era dito nas entrelinhas e com um sorriso (ou com a suavidade cínica de Obama) é agora dito aos berros e entregue via buldozer, com Trump ao volante. O problema não é a essência da questão (isto é, o pivot da América para a Ásia como a sua preocupação estratégica fundamental para o século XXI), mas o modus operandi de Trump e da sua equipa.

Por exemplo, na cimeira da NATO da semana passada, ninguém reteve um único ponto da discussão essencial: vai ou não a Europa assumir de uma vez por todas as suas responsabilidades na organização que lhe dá segurança militar ou em vez disso vai formar um verdadeiro exército europeu? O que se discutiu foi a extraordinária crítica que Trump fez em plena cimeira a Angela Merkel (sempre as mulheres como seu alvo preferido) de que a Alemanha estava inteiramente dominada pela Rússia. A crítica é duplamente ofensiva não só pela História alemã (a longa ocupação da Alemanha de Leste por um regime ditatorial financiado pela Rússia) mas sobretudo pelo facto de que Merkel cresceu e viveu durante décadas nesse regime, sofrendo como os outros alemães de leste as proibições e limitações a uma vida normal que esse regime impunha. Nunca se tinha visto um ataque assim de um aliado ocidental a outro, em plena cimeira, na diplomacia moderna.

O circo Trump seguiu então para o Reino Unido, a pretexto de uma visita ao país, que a diplomacia britânica teve o cuidado de estruturar meticulosamente entre Windsor, Chequers e Blenheim, dado que se esperavam protestos maciços em Londres. Trump foi oferecido um banquete sumptuoso na casa onde Winston Churchill nasceu (o pobre Churchill deve estar a revirar-se no túmulo), o privilégio raro de uma audiência de duas horas com a Rainha e níveis de segurança sem precedentes.

O que recebeu o Reino Unido (que perdeu milhares e milhares de soldados em guerras de apoio aos Estados Unidos) em troca? Uma entrevista exclusiva de Trump ao The Sun na véspera da reunião entre o Presidente e a senhora May, em que ele comentou em todo o detalhe e sem o mínimo cuidado diplomático a estratégia britânica em relação ao Brexit (“um desastre”), exprimiu ódio pela União Europeia (uma organização que a própria America ajudou a criar no pós-guerra e que apoiou extensivamente nos anos iniciais com o generoso Plano Marshall) e em que se derreteu de elogios a Boris Johnson, o maior rival da senhora May. Aliás este é o mesmo Trump que ainda recentemente incentivou Macron a tirar a França da União Europeia, em declarações nada modestas ao Le Figaro. Seguiu-se uma conferência de imprensa conjunta entre Trump e May em que Trump negou ter dito o que disse à imprensa (clássica tática de manipulação mental trumpiana) e consolou May com o epitáfio de que a relação entre os americanos e os britânicos era “mais especial do que especial”. May parecia estar no purgatório, tal qual Joana D’Arc prestes a ser incenerada, em vez de numa conferência com os media.

Seguiram-se dois dias em que Trump jogou golfe no seu resort na Escócia e em que ninguém viu Melania (presume-se fechada no seu quarto a sete chaves, longe da criatura com quem teve a infelicidade de se casar). Na segunda-feira, Trump encontra-se com Vladimir Putin em Helsínquia, com quem por certo não vai ter senão palavras de admiração e conforto tal como as que teve para com Kim Jon-un da Coreia do Norte ou Xi Jinping da China. Se a mão que Trump, o grande agitador, aperta é a de um homem forte, preferentemente ditador, aí sim ele é mais do que submissso a todo o tipo de protocolos e convenções diplomáticas.

Um Presidente que apoiasse a aliança atlântica, a estabilidade da Europa e os valores democráticos liberais, jamais se teria portado como Trump se portou esta semana na Europa. Claro que todos (menos os mais ingénuos ou fanáticos) já compreenderam que a aliança atlântica está, com ou sem Trump, em declínio terminal. Mas para além de reconhecer esse facto há que começar a compreender que este Presidente não partilha os valores e interesses do Ocidente. E até que, à medida que ele continua no cargo (pouco ou nada se vê no campo dos Democratas que o possa derrotar em 2020) ele pode tornar-se uma ameaça material aos aliados ocidentais.

É importante fazer como Macron inteligentemente faz: manter Trump por perto, mas sublinhar claramente a diferença e traçar limites. Para além disso, a Europa tem de uma vez por todas de deixar de pensar que a América vai continuar a resolver todos os problemas que aparecem e preparar-se para ser mais activa no plano geopolítico e militar, o que implica escolhas e opções difíceis a todos os níveis. O cordão umbilical inevitavelmente vai ter de ser cortado. Só se espera que por uma boa equipa médica e não por amadores.

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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